a dor da saudade – porque precisas dessa nostalgia
para fechares os olhos à noite e respirares
os teus inimigos
os teus amigos
o amor de Deus
amor por Deus
as formigas inocentes
as ligações cósmicas
o senhor do autocarro
a senhora da praça
a menina da farmácia
a pátria – mesmo que ela não te mereça
a alegria da chuva
a bênção do sol que te lambe
a plenitude alarve e singular dos bons momentos
as luzes coloridas da feira
o silêncio da igreja
as dúvidas da fé
são joão da cruz, santo antónio, o padre antónio vieira, maria madalena, santo agostinho e os outros, mesmo quando justificadamente deles desconfies ou os não percebas
a esperança, mesmo que te pareça vã
a poesia que sentes, mas não sabes dizer
a outra poesia que não percebes, a dos poetas
a mãe e o pai, a não ser psicologicamente e na idade própria
o futuro das tuas crias, pelo que terás que te esforçar muitíssimo (ah, e logo verás como não pode chegar)
o abecedário – que tanta falta te fará a escrever – nem os Cs e os Ps que o acordo ortográfico te quer roubar
todas as coisas boas de que não me lembro agora mas que nos tornam a vida mais suave
as hipóteses
o teu espírito livre
o corpo de Cristo
a memória de Cristo
o Menino Jesus
as memórias, mesmo as horríveis que te magoaram no quarto escuro, no liceu, na cama, no duelo, no júri, na guerra, no fogo, no bombardeamento, na derrocada, no divórcio, na doença do teu pai, na morte da tua mãe, até mesmo na partida súbita e extemporânea da tua filha – porque precisarás delas todas para sobreviveres todos os dias
a filosofia, a química, a física, a matemática, as ciências (todas)
as artes e as letras (e estas não matarás duas vezes)
e sobretudo
o amor, através de coisas descuidadas
o amor, através de coisas banais
e o amor, não interessa através de quê
por isso, prepara-te bem
que é longo o caminho
e poucas são as rectas para descuidada condução

Obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. Foto © Paulo Bateira, cedida pelo autor
Nuno Caiado, 2012.










