Li recentemente uma transcrição da entrevista realizada pela Renascença ao classicista Frederico Lourenço.[i] Dizia ele que, concluído o sexto volume da sua actual opus magnum – a tradução da Bíblia a partir da LXX –, finalmente regressara a casa, após ter estado ausente cerca de 27 anos, e onde agora se sente bem. A casa a que se referia Frederico Lourenço era a Igreja Católica Romana, donde teria saído em tempos. Isso fez-me pensar nesse desejo que todos sentimos, de uma maneira ou doutra, de voltar a casa, ou seja, de empreender uma viagem de busca de um lar, lugar esse paradigmático de segurança, pertença, aconchego, e até de restauração. Dizia David Herbert Lawrence, escritor inglês do século passado, que talvez a alma humana precise de excursões, e não se deve privá-la delas, mas o objectivo de uma excursão é justamente voltar para casa. Muitas são, de facto, as excursões empreendidas pelo ser humano, umas voluntárias, procurando novos caminhos, novos desafios, novo sentido para a vida; outras, infelizmente, forçadas pelas circunstâncias da vida, as quais podem ser desencadeadas por factores económicos, pela exclusão ou intolerância, pelas guerras. Quaisquer que sejam os motivos, todos temos algures bem dentro de nós esse instinto, essa ânsia de pertença, de plenitude, de paz. Todos temos, enfim, a aspiração a uma pátria definitiva, ou seja, uma necessidade íntima de regresso a esse lugar único a que poderemos chamar, de uma vez para sempre, casa.

Regresso ao lar de Deus: A Imagem retocada através da IA tendo como suporte um esboço a lápis
Não deixamos também de nos sentir, muitas vezes, em terra estrangeira, alienados, estrangeirados, peregrinos, desterrados desse lugar de acolhimento constitutivo de todas as formas possíveis de agregação que possamos experimentar ao longo da nossa vida. É que, muitas vezes, para sermos aceites, mercê dos variados critérios de aferição da exequibilidade do cumprimento ou não das regras que outros possam fazer, somos confrontados, coagidos ao conformismo, ou até mesmo, no limite, excluídos, se falharmos nessa adaptação. Andamos então em constante peregrinação, perdidos e até exilados de uma casa (ou seja, de nós próprios). Se muitos se sentem estrangeiros em terra que não é a sua, segregados pelas mais variadas razões – sociais, étnicas, raciais, religiosas, etc. –, também há os excluídos “da sua própria terra”, isto é, das suas próprias igrejas, seja pelo inconformismo doutrinal que manifestam, seja pelo inconformismo ético. Não deixa de ser irónico que muitas igrejas, que sabemos sempre constituídas por seres humanos imperfeitos, persistam ainda em não ser casa de pertença e restauração para muitos.
Li em tempos alguns textos do livro de Miroslav Volf, The Home of God: A Brief Story of Everything, onde o autor nos fala dessa narrativa bíblica tão marcante que é o projecto do nosso Deus de fazer do nosso mundo a Sua própria casa, através da criação, mas essencialmente pela Sua Encarnação: Jesus, o Deus-connosco, nasce na nossa realidade, passando a morar entre nós. Ultimamente, o que mais tenho visto é um mundo alienado de casa, de um lugar de pertença, de cura, de restauração. Das guerras em curso, das migrações em massa, das dores atrozes e fomes infligidas, da sonegação do conforto que um lar deveria dar em todas as suas dimensões, da generalização da indiferença e das ausências dos abraços e afectos, não deixamos de ver , por causa de toda a dor contemporânea do ser humano, emergir com urgência um autêntico e multimilenar anseio de fazermos parte, individual e colectivamente, de um trajecto de retorno à verdadeira paz, à plenitude de um lar, de uma família, de uma mesa farta, de um lugar de restauração e pertença. Sentimos, como o Ulisses do mito grego, uma dor do regresso (que é o que significa literalmente a palavra nostalgia), ou, de um modo bem português, sentimos saudade – que não é senão esse sentimento humano universal de regresso a uma pátria transcendente a toda a materialidade, todo o desencontro, todas as vicissitudes deste mundo imperfeito.
Recordo então esse Pai amoroso que aguarda ansiosamente aconchegar nos Seus braços a volta dos Seus filhos pródigos, entretanto perdidos nas contingências e amarguras desta vida, e até mesmo Jesus que, apesar de não ter tido onde repousar a Sua cabeça, convidava constantemente todos a encontrar n’Ele casa, oferecendo-nos a Sua paz, verdadeiro e definitivo descanso tão desejado por todos. Não deixo então de pensar nessa responsabilidade, nessa tarefa que Deus dá à Sua Igreja enquanto sinal e prenúncio da Casa do nosso Deus, lugar onde, mesmo apesar das circunstâncias, mesmo as mais difíceis, Deus quer habitar, deixando-nos a Sua shalom, a sua perfeita paz, a qual excede todo o nosso entendimento. E onde Deus está – no nosso coração, na Sua Igreja –, aí existe também casa, lugar de acolhimento e de conforto para todos sem excepção. Nesse sentido foram as palavras proféticas proferidas pelo Papa Francisco, o qual desejou “uma Igreja sem correntes nem muros, onde cada qual se possa sentir acolhido e acompanhado, onde se cultive a arte da escuta, do diálogo, da participação, sob a única autoridade do Espírito Santo. Uma Igreja livre e humilde, que se ergue depressa, que não adia, não acumula atrasos face aos desafios de hoje, não se demora nos recintos sagrados, mas deixa-se animar pela paixão do anúncio do Evangelho e pelo desejo de chegar a todos, e a todos acolher”.[ii]
[i] Renascença. Tradução da Bíblia fez de Frederico Lourenço “novamente católico praticante”. https://rr.pt/especial/vida/2025/12/19/traducao-da-biblia-fez-de-frederico-lourenco-novamente-catolico-praticante/452197/
[ii] 7MARGENS: Papa pede Igreja que acolha todos. https://setemargens.com/papa-pede-igreja-que-acolha-todos-em-vez-de-dispensar-e-condenar-pessoas/
Doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. Email: vitor.rafael@edu.ulisboa.pt
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