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O salvo-conduto de Afonso Costa para o Padre Cruz

A capa do livro Padre Cruz — O Santo do Povo

A capa do livro Padre Cruz — O Santo do Povo

O padre Francisco Rodrigues da Cruz – Padre Cruz, como ficou conhecido –, cujo processo de canonização está em curso, é uma das figuras mais populares do catolicismo português do século XX. Rapaz frágil nascido em Alcochete, tornou-se padre e dedicou a vida aos pobres, aos presos e aos doentes, percorrendo dezenas de quilómetros para pregar, confessar e ajudar quem dele precisava, aceitando as esmolas dos mais ricos para entregar a quem nada tinha e batendo à porta de pessoas influentes e poderosas, como os então presidente do Conselho de Ministros, Oliveira Salazar, e Presidente da República, Óscar Carmona, intercedendo pelos desprotegidos. 

Por esse seu trabalho, ganhou cedo a fama de santo. Além disso, teve ainda um papel decisivo na credibilização dos acontecimentos de Fátima e foi o primeiro confessor da Irmã Lúcia, uma das videntes. São muitos os milagres que lhe são atribuídos. Mais de sete décadas passadas sobre a sua morte, fiéis de todo o país continuam a acorrer ao seu túmulo, em Lisboa, onde fazem fila para rezar. É o retrato dessa figura que é feito no livro Padre Cruz. O Santo do Povo, de Ana Catarina André e Sara Capelo, que agora chega às livrarias. 

Ana Catarina André é jornalista da Rádio Renascença, depois de ter trabalhado em vários órgãos de imprensa. Venceu em 2022 um prémio do Observatório de Ciberjornalismo e é autora de Os Pombos da Senhora Alice – Envelhecer em Portugal (2020) e Confrarias de Portugal (2019). Sara Capelo é consultora de comunicação, depois de ter estagiado no Público e trabalhado numa rádio universitária, num jornal local e na revista Sábado. Ganhou em 2013 o Prémio de Jornalismo Económico Santander/Nova, é autora de Os Estrangeiros que Mandaram em Portugal (2014). Ambas as autoras do livro sobre o Padre Cruz escreveram, também em coautoria, Peregrinos (2017).

O 7MARGENS publica a seguir um excerto do livro, que relata as vicissitudes do Padre Cruz com o líder republicano e ministro da Justiça, Afonso Costa.

Oito noites numa cela imunda, sem quase ninguém saber dele

 

Padre Cruz em S. Vicente de Fora em 1896. Foto: Direitos reservados.

Padre Cruz em S. Vicente de Fora em 1896. Foto: Direitos reservados.

Apesar da proteção de tantos, nem sempre escapou incólume. Quando foi pregar a uma povoação perto de Torres Novas, o regedor da freguesia intimou o pároco a suspender de imediato o seu sermão e a mandá-lo embora. A população protestou, mas não surtiu efeito. O padre Francisco Rodrigues da Cruz foi preso e enviado para Lisboa acompanhado por um guarda. Como chegaram à capital já de noite, teve de «dormir» no governo civil, mas fez questão de garantir que o polícia que o trouxera o «tratou muito bem». 

Informado do que se estava a passar, o patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, que costumava dizer que o Padre Cruz era «o para-raios de Portugal», mandou um advogado da sua família falar com o ministro da Justiça, Afonso Costa. Na conversa, o jurista assegurou ao governante que o Padre Cruz «fora àquela paróquia ao serviço da Igreja por mandato [do bispo]» e acrescentou que o prelado garantia «que tudo quanto [o sacerdote] houvesse de sofrer o tomava como se a si próprio fosse feito». 

Feitas estas diligências, na manhã seguinte, o Padre Cruz foi recebido por Afonso Costa, o mesmo que tinha prometido acabar com a religião católica em duas ou três gerações e que tinha sido um dos impulsionadores da famosa «Lei da Separação do Estado das Igrejas», de 20 de abril de 1911, que ditou o fim do catolicismo como religião do Estado. 

Quando o ministro lhe perguntou se era doutor de Coimbra ou de Roma, e percebeu que ambos se tinham formado na cidade dos estudantes, em Portugal, deixou-o inesperadamente ir-se embora. Não sem antes lhe deixar um aviso: «Não volta àquela freguesia sem minha ordem.» 

Não foi, contudo, a única vez em que o Padre Cruz esteve preso. Numa das visitas à cadeia do Limoeiro, bateu à porta da cela onde estava o seu amigo Fiel Viterbo, matemático, arquiteto e decorador que, por ser considerado monárquico e capitalista, tinha sido detido. «Doutor, precisa de alguma coisa?», perguntou-lhe, como fazia tantas vezes. Um carbonário, vendo que Francisco da Cruz se aproximara deste recluso, denunciou-o ao Ministério da Justiça, «que repreendeu o diretor [da prisão] por permitir andar um padre a falar com os conspiradores». 

Da vez seguinte em que ali esteve, o Padre Cruz recebeu um aviso: não poderia regressar à rua sem antes falar com o responsável do estabelecimento. Esperou, esperou até à noite, e assim continuou no dia seguinte e por mais oito noites. Ficou numa cela imunda, de tal modo isolado que, tirando as irmãs do Convento do Desagravo que lhe mandaram alguma comida, ninguém sabia onde estava. A família, sobretudo a irmã Isabel, que contactava com ele regularmente através de pequenos postais, chegou a temer que o identificassem entre os corpos dos padres que, entretanto, tinham aparecido mortos no rio Tejo. 

“Atraído para ajudar presos, doentes, pobrezinhos e abandonados…”

Padre Cruz (à dir.) na ordenação episcopal do futuro cardeal Cerejeira (ao centro) e com o padre Crawley (esq.). Foto: Direitos reservados.

Padre Cruz (à dir.) na ordenação episcopal do futuro cardeal Cerejeira (ao centro) e com o padre Crawley (esq.). Foto: Direitos reservados.

 

Também o patriarca, D. António Mendes Belo, sabendo que o Padre Cruz estava desaparecido, pediu de novo a um advogado para averiguar, junto do Ministério da Justiça, se este tinha sido preso, como acontecia por aqueles dias a tantos sacerdotes. Quando foi informado, Afonso Costa mandou de imediato procurá-lo. 

Ao fim de nove noites, o Padre Cruz foi finalmente libertado. Mais tarde, revelou que no dia em que saiu da cadeia, tinha sido chamado à secretaria da instituição. «Contei a pergunta que tinha feito [a Fiel Viterbo] e que faria a qualquer pessoa, muito mais a um amigo. O diretor mandou-me embora, dizendo que não pagava carceragem, nem ficava lá o meu nome.» Mário Monteiro, o advogado que o acompanhava, ainda quis abrir um processo judicial (legalmente, nada justificava que o Padre Cruz tivesse sido preso), mas o sacerdote não permitiu. Lamentava apenas não ter estado, durante aquele período, com outros reclusos para «fazer propaganda religiosa». Com a família partilhou também a inquietação de não ter celebrado missa todos os dias, ainda mais coincidindo aquele tempo com três festas importantes para si: Sagrado Coração de Jesus, São João Baptista e o aniversário da Missa Nova. 

Para se certificar de que o episódio não se repetiria, o ministro da Justiça, que já o tinha ilibado anteriormente, «escreveu com o próprio punho um “salvo-conduto”», que o autorizava a circular livremente. A partir de então, o Padre Cruz mostrava o documento a polícias e carbonários, dizendo: «Deixem-me passar, deixem-me passar! Tenho ordem do Sr. Afonso Costa. Leiam!». Com os mais próximos, chegou a comentar o episódio, afirmando com assertividade: «Há males que acontecem para bem.»”

(…)

Padre Cruz. Foto © Companhia de Jesus

Padre Cruz. Foto © Companhia de Jesus

[O Padre Cruz] não desejava ser nada para além de um simples clérigo. A 27 de março, escreveu ao [patriarca de Lisboa, António Mendes Belo], pedindo-lhe que o dispensasse dessa nomeação [de cónego da Sé], para poder continuar a dedicar-se aos mais frágeis. E explicava: «Há muitos anos que me sinto atraído (…) para ajudar espiritualmente os presos das cadeias, os doentes dos hospitais, os pobrezinhos e abandonados e tantos pecadores e almas desamparadas. Tenho também grande consolação em ajudar os reverendos párocos nos exercícios de piedade e mais encargos.» Invocando estes motivos, sublinhava que, no seu entendimento, seria «mais da glória de Deus e bem das almas a vida de missionário do que a de cónego da Sé». Agradecia «a desmerecida honra» que o patriarca lhe queria atribuir. Entendendo o seu desejo, e o serviço que já prestava à Igreja, D. António Mendes Belo acedeu ao pedido e o Padre Cruz não chegou a fazer parte do cabido.”

Padre Cruz. O Santo do Povo
Autoras: Ana Catarina André e Sara Capelo
Oficina do Livro, 2023
240 pp., 15,90€

 

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