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À margem

O martírio de Rolando, bispo de Matagalpa

| 09/11/2023

bispo de matagalpa, rolando alvarez, presente a tribunal, a 13 dezembro 2022, foto direitos resrevados

O bispo de Matagalpa, Rolando Alvarez, presente a tribunal, a 13 de dezembro do ano passado. Foto: Direitos reservados

 

Era um sábado, aquele 2 de abril de 2011. As crónicas contam que, ainda ele não tinha chegado a Matagalpa, já os fiéis mais curiosos se começavam a juntar nas bordas da estrada que vinha de Manágua, na direção do interior do país. À medida que se aproximava da catedral, a agitação foi crescendo. As bandas de música marcavam presença e até algumas casas comerciais haviam colocado colunas com música de louvor à Virgem e afixado imagens do Papa e do novo bispo. Rolando era o seu nome. Rolando Alvarez Lagos.

Quando chegou a hora da cerimónia, a multidão, que não coube na catedral, teve de seguir a liturgia e ouvir o seu novo pastor através de ecrãs gigantes colocados no exterior.

O calor humano desse dia memorável foi apenas o início de uma relação de afeto e proximidade que a população daquela cidade comercial de clima tórrido, mas amenizado pela altitude, com ele criou.

O bispo Rolando deu-se como tarefa visitar todos os recantos da sua diocese, independentemente de onde ficassem. Era vê-lo a atravessar rios em pequenos barcos ou a cavalo, a entrar em autocarros, a ir de burro serra fora e até a chegar de bicicleta a uma peregrinação. Todos os locais e todos os meios serviam para o encontro e para o anúncio da Boa Nova.

Originário da capital da Nicarágua, onde nasceu em novembro de 1966, Rolando era filho de operários. Cresceu numa família católica e, em jovem, tornou-se líder nacional de grupos da pastoral juvenil. Há versões não coincidentes sobre o porquê de ter fugido para a vizinha Guatemala, quando chegou a altura de cumprir o serviço militar, já na vigência da revolução sandinista. Aí entrou num seminário e foi fazer a sua formação filosófica e teológica em Roma, vindo a ser ordenado presbítero na sua diocese natal, corria o ano de 1994.

O período seguinte foi de intensa e diversificada atividade – pároco, professor e prefeito do seminário de Manágua, coordenador nacional da pastoral juvenil, secretário da estrutura do episcopado da América Central… Porém o setor em que progressivamente mais se envolveu foi a comunicação social: diretor da Radio Nicarágua, da Igreja, secretário do departamento de comunicação social da Conferência Episcopal da Nicarágua e secretário de informação e porta-voz da Arquidiocese de Manágua. Ou seja, aquando da sua ordenação episcopal, não era um padre qualquer; era já conhecido e apreciado.

A exemplo de outras figuras da América Latina, como o bispo Óscar Romero, que viria a ser assassinado em El Salvador, a ação do bispo Ronaldo Álvarez foi-se “politizando” em Matagalpa (e, nos anos mais recentes, como administrador apostólico da vizinha diocese de Estelí) em resultado do contacto com as situações de injustiça e de pobreza de largos setores da população e das crescentes dificuldades criadas pelo regime de Daniel Ortega ao trabalho de promoção das pessoas e de evangelização das comunidades.

Os relatos de imprensa que se podem encontrar sublinham a frontalidade e a clareza das suas intervenções, que não se coibiam de denunciar as situações erradas, quando entendia que era isso que era preciso fazer.

O ponto nevrálgico de um crescendo de confrontação entre a Igreja Católica, claramente maioritária no país, e o governo nicaraguano situa-se no ano de 2018. Em abril, centenas de milhar de pessoas foram para as ruas em numerosas cidades do país, para protestar contra a reforma na segurança social e o aumento de impostos, tendo sido violentamente reprimidos por forças policiais e do exército.

bispo rolando álvarez, nicaragua, foto infobae

Rolando Alvarez numa das situações em que a policia o molestou. Foto © infobae.

 

A crise que se instalou, como o Governo de Ortega nunca havia visto, suscitou simpatias não apenas das bases da Igreja, como de alguns membros do episcopado. Sem que existam dados rigorosos, calcula-se que tenham sido mortas várias centenas de pessoas. O eco e as denúncias externas obrigaram o regime a aceitar plataformas de diálogo entre as partes em conflito, mediadas pelo arcebispo de Manágua, o seu auxiliar Sílvio Baez e o bispo Rolando Alvarez, que não deram qualquer resultado. Pelo contrário, o regime recrudesceu a repressão, meteu os líderes oposicionistas na prisão e Ortega concorreu sem adversários às eleições presidenciais de 2021.

A partir de então, toda a máquina governamental e policial tratou de calar as cada vez mais reduzidas vozes críticas ou apenas não controladas da sociedade civil, incluindo as religiosas. Polícia ou milícias faziam incursões ameaçadoras; as igrejas e as homilias passaram a ser vigiadas, campanhas ameaçadoras foram lançadas em torno dos setores e pessoas incómodas. Foram às centenas as organizações não governamentais – ligadas à ação social e educativa, sobretudo – que viram as suas licenças serem canceladas, com os argumentos mais arbitrários ou simplesmente sem qualquer argumento.

O ano de 2022 foi particularmente duro desse ponto de vista e a Igreja Católica, que mantinha ainda alguma capacidade de autonomia – nas suas redes de pastoral sociocaritativa e no campo educacional e mediático – tornou-se assumidamente um alvo a abater. O ditador passou a atacar o Papa e acabou a expulsar o núncio apostólico em Manágua.

No meio de tudo isto, o bispo Rolando Alvarez foi-se tornando uma voz cada vez mais incómoda e insuportável para o regime. Deu voz às aspirações à mudança que havia na sociedade. Nas homilias e através das emissoras católicas de rádio na sua diocese mostrava que não se vergaria aos atos de ameaça de que foi objeto.

Como o Governo estava a assediar amigos e familiares seus, desencadeou uma greve da fome em Manágua, exigindo que os perseguidores os deixassem em paz e atuassem sobre quem de facto pretendiam atingir, ou seja, ele próprio. Ao fim de algum tempo, a polícia reconduziu-o a Matagalpa. Pouco tempo depois, com grande aparato de viseiras e bastões em punho, a polícia cercou a Cúria diocesana, onde o bispo estava em reunião com uma dezena de colaboradores diretos, não deixando ninguém entrar ou sair durante uma dúzia de dias. Perante a repercussão que o caso estava a adquirir, as forças policiais invadiram de forma violenta a casa episcopal e conduziram o bispo para prisão domiciliária em Manágua e os seus colaboradores, padres e leigos, para um centro de detenção de presos políticos.

Se o bispo já era uma das vozes que desassombradamente denunciava a injustiça e a falta de liberdade e se havia transformado numa “figura muito popular no país”, como referiu a seu tempo a BBC em espanhol, a sua prisão tornou-se num facto sem precedentes, com impacto à escala internacional (o bispo auxiliar de Manágua, Silvio Baez, ameaçado de morte, tinha deixado o país em 2019).

Ia-se tornando progressivamente mais claro que, na Nicarágua, quem não agradasse ao poder teria pela frente um de três caminhos: o auto-silenciamento, a prisão ou o desterro.

bispo rolando alvarez recebe visita dos seus irmãos na prisão, foto divulgada a 25 de março de 2023 pelo governo da Nicarágua

O bispo a receber a visita dos seus irmãos na prisão. Foto divulgada a 25 de março de 2023 pelo Governo da Nicarágua, presidido por Daniel Ortega. 

 

No caso do bispo Rolando, o objetivo do regime passou a ser colocá-lo fora do país. Em prisão domiciliária até fevereiro deste ano de 2023, Ortega engendrou a operação de “exportação” de mais de duas centenas de prisioneiros políticos para os Estados Unidos, colocando o nome do bispo nessa lista. Porém, chegada a hora de embarcar, ele recusou-se a assinar o consentimento. No dia seguinte, um tribunal condenou-o a 26 anos de prisão, acusando-o de minar a integridade do país, de desobediência e de divulgação de notícias falsas.

Desde esse dia, deixou de haver notícias dele. A perseguição a outras entidades da Igreja prosseguiu e agravou-se, com o congelamento das contas das dioceses, a apropriação da Universidade dos Jesuítas, a expulsão de franciscanos, a prisão e deportação de padres diocesanos.

Alvarez recusou aquilo que estava na sua mão: calar-se e sair voluntariamente do país. Foi remetido a um regime de isolamento total, onde pode acontecer de tudo. Uma líder política que foi em fevereiro deportada revelou que, em todo o tempo em que esteve nas masmorras de Ortega, nem luz (e, portanto, leitura) podia ter. Uma pequena abertura na parte superior da cela havia sido propositadamente tapada.

Importantes têm sido as manifestações de solidariedade e de presença relativamente a este bispo. Ele foi calado na sua voz, mas a única forma de corresponder à força do seu gesto é fazer soar o seu testemunho.

Não se esperaria que alguém preferisse a prisão à liberdade. Com o gesto de não abandonar o país, Rolando Alvarez mostrou que ficar seria a forma mais eloquente de manifestar proximidade à causa da justiça e da dignidade dos mais pobres e vulneráveis da sua diocese e do seu país. Ficou perto deles, mesmo silenciado.

O seu gesto é de longe aquele que o regime menos aprecia. Mas só poderá frutificar se os que estão fora e podem agir não se esquecerem dele.

Não esquecendo o sofrimento inimaginável a que estará sujeito, o desafio é fazer presente a sua ausência. É fazer falar o seu silêncio. É ser compassivo e solidário com o seu martírio. Sabendo que o testemunho vai ficar para sempre.

 

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