De Belém a Greccio

O presépio surpreendente de S. Francisco de Assis

| 23 Dez 2023

(Texto a propósito da publicação do livro De Belém a Greccio – O Presépio de São Francisco de Assis, de Isidro Pereira Lamelas e Ana Lúcia Esteves, ed. Paulinas)

 

Ilustração © José Filipe Lamelas

 

O presépio é o fenómeno expressivo mais popular do cristianismo, da arte sacra e talvez a criação mais surpreendente da fé e espiritualidade cristãs.

Se o Natal é a festa mais popular, pelo menos ao nível do folclore religioso, o presépio é o grande símbolo do Natal e possivelmente a obra de arte mais divulgada, ainda que muitas vezes entre as “artes menores”. É uma das expressões mais significativas da religião cristã, mas que ultrapassa as fronteiras do catolicismo e dos que “foram à catequese”.

Mas o que é um presépio?

Todos sabemos, se não nos perguntarem. Mas será que temos resposta perante a pergunta?

Para ajudar, adiantamos uma definição de quem estuda o assunto:

Presépio é uma especialíssima representação da primeira parusia (advento) do Filho de Deus e do seu acolhimento da parte dos Homens, realizada com figuras móveis, diversamente ambientadas, para a qual concorrem diversas artes, em particular a escultura, pintura, música e teatro” (Fernando e Gioia Lanzi, Il presepe e i suoi personaggi, Jaca Book, 2007, 10).

Recuando à origem da palavra, presépio vem do neutro latino praesepium que significava «recinto cercado (prae-saepit) com sebes (saepes)»; do verbo saepire (cercar com sebe), designando, assim, o lugar protegido em que se guardavam os animais. A partir daí, passou a significar a “manjedoura” situada no recinto dos animais. Designa, portanto, a manjedoura, o berço de Jesus Menino e todo o cenário que o rodeia.

Presépio

Jorge Órfão, Mirandela. Presépio. Soldadura, quinagem e chapa. Peça na exposição (Seminário da Luz, Lisboa) do concurso de presépios promovido pela Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) por ocasião dos 800 anos do presépio de Greccio, de São Francisco de Assis. Foto © António Marujo / 7MARGENS

 

Começamos já a perceber porque é que, no presépio recriado em Greccio há precisamente 800 anos (24 de dezembro de 1223), S. Francisco quis apenas dois animais (jumento e vaca) e a manjedoura (praesepium) com feno para o seu surpreendente presépio (Cf. De Belém a Greccio, 157-16).

Um presépio minimalista, mas essencial, para reafirmar a essência da mensagem.

Como escreve Chesterton, “relacionar Deus com uma criança é tanto ou tão pouco inevitável como relacionar a gravitação universal com uma cria de gato. Essa ligação foi criada no nosso espírito pelo Natal, porque somos cristãos, porque somos psicologicamente cristãos, mesmo quando não o somos teologicamente… E aqui se inicia, está bem de ver, outro importante contributo para a humanização da cristandade. Se o mundo quisesse escolher aquilo a que se chama um aspeto não controverso do cristianismo, o mais provável era optar pelo Natal” (Chesterton, O Homem eterno, Lisboa: Aletheia, 2020, 248).

Mas será que o Natal é assim tão incontroverso?

Ou já esquecemos o “escândalo” que provocou o Deus humanado nas origens do cristianismo? Que resta desse escândalo de Belém e do Calvário? Mais ainda: onde está o “espanto” e a “surpresa” que, na nossa infância, nos provocava um brilhozinho nos olhos diante do presépio?

Sabemos pela história que o próprio presépio de Francisco causou alguma inquietação e incómodo no seu tempo, pelo menos num primeiro momento. Alguns dos seus discípulos quiseram reduzir a um ato devocional esse gesto profético com traços “revolucionários”. Apesar disso, a “revolução” de Francisco foi produzindo frutos… Precisamente porque o Pobrezinho de Assis se deixou “espantar” diante do mistério de Belém: deixar-se surpreender requer de algum modo voltarmos a ser pequenos (minores), como crianças que se maravilham perante tudo o que é novo, diante a suprema bondade que nos visita.

Oh admirável pobreza! O Rei dos anjos o Senhor do Céu e da terra repousa num presépio/manjedoura”, exclama, com Francisco, S. Clara (Carta 4, 18-21).

O Papa Francisco reevoca o “Sinal admirável” do presépio que suscita sempre… espanto e admiração (affert semper stuporem et admirationem)”. Um Stupor e admirativo (Admirabile signum) que faz do presépio um “admirável sinal” (Mirabile Signum).

A base mais remota para este espanto reside na passagem do Evangelho que afirma que “os anjos anunciaram aos pastores que guardavam seus rebanhos durante a vigília da noite” (Lc 2,2,8) e que com eles todos “ficaram maravilhados” ao ver o Menino (Lc 2,18).

Os textos antiquíssimos registam o “espanto” de toda a Criação no momento do Natal do Salvador. No Evangelho da infância armeno (VIII,8) lê-se que: “naquele instante, todas as coisas ficaram imóveis, em grande silêncio e espanto. Os ventos deixaram de soprar e nem uma folha de árvore se movia; não se ouvia um murmúrio de água e os rios deixaram de correr; o mar não ondulava e as fontes calaram-se; não se ouvia voz humana e tudo estava num grande silêncio. O próprio firmamento cessou, naquele instante, a sua atividade. Os sinais que medem o tempo pararam. Todas as coisas silenciavam atónicas e hesitantes na espectativa do advento da divina majestade, como se fosse o fim do tempo”.

Num evangelho apócrifo ainda mais antigo regista-se o mesmo “espanto extático” da Criação: «Eu, José, caminhava e não caminhava. Olhei para cima, para o céu e vi a atmosfera espantada. Olhei para a abóbada do céu e vi-a parada; as aves do céu estavam em repouso. Olhando para a terra, vi uma tigela no chão e trabalhadores reclinados, com as mãos [paradas] na tigela; e os que mastigavam, pararam de mastigar; os que levavam comida à boca, não se moviam, e os rostos de todos olhavam para cima. E vi as ovelhas que eram apascentadas; estavam paradas; e a mão do pastor que levantara o bastão para lhes bater ficou parada no ar. Olhando para a torrente do rio, vi as bocas dos cabritos paradas, sem beberem. E, de repente, todas as coisas retomaram o seu movimento» Proto-Evangelho de Tiago, XVIII, 2-3.

Que nascimento é este do nosso Salvador, pelo qual Ele é coeterno com o Pai que o gera! O mundo ficou atónito por ter nascido de uma virgem”, comenta S. Agostinho! (Sermão 369, 2).

João Costa Duarte, Tremês. Painel de azulejos em aresta. Peça na exposição (Seminário da Luz, Lisboa) do concurso de presépios promovido pela Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) por ocasião dos 800 anos do presépio de Greccio, de São Francisco de Assis. Foto © António Marujo / 7MARGENS

 

Os presépios napolitanos e alguns dos nossos presépios barrocos introduzem no cenário presepial a figura do Benino: uma figura criada pelo imaginário popular que condensa em si toda uma arqueologia simbólica da surpresa de uns (inquietação de outros: Herodes) perante o inaudito evento de Belém. O pastor adormecido Benino parece que dorme, mas, na verdade, sonha uma mundo novo que é representado, afinal, no presépio. Ele é a expressão da “maravilha” e do espanto que toda a criação experimentou quando nasceu o Salvador. Ele encarna a encenação de um sonho que é cada presépio, mais ou menos conseguido

O “pastore della meraviglia”: nos presépios barrocos é costume vermos um pastor que se destaca pela sua atitude de espanto contemplativo ante o anúncio do anjo. De olhos fixos no fulgor da luz angélica sobrenatural, de braços elevados para o céu, de boca aberta, numa exclamação silenciosa, encarna o “espanto” ritualizado. Representa a reação natural da humanidade mendiga do Sumo Bem, que nenhum mérito se reconhece, que nada tem para oferecer a não ser o seu dócil assombro. Algumas lendas narram que acabou por ser repreendido por nada ter levado ao Menino, tendo a Virgem Mãe intervindo em sua defesa, confirmando que a missão deste pastor reside precisamente em dar testemunho ao mundo do “maravilhoso” dom de Deus e da capacidade humana de se “espantar” (Nola, Marino, Il presepe. Una storia sorprendente Bologna: il Mulino, 2022, 78-79).

 

Francisco inventor do presépio?

Presépio

Zé Vintém, Cartaxo. Presépio Franciscano, Barro Vermelho. Peça na exposição (Seminário da Luz, Lisboa) do concurso de presépios promovido pela Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) por ocasião dos 800 anos do presépio de Greccio, de São Francisco de Assis. Foto © António Marujo / 7MARGENS

 

Quando ou quem inventou o presépio?

Qual o mais antigo presépio do mundo? São muitos e diversos os candidatos e os que reivindicam tal mérito. Para uns, o que hoje chamamos “presépio” está já figurado nos sarcófagos do século IV, nomeadamente no que se conserva na Basílica de Nereu e Aquileu (cemitério de Domitilla). Outros defendem que o presépio mais antigo do mundo se encontra em Ciociaria, mais precisamente em Boville Ernica (Frosinone, Itália), também num sarcófago. Alguns, ainda, consideram que o mais antigo presépio é o que está em S. Maria Maior, obra que o Papa Bonifácio IV, em memória de Greccio, encomendou ao escultor Arnolfo di Cambio (1290). Há ainda quem defenda que não foi S. Francisco de Assis que inventou o presépio, mas S. Caetano de Tiene, que, em 1534 veio de Roma para Nápoles, trazendo consigo na ideia o presépio de Arnolfo di Cambio que quis reproduzir e divulgar (Cf. De Belém a Greccio, 179-184).

Devemos, em abono da verdade, reconhecer que S. Francisco não é, de facto, o “pai” do Presépio, em sentido rigoroso. E, no entanto, o Papa Francisco, continua a reconhecer que o Santo de Assis está na “origem do presépio”: «Passemos agora à origem do Presépio, tal como nós o entendemos. A mente transporta-nos a Greccio, no Vale de Rieti; aqui se deteve São Francisco, provavelmente quando vinha de Roma onde recebera, do Papa Honório III, a aprovação da sua Regra, em 29 de novembro de 1223. Aquelas grutas, depois da sua viagem à Terra Santa, faziam-lhe lembrar de modo particular a paisagem de Belém» (AS, 2).

Paradoxalmente, o Santo de Assis, que desconstruiu o presépio, acabou sendo reconhecido como o seu criador. Efetivamente, em Greccio Francisco “fez” o mais pequeno presépio do mundo: uma manjedoura e dois animais, e bastou! O resto das figuras ou personagens deveriam ser representadas por cada dos muitos convidados a tomar parte naquela liturgia natalícia. A partir daí, o menor presépio do mundo foi-se tornando o maior presépio no mundo e em mutos mundos (Cf. De Belém a Greccio, 39-159-164).

Francisco que nunca quis “inventar” nada, nem sequer uma nova Ordem religiosa (e, contudo, saiu-lhe uma das maiores famílias religiosas, composta por 3 Ordens) é, de algum modo, se não o “Pai”, pelo menos e grande inspirador dos nossos presépios.  Em que sentido? Precisamente ao querer regressar à alma do Evangelho, na sua simplicidade e radicalidade. Tudo começou de pouca coisa: Et reclinavit eum in praesepio: quia non erat eis locus in diversorio (Lc 2,7). Tudo começa na simplicidade e pobreza deste evento e dos gestos de uma mãe que “deita o seu filho divino numa manjedoura (presepium)” e é isto que encanta o Poverello.

Presépio

Mosteiro da Imaculada Conceição, Campo Maior. O lobo viverá com o cordeiro… e o Menino os conduzirá. Presépio fechado em Diorama. Peça na exposição (Seminário da Luz, Lisboa) do concurso de presépios promovido pela Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) por ocasião dos 800 anos do presépio de Greccio, de São Francisco de Assis. Foto © António Marujo / 7MARGENS

 

Qualquer representação do acontecimento de Belém está, desde então, obrigada a ter em atenção a narrativa evangélica; mas, por outro lado, os próprios Evangelhos são, relativamente a este acontecimento, mais silêncio do que palavras. Só S. Lucas e S. Marcos se referem a ele e em termos bastante lacónicos. Desce cedo, por isso, os cristãos perceberam que nem tudo está nos livros dos Evangelhos. Por isso, desde o século II que a literatura “popular” (apócrifos) e a arte (após o século III), começaram a representar o nascimento de Cristo, acrescentando elementos novos ao “presépio”, isto é, à simples manjedoura. Inicialmente em figuração de natureza mais simbólica que narrativa. Posteriormente, no decorrer dos séculos, a curiosidade e criatividade da fé foi desenvolvendo a narrativa e acrescentando novos dados à cena central.

De onde vêm detalhes e estereótipos como: a noite, o frio ou neve, a música e os cânticos alusivos, a ambientação campestre ou montanhosa, a “gruta” ou cabana, e as figuras tão inesperadas como as parteiras, Eva, as profetisas e ciganas… e tantos, tantos outros figurantes (por exemplo o Presépio da Basílica da Estrela conta mais de 400 figuras).

Efetivamente, o presépio é, desde as suas mais antigas expressões, não uma crónica dos acontecimentos, ou uma fotografia da sagrada Família, ma uma permanente extensão dessa narrativa e acontecimento.

É uma das vantagens de não sermos uma “religião do livro”. Não nascemos nem dependemos do livro único nem está tudo nos livros múltiplos (Bíblia=biblioteca; 4 evangelhos). Os chamados Apócrifos nascem neste contexto de uma religião cujo texto sagrado não diz tudo, porque não é possível dizer o Todo (nem, pelo que vemos nos que absolutizam “O Livro Sagrado”, seria conveniente ou vantajoso!).

Enquanto materialização de uma mensagem, e espiritualização da matéria, o presépio é porventura a mais bela história escrita em mutos dialetos e, frequentemente, com o lodo ou o barro (do velho Adão de que todos somos parte; cf. Gn) que nos suja os pés. É precisamente isto que encanta e emociona Francisco de Assis. O Deus Altíssimo, o Todo-poderoso Senhor do Sol, das estrelas e de todas as criaturas, “assumiu a via da pobreza”, fazendo-se pobre, para nos enriquecer a todos. Como nenhum outro cristão na história, Francisco acredita verdadeiramente que são bem-aventurados os pobres porque como riqueza e seu Tudo têm apenas a Deus: Meu Deus e meu Tudo, rezava. Isto é, a mensagem evangélica não é de prosperidade material, mas de felicidade espiritual. Quanto não ganharíamos se, acolhendo o convite do Pobre de Assis, todos quiséssemos ser mais pobres em vez de ser insaciavelmente mais ricos? Ele que fora rico, bem sabia que esta era uma das causas das guerras e injustiças. Renunciar à riqueza é também renunciar ao poder; num tempo em que a Igreja era omnipotente e opulenta, esta mensagem soava a “chocante” para muitos.

O que Francisco fez em Greccio conserva esta carga provocatória. Muito mais do que um “teatro sacro” ou uma mera reconstituição do mistério de Belém, ele quis, na montanha de Greccio, recuperar o vigor transformador do Sermão da Montanha. Fê-lo, como sempre fez, sem drama nem ameaças, mas brincando. Na para-liturgia de Greccio está presente a dimensão lúdica de toda a ritualidade litúrgica. No seu presépio eucarístico e na sua Eucaristia presepial, a presença real é ensinada e vivida sem necessidade de recorrer à engenharia especulativa da escolástica e às logomaquias que divertiam os teólogos de então (Cf. De Belém a Greccio, 131-137).

Francisco prefere representar os mistérios da fé, tornando-os acessíveis a todos. A natureza profundamente cénica do presépio faz com que a sua história esteja estreitamente ligada à história do teatro, tanto no que toca aos cenários como às cenas, atores e atos representados. As narrativas do Natal de Greccio (sobretudo segundo Tomás de Celano) mostram-nos um Francisco ator que preside a uma verdadeira representação. Alguém comparou este presépio a uma “máquina antitrágica por excelência, que aparece na confluência do teatro, da cartografia, da festa e do jogo” (Nola, Marino, Il presepe. Una storia sorprendente, Bologna: il Mulino, 2022, 31).

 

Globalizar a beleza bondade de Belém

Presépio

Ana Filipa Dias Manaça, Leiria. Noite abençoada. Feltragem, lã. Peça na exposição (Seminário da Luz, Lisboa) do concurso de presépios promovido pela Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) por ocasião dos 800 anos do presépio de Greccio, de São Francisco de Assis. Foto © António Marujo / 7MARGENS

 

Podemos dizer que o presépio se tornou, depois de Francisco, uma forma de globalização da Beleza e Bondade no seu melhor, onde o universal condiz com o local sem ofuscar este último. Francisco converteu o brinquedo ritual encenado há séculos nas igrejas ou nos adros, num ritual cénico cheio de consequências práticas.

Por exemplo: já não é preciso ir à Terra Santa, nem a Belém; não vale a pena combater e derramar o sangue dos “infiéis” (Cruzadas) para encontrar Deus. Belém é, afinal, aqui tão perto: em Greccio ou em qualquer lugar onde os simples acolhem Deus e seu Reino de Paz e justiça. Por isso escolheu Greccio, e não Roma ou mesmo Assis. Tal como o Salvador escolhera “Belém de Efratà, a mais pequena”, Francisco quis trazer Belém para junto de nós, para perto do povo e dos pobres que não podiam peregrinar à Terra Santa nem tinham meios para comprar as indulgências. O nascimento do Salvador tem, desde então, lugar hic et nunc, não apenas na terra, aldeia ou cidade de cada um, mas na vida, no meio dos dramas e sofrimentos quotidianos e reais deste tempo e lugar. A omnipotência divina torna-se realmente omnipresença.

São Gregório Magno refere-se à circunstância de Jesus ter nascido em Belém, nestes termos: “Não foi por acaso que Ele nasceu em Belém. Efetivamente, Belém significa ‘casa do pão’. Ora, Ele próprio afirma: ‘Eu sou o pão vivo descido do céu’ (Jo 6,41). Por conseguinte, o lugar onde o Senhor devia nascer foi chamado antecipadamente ‘casa do pão’, porque era lá que na verdade devia aparecer num corpo de carne aquele que nutriria as almas dos eleitos saciando-se profundamente. Não foi na casa dos seus pais que Ele nasceu, mas pelo caminho, para nos mostrar claramente que, para a humanidade que Ele assumia, nascia como num lugar estrangeiro”.

S. Francisco retoma esta afirmação: natus est in via: nasceu em viagem ou mesmo “na estrada”. Seguir Cristo é estar em viagem e com os que se encontram pelo caminho (cf. 1R 14; FF I, 161). Na sua regra lembra que “peregrinos e estrangeiros” somos, afinal, todos nós de algum modo. Mas, mormente depois de Belém, nenhum de nós caminha só ou sem destino (Cf. De Belém a Greccio, 55-57).

Francisco quis celebrar o Natal numa montanha, no descampado, no meio da natureza, fora, portanto de uma igreja, catedral ou espaço sacro. Desde então, o presépio irá converter-se no grande artefacto ritual, onde o sagrado e o profano se misturam para harmonizar todas as criaturas com o Criador. De facto, nos nossos presépios, tudo gravita em volta de dois mundos: o profano (alegrias, dores, trabalhos e festa) e o sagrado (fé, milagre, mistério, Deus que salva).

Dizem os biógrafos que Francisco considerava o Natal “a festa das festas”. Surpreendente, pois, todos sabemos que “a festa das festas” dos cristãos é a Páscoa. Ele próprio nos esclarece, porém, que a Páscoa da nossa salvação começa no Natal. Eis o motivo da sua alegria incontida! Eis também a razão pela qual associa o Natal à Eucaristia. A manjedoura está para o altar como o mistério de Belém está para a Eucaristia. São dois modos complementares da visita de Deus e presença do Emanuel entre nós. O presépio é, por isso, o grande lugar (Marc Augé); o habitat da mensagem, onde o texto e o contexto ocorrem ao mesmo tempo. Mais do que um mito ou fábula, Francisco vê no presépio a atualização de um acontecimento e a recapitulação da história.

 

Uma miniatura da Vida

Presépio

Rita Gonçalves, Porto. S/ título. Modelação/grés c/ charlote. Peça na exposição (Seminário da Luz, Lisboa) do concurso de presépios promovido pela Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) por ocasião dos 800 anos do presépio de Greccio, de São Francisco de Assis. Foto © António Marujo / 7MARGENS

 

Ao fazer constar da cena apenas os dois animais (e não as principais figuras: Jesus, Maria, José, os Pastores, os Magos…), Francisco está a dizer que cada um de nós deve entrar nesta história e no enredo evangélico. Somos nós a fazer de Maria, de José, de Pastores… e até de Jesus: “Somos suas mães quando levamos Cristo no coração e no corpo […] e quando o damos à luz pelas santas obras” (1CF 9; FF I, 99). Por isso fez questão de convidar todos os habitantes de Greccio e redondezas a participar do seu presépio vivo.

A partir de então, será cada vez mais frequente ver pessoas e atividades de todo o tipo a entrar no presépio: mulheres, crianças, lavadeiras, pescadores, padeiros, pastores, pobres, ricos, ciganas… Todos, todos, todos podem encontrar ali lugar e orientar a sua vida para a Luz de Belém (Cf. De Belém a Greccio, 39-47; 165-170).

No Deus feito criança, isto é, na Vida feita Menino de Belém, reside a capacidade infinita de o presépio, enquanto miniatura da vida, se poder fazer e dizer de mil modos. Cada presépio é um microcosmo, onde cabe todo o quotidiano de uma agenda que interessa a Deus: trabalhos, alegrias, festa, sofrimentos, rituais, negócios, quedas e conversões, guerra e paz, sonhos e esperanças sempre em aberto…

 

Cur Deus homo?

Presépio

António Cabrita Firmino, Portimão. Presépio com Reis Magos. Terracota/barro. Peça na exposição (Seminário da Luz, Lisboa) do concurso de presépios promovido pela Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) por ocasião dos 800 anos do presépio de Greccio, de São Francisco de Assis. Foto © António Marujo / 7MARGENS

 

Francisco e escola franciscana perante a pergunta cur Deus homo? Não vê no pecado do homem ou na decadência do mundo a resposta. Se é que a pergunta faz sentido, a resposta está na Bondade de Deus: Sumo bem, todo Bem, fonte de todo o bem (Cf. De Belém a Greccio, 31-35):

Tu és formosura!
Tu és mansidão!
Tu és segurança!
Tu és descanso!
Tu és gozo e alegria! […];
Tu és toda a nossa riqueza e saciedade!
Tu és beleza!
Tu és mansidão! (…);
Tu és a nossa grande doçura (LD 4-6; FF I, 62-63).

 

Assim reza Francisco; assim nos ensina a olhar Deus.

Tudo é, por isso, bom: o mundo, os seus habitantes, a carne, todos os seres.

Não era assim que pensavam muitos movimentos do seu tempo… e dos nossos tempos!

Aquele que veio ao mundo que era seu e não encontrou nele lugar para nascer (cf. Jo) acolhe agora o mundo inteiro no seu presépio que também é nosso. Todos, todos, todos, prega um outro Francisco, em nossos dias. Os anacronismos, os sincretismos, a fantasia apócrifa, a assimilação de elementos “estranhos” aos Evangelhos, muitas vezes no limite entre a fábula e os factos, só se entendem, no presépio, à luz de uma ritualidade popular em que a fé do povo sabe exprimir-se. É a vida de todos nós inscrita no mesmo mistério, sem ter de se vestir de gala ou de “roupa de ir ver a Deus”.

“Fazer o presépio” ganhou, desde Greccio, portanto, um novo significado: fazer o presépio é recriar o mundo como Deus o fez e quer; é, de algum modo, transformar o caos do nosso mundo real, em cosmos, à volta do Salvador feito Menino, num ritual que se torna lugar de encontro e de repacificação da vida. Cada vez que fazemos o presépio, participamos, de algum modo na recriação do mundo e refundação da própria vida (Cf. De Belém a Greccio, 71-78).

Em Francisco a fé exprime-se em caridade e exterioriza-se em festa. Uma festa para todos: seres racionais e irracionais, animados e inanimados; pequenos e grandes: Se eu pudesse falar ao imperador:

«Queria que nesse dia os ricos dessem comida abundante aos pobres e famintos, e que os bois e jumentos tivessem mais alimento que o habitual. «Se eu falasse com o imperador – dizia –, pedir-lhe-ia que promulgasse um édito geral para que todos os que pudessem fossem obrigados a espalhar trigo e outros cereais pelos caminhos, para que, em tão grande solenidade, as avezinhas, sobretudo as irmãs cotovias, comessem com abundância» (1C 200).

Presépio

Luís Alenquer, Rio de Mouro. Devoção. Escultura; Pedra Lioz, xisto, madeira e metal. Peça na exposição (Seminário da Luz, Lisboa) do concurso de presépios promovido pela Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) por ocasião dos 800 anos do presépio de Greccio, de São Francisco de Assis. Foto © António Marujo / 7MARGENS

 

Com Francisco o Natal assume, como vemos, também uma vertente política. Neste sentido, e para não me alongar muito mais, acrescento um outro aspeto associado ao Natal de Francisco: ele é essencialmente uma mensagem de Paz. No contexto de uma Igreja em armas, que faz guerra aos hereges, aos infiéis; numa sociedade segregadora onde a legislação civil, os concílios e os decretos do Direito Canónico excluem os judeus, os muçulmanos, os leprosos, os hereges, os homossexuais; face a uma sociedade repleta de barreiras e a uma escolástica que exaltava a natureza abstrata, e ignorava por completo (salvo exceções), a vida concreta, o Santo de Assis proclama, sem o menor acento de panteísmo, a presença e proximidade de Deus em todas as criaturas (Le Goff, Jacques, S. Francisco de Assis, Lisboa: Teorema, 2000, 27).

O Santo de Assis lembra que a Fraternidade que Deus quer reconstruir a partir de Belém se deve basear na reconciliação, no encontro e na paz entre iguais: omnes fratres… O Boi e o Burro representam essa utopia de uma só família humana de povos diferentes sentados à mesma mesa (manjedoura, eucaristia). Por isso, pouco antes, escrevera na Regra: «Os irmãos que partirem poderão proceder de duas maneiras espiritualmente com os infiéis:  O primeiro modo consiste em absterem-se de rixas e disputas, submetendo-se “a todos os homens por causa do Senhor” (1Pd 2,13) e confessando serem cristãos. O outro modo é anunciarem a palavra de Deus quando o julgarem agradável ao Senhor

A espiritualidade franciscana deixou, sem dúvida, uma marca forte na piedade popular dos países mediterrânicos e, sucessivamente, em toda a cristandade ocidental. A história do presépio ilustra bem essa marca. Graças à rápida expansão da Ordem numa rede de conventos e pregadores espalhados por toda a Europa, passou-se a valorizar mais a humanidade de Deus, a dignidade dos pequeninos (pobres e crianças), o estatuto da mulher etc., devido à valorização do mistério da encarnação, e a devoção ao Menino Jesus e à sua Mãe (Cf. De Belém a Greccio, 39-47)

 

De Belém a Greccio – O Presépio de São Francisco de Assis.
de Isidro Pereira Lamelas – Ana Lúcia Esteves
Edições Paulinas
248 páginas, formato 14×1,3x21cm, 13,50 €

 

Isidro Lamelas é padre da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) e professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

O aumento da intimidação católica

O aumento da intimidação católica novidade

A intimidação nos meios católicos está a espalhar-se por todos os Estados Unidos da América. No exemplo mais recente, a organização Word on Fire, do bispo de Minnesota, Robert Barron, ameaçou a revista Commonweal e o teólogo Massimo Faggioli por causa de um ensaio de Faggioli, “Será que o Trumpismo vai poupar o Catolicismo?”

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This