“Anulo programa de amanhã por leve acidente de saúde. Ab[raço] amigo do Jardim.” Foi esta a última mensagem que o Padre Jardim [Gonçalves] me escreveu, via WhatsApp. Foi ao princípio da tarde de dia 19 de dezembro, uma quinta-feira. Liguei-lhe imediatamente, para tentar apurar das causas de tão inesperado cancelamento, ele que tanto apreciava os nossos encontros. Desde há dois anos que, uma vez superada a loucura do isolamento provocada pela covid, nos encontrávamos religiosamente no dia 20 de cada mês, para almoçar. Sempre no mesmo restaurante, o Oh Lacerda, em frente da Fundação Gulbenkian. Em permanência, éramos apenas três: ele, eu e a Inês Rapazote, uma jornalista como eu que suspendera a sua atividade profissional para trabalhar naquela Fundação. Madeirense como ele, bem mais jovem que nós os dois, tal como eu fora casada pelo padre Jardim, uma coincidência de que este muito se orgulhava. Como a Inês estava sujeita a um horário de trabalho, competia-me a mim ir buscar e levar de automóvel o nosso amigo à casa onde passara a viver desde que tivera um grave AVC que lhe condicionara a mobilidade.
Estivesse chuva, frio ou um calor abrasador, nunca o Jardim faltara a um dos nossos almoços e por isso mais estranhei o cancelamento. Pelo telefone, explicou que lhe surgira um problema no aparelho digestivo, mas que já estava a ser acompanhado pelo seu médico. Nada de grave, acentuou. Desde que sobrevivera por milagre a um desastre de avião, na América do Sul, sempre relativizara os seus achaques. Em todo o caso, pareceu-me tranquilo. Estava enganado: horas depois foi internado num hospital, onde viria a falecer no domingo dia 22 de dezembro, com 92 anos de idade.
Um encontro no campo de férias da JUC
Já voltarei a estes encontros/almoços, que muito estreitaram a nossa relação de amizade. Uma relação que já tinha mais de meio século.
Sei bem onde o conheci: num campo de férias da Juventude Universitária Católica [JUC] de Lisboa, nos Remédios, em Peniche. Só não estou certo do ano: 1972 ou 1973. Com 20 anos, estudante de Economia, eu militava na JUC e ele foi um dos convidados para animar um dos debates nesse campo de férias, juntamente com o então patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro. Muito mais que os problemas da Universidade ou do Ensino, o que se discutiu, e com a vivacidade da juventude, foi a guerra colonial e o silêncio comprometido da Igreja portuguesa, velha aliada de um regime esclerosado que não respeitava minimamente os direitos humanos.

Numa visita à exposição Livre, de João Abel Manta, deliciado a ver um dos desenhos da série Salazar, ilustrando as relações entre o Estado Novo e a Igreja Católica em Portugal (junho de 2024). Foto © José Pedro Castanheira.
O contraste entre o padre Jardim, então assistente religioso da Liga Operária Católica – um movimento, tal como a JUC, pertencente à Ação Católica –, e o futuro homem forte da Igreja portuguesa, foi absoluto, de tal forma que nunca mais me esqueci desse nosso primeiro encontro. O Jardim personificava de certa forma o tipo de Igreja em que eu me revia, bem como a leitura e a interpretação que eu então fazia da mensagem evangélica de Cristo.
Para mim, o Padre Jardim (ou melhor, e simplesmente, ‘o Jardim’, como quase todos os amigos o tratavam) passou a ser uma referência, e assim se manteve até ao fim.
Cheguei a acreditar que poderia ser bispo
A tal ponto que, em 1975, quando a Lúcia e eu nos casámos, foi por minha sugestão que o escolhemos para presidir à concelebração. Ele estranhou essa escolha, disse-me muitos anos depois, e eu lá tentei justificar o porquê, mas por mais voltas que se dê, quase nunca se consegue racionalizar a admiração e a confiança, o afeto e a amizade. Estávamos em vésperas das primeiras eleições livres para a Assembleia Constituinte.
No plano da Igreja, estávamos juntos num pequeno grupo que se havia formado, chamado Cristãos Em Reflexão Permanente (CERP), que mais tarde viria a juntar-se a outros grupos e movimentos, dando origem ao atual Centro de Reflexão Cristã (CRC).
Vivíamos em pleno PREC, e se quase tudo era possível no plano político, também eu acreditava que a mudança e a evolução haveriam de chegar à Igreja. A começar pelo episcopado, que se revelara incapaz de responder aos novos tempos e de sentir o pulsar do chamado “povo de Deus”. Para mim, era claro que o episcopado português necessitava urgentemente de um aggiornamento e até via alguns sacerdotes com quem privara a serem nomeados bispos – entre eles o padre Jardim. Santa ingenuidade a minha!
Memórias? Nem pensar!
Dêmos agora um pulo de quatro décadas, que não há espaço nem tempo para aqui as detalhar – ficarão, quem sabe, para um eventual livro, em que teria muito gosto em colaborar, sobre o padre Agostinho Jardim Gonçalves.

Visita à exposição Terra da Fraternidade: 54 recados para José Afonso, da autoria de José Manuel Castanheira, na Assembleia da República (setembro de 2024)
Há meia dúzia de anos, já reformado do semanário Expresso, achei que deveria trabalhar nas suas memórias – numa longa entrevista, numa biografia, mesmo numa autobiografia. Quando fui falar com ele e lho propus, levei com um rotundo e sonoro não, acompanhado de uma das suas saudáveis gargalhadas. “Nem pensar, não tem interesse nenhum!” Já habituado enquanto jornalista a este tipo de respostas ou reações, obviamente que não desisti. Tratei de arranjar, entre amigos comuns, alguns aliados para este projeto, que a meu ver tinha todo o sentido, não apenas jornalístico, mas sobretudo historiográfico. Como bem aqui escreveu o António Marujo, ele tivera “uma vida cheia” e teria certamente “muitas memórias por contar”.
Lembro-me de ter falado, entre outros, com o Fernando Abreu, que foi uma espécie de líder informal da Base, e com o Cesário Borga, querido camarada e amigo, que conhecia o Jardim desde os tempos da JOC e que também fora casado por ele. Ambos se dispuseram a tentar demovê-lo, mas ele não se condoeu: o não era mesmo não.
“Uma onda de felicidade”
Em 2019 o Jardim foi acometido pela já referido AVC. Visitei-o na casa da Avenida 5 de outubro [em Lisboa], mas depois sobreveio o confinamento sanitário provocado pela covid. O nosso contacto passou inevitavelmente a ser mais distante, espaçado e virtual. Vencida a covid, que também o infetou, felizmente sem sequelas, e sentindo-se capacitado (mais que isso: cheio de vontade), fomos almoçar uma primeira vez em janeiro de 2022.
No tal Oh Lacerda, os dois mais a Inês, que acreditava que o contacto regular seria a única esperança para qualquer coisa que se parecesse com memórias. A partir daí, o dia 20 de cada mês ficou trancado nas nossas agendas. Formámos no WhatsApp um grupo de conversa, a que eu dei o nome, propositadamente provocatório, de “Memórias do Agos”. Agos, de Agostinho, era o seu nominho familiar e achei que se adaptava perfeitamente ao espírito da nossa amizade triangular. Tivemos horas e horas de conversa. Cada vez mais confiante nas suas debilitadas pernas, passámos a ir juntos a exposições, lançamentos de livros e outros eventos.
Chegámos até a ir jantar, o que lhe levantava alguns problemas logísticos. E como ele gostava da boa mesa, do convívio, da conversa, dos amigos, do estar com. “Uma onda de felicidade”, escreveu-me uma vez, para sintetizar quanto apreciara a jornada da véspera.
Uma fotografia de Jorge Sampaio

Fotografia com dedicatória do Presidente Jorge Sampaio. Foto: Direitos reservados (fotografia original de Ricardo Oliveira).
Por vezes, pedia-me que localizasse este ou aquele com quem gostaria de falar, de rever – talvez de se despedir. Com o correr do tempo, desisti por completo do tal projeto das memórias. Deixara em definitivo de ser esse a motivo dos nossos encontros. Talvez para me recompensar, passou a oferecer-me materiais que encontrara no seu vastíssimo arquivo pessoal e de cuja organização encarregara um amigo. “Tudo o que eu tiver sobre o Jorge Sampaio irá para ti”, disse-me mais que uma vez; “são coisas que deixaram de me interessar, mas que poderão ser úteis ao seu biógrafo”. Foi assim que um dia me trouxe uma fotografia, com uma dedicatória do ex-Presidente da República, aquando dos seus 70 anos, e que ilustra bem a relação de proximidade, mesmo de cumplicidade, que mantinham: “Para o querido Amigo P. Jardim Gonçalves, com o apreço e a admiração de sempre do muito grato Jorge Sampaio”.
Sempre brincalhão, ofereceu-me também vários cadernos, agendas e diários, esclarecendo que eram para me ajudar a escrever as tais memórias. Com a particularidade de que estavam… em branco, ou quase. Num livrinho verde belamente encadernado, com o título “O meu diário” escrito a dourado e uma fechadura destinada a guardar os segredos da intimidade, ofertado em 1956 por um amigo da Madeira, escreveu com data de 20 de outubro de 2022: “Ao grande amigo José Pedro Castanheira este ‘O meu diário’ que nunca escrevi”.
O prefácio que preferiu não escrever
Uma outra oferta foi a chamada “Agenda Lalique”, editada pela Fundação Gulbenkian, que só aparentemente estava virgem, na medida em que escrevera meia dúzia de reflexões de carácter muito pessoal. De todas, permito-me transcrever duas: “Todas as viagens chegam ao fim e é preciso regressar”; e “a experiência prova que só os outros morrem”.
Num terceiro caderno que me ofertou, tinha começado a escrevinhar um prefácio que eu lhe pedira para o meu último livro, um diário de bordo de uma viagem num pequeno veleiro até à Madeira e ilhas adjacentes, a que dei o título de “À Descoberta das Ilhas Selvagens”. Começou a redigir mas logo desistiu, e disso me pediu insistentemente desculpa. Explicou que para escrever sobre a Madeira, ilha a que gostaria de ter voltado para dela se despedir, teria de falar do muito que nela e dela amava, mas também do seu pior, que tanto o desgostava. Preferiu, assim, nada dizer. Acho que o compreendi. E o livro lá saiu mais pobre, porque sem o prefácio do meu Amigo.
O “absurdo” de uma paróquia para os sem-abrigo
O nosso último almoço foi a 20 de novembro. Estava perturbado, até indignado. Não fisicamente, mas como padre e homem de Igreja. Soubera da ideia de aproveitar um dos últimos pisos do edifício da Casa onde vivia e transformá-lo numa espécie de paróquia para as pessoas sem-abrigo. Que ideia “peregrina” e mais “absurda” – comentou repetidamente. Como se as pessoas sem-abrigo de Lisboa passassem a ir à Avenida 5 de Outubro e subissem de elevador lá acima para frequentar a sua paróquia. A seu ver, o caminho deveria ser exatamente o inverso, a Igreja ir ao encontro dessas pessoas sem-abrigo, lá onde vivem e sofrem e são excluídas e marginalizadas. A Igreja das bem-aventuranças a que aspirava e a que dedicara a vida inteira.
Poucos dias depois desse último almoço, meti-me em mais uma aventura náutica, desta vez à volta das ilhas de Cabo Verde. Diariamente despachava por email o meu diário de bordo para um conjunto de amigos. O Jardim era um deles. Quase todos os dias me respondia, comentando, sugerindo, aplaudindo, gracejando. Foi mesmo um dos meus mais assíduos leitores. Por três vezes, ansioso pelo reencontro, quis saber se se mantinha “o nosso dia 20”. Claro que sim, iria lá eu perder o nosso almoço e o nosso reencontro. Mas a esse dia 20 foi ele quem faltou – e não mais haverá outro.
(Foto de destaque: O autor do texto com o padre Agostinho Jardim Gonçalves, num passeio no jardim do Palácio Baldaia, em Benfica, Lisboa, abril de 2023. Foto: Direitos reservados.)










