Uma nação é um património de história, conhecimento, sabedoria, humanidade. Uma velha nação, como a nossa, tem a obrigação de ser humana, cada vez mais humana, porque é feita de mundo e dos sedimentos de muitos povos, muitas humanidades. É um património que é obrigatório valorizar. Uma velha nação como a nossa é sempre, necessariamente, universal. Mas universalidade não significa desenraizamento e vale-tudo. Significa sim: consciência histórica, valorização da língua e da cultura portuguesas. Significa VALORIZAR AS PESSOAS, os portugueses, a criatividade, o pensamento; significa não esmagar os portugueses com rendas usurárias, impostos altos, etc., para que o espírito se possa libertar da luta comezinha pelo material.
Só há uma coisa que pode tornar uma nação “grande” ou “superior”: o seu empenho em assegurar que a humanidade prevalece, não só dentro das suas fronteiras, mas também fora delas. Respeito pelos seus cidadãos, pela sua vida e dignidade; respeito pela dignidade dos outros, de onde quer que venham, onde quer que estejam.
O resto (ser ou não ser uma potência militar e económica; ser ou não ser uma potência futebolística) não interessa para coisa nenhuma, não em si mesmo pelo menos. A não ser talvez para criar no simples cidadão uma perigosa ilusão de grandeza e superioridade que ele próprio, por si mesmo, é incapaz de adquirir. O nacionalismo é a guerra, como bem dizia um pensador judeu. Pelo menos esse nacionalismo de vistas curtas, mesquinho e sem qualquer consciência histórica.
Uma nação que, apesar dos seus vários séculos de idade, ainda não aprendeu a ser uma comunidade fraterna e humana onde cada um seja capaz de exercer a sua liberdade com responsabilidade e ímpeto criador, está a falhar em alguma coisa de realmente essencial. As nações não são apenas mercados; a sociabilidade e a liberdade humanas não são nem meros produtos da engrenagem económica, nem meios para a servir. Como muitas vezes se diz, e muito poucas vezes se cumpre, a pessoa deve estar no centro de todo o processo, a pessoa humana, em todas as suas dimensões, da física à ética e à espiritual. O verdadeiro nacionalismo tem de ser, necessariamente, um humanismo.

Cerimónia de acolhimento da JMJ Lisboa 2023, com a presença de bandeiras de todos os países unidas por um ideal de fraternidade e paz: “O verdadeiro nacionalismo tem de ser, necessariamente, um humanismo.” Foto ©️ Arlindo Homem /JMJ Lisboa 2023
Ruben Azevedo é professor e autor dos livros Enigma – Noemas em torno doMistério do Ser e do Existir e What saves us?: Selected writings on Absolute, Consciousness, Freedom, Meaning.








