
“Gostaria de poder fixar nos olhos a cada um de vós e dizer: não tenhas medo!”, afirmou o Papa. Foto ©,JMJ Lisboa 2023.
Não há memória de, no Festival de Woodstock – que tantos compararam por estes dias à Jornada Mundial da Juventude – os jovens terem despertado tão cedo, nem tão entusiasmados. É certo que a atuação do padre e DJ Guilherme – que começou pouco depois de os primeiros raios de sol pintarem com uma luz única o Campo da Graça, em Lisboa – ajudou. Mas o principal motivo por trás dos milhares de olhos, brilhantes de alegria e expetativa, era outro: o Papa chegaria dentro de pouco tempo, e pelas movimentações no descampado a perder de vista, todos – até os muitos que tinham ficado do outro lado do rio Trancão – iriam ter oportunidade de vê-lo.
Francisco não desiludiu. Chegou uma hora antes da missa de envio, só para poder percorrer toda extensão das estradas que dividiam as dezenas de setores do enorme descampado à beira-rio onde os peregrinos haviam passado a noite. “Gostaria de poder fixar nos olhos a cada um de vós e dizer: não tenhas medo!”, disse-lhes depois, na homilia. Mas como, por mais cedo que tivesse chegado, tal não seria possível, assegurou: “o próprio Jesus olha agora para vós”.
Naquela que foi a sua última intervenção durante a JMJ dirigida a todos os peregrinos – mais tarde, já no passeio Marítimo de Algés, iria falar apenas aos voluntários – Francisco interpelou-os: “o que levamos connosco quando regressarmos ao vale da vida quotidiana?”. E, logo a seguir, ajudou-os a responder, “com três verbos: resplandecer, ouvir, não temer.”
O Papa explicou então o que queria dizer com cada um deles. “Resplandecemos quando, acolhendo Jesus, aprendemos a amar como Ele”, ou seja: amando “não apenas quando o próximo está em sintonia connosco, mas também quando nos é antipático e apresenta aspetos de que não gostamos”, sublinhou.
Para isso, é preciso “ouvir Jesus, conversar com Ele, ler a Sua Palavra e pô-la em prática, segui-Lo”, disse depois, lembrando os jovens de que o que precisam “não é fama, sucesso, dinheiro, mas saber que não estamos sozinhos, que temos sempre Alguém ao nosso lado, que começamos e terminamos o dia com a certeza do abraço do Senhor”.
Por fim, recordou-os: “Jesus diz ‘Não tenhais medo’”. E recorreu às palavras que João Paulo II dirigiu aos jovens na Jornada Mundial da Juventude do ano 2000, em Roma: “É Jesus quem suscita em vós o desejo de fazer da vossa vida algo de grande.(…) Não tenhais medo de vos entregar a Ele”.
“Se não viesse, iria arrepender-me”

Muitos jovens procuraram estar o mais próximo possível do Papa. Foto ©,JMJ Lisboa 2023.
Pedro Marques, 43 anos, sorri ao ouvir Francisco citar as palavras que João Paulo II proferiu na vigília da JMJ Roma 2000, nas quais também participou, e conta que já se tinha lembrado do então Papa várias vezes desde que chegou ao Parque Tejo. “Até acho que foi por causa de ter participado nessa Jornada, e depois também em Colónia 2005 – que não consegui deixar de vir aqui”, confidencia o jovem empresário ao 7MARGENS, no final da missa.
Pedro admite que já não é “propriamente” jovem e, por isso, tinha pensado não vir à Jornada, até porque coincidia com as férias já marcadas com a família para o Algarve. “À última da hora, decidi vir pelo menos para a Vigília e a Missa de Envio, porque percebi que, se não viesse, iria arrepender-me. Isto é uma coisa única”. assinala. Além disso, “precisava mesmo de parar, refletir, orar, escutar os conselhos do Papa”.
Se valeu a pena prescindir de alguns dias de praia e apanhar o autocarro, sozinho, de mochila às costas, rumo a Lisboa? Pedro Marques responde de imediato: “Sem dúvida”. E o que leva consigo? “O ser relembrado de que estamos cá, enquanto católicos, para tentar ver Jesus Cristo e Maria nos outros e tentar ser boas pessoas que inspiram a luz no mundo”, responde. E acrescenta: “Isso é fácil de esquecer quando se é adulto, porque há muitas pressões e muitas coisas a acontecer na vida ao mesmo tempo”.
Certamente consciente disso, Francisco pediu a todos, jovens e menos jovens: “Mantenham presentes na vossa mente e no vosso coração os momentos mais bonitos [da JMJ]”. E, depois de agradecer a todos os que tornaram realidade a Jornada, olhou o rio Tejo e ainda acrescentou “Obrigado a ti, Lisboa, que permanecerás na memória destes jovens como casa de fraternidade.”










