O vizinho Rafael abalou de volta para o país dele, a Roménia. Viveu em Portugal alguns trinta anos, veio no tempo em que as coisas andavam melhor. Agora, pelos vistos, mais vale ir reformar-se lá. O vizinho Rafael era, desde há mais de duas décadas, o caseiro da quinta onde eu moro. Foi-se embora.
Agora sou eu quem cuida das galinhas, dos gatos, das árvores e da horta. Deixei a minha casa para a minha filha morar mais o meu genro e o filho de ambos – que há de nascer daqui a nada – e mudei-me para a casa que o vizinho Rafael deixou.
Já não escrevo em frente à janela que me mostra a Serra dos Dinossauros, a minha secretária agora está virada para sul e nestes últimos textos começo a perceber o meu olhar invertido.
Trocar de casa – ainda que seja para a do lado, ainda que seja dentro do mesmo monte – é inevitavelmente uma inversão de olhares.
E, de novo, tropeço nos móveis fora do lugar como se o reconhecimento das direções dos aposentos voltasse ao tempo da primeira infância. E, de novo, o puzzle a tentar encontrar sentido para a disposição das peças. E, de novo, os barulhos que nunca pertenceram a outro lado e ali se engrandecem como sendo a própria ancestralidade. E, de novo, outro cheiro por decifrar que há de pairar até o cérebro se esquecer dele. E, de novo, outra luz esbatida no ar a meio da noite, que não se descobre por que frestas entrará. E, de novo, prateleiras insuficientes para a quantidade de livros por arrumar.
Mudar de casa nunca se torna um hábito comum.
Invejo as pessoas que passam uma vida inteira no mesmo lar, como se as paredes que o compusessem fossem placa basal indestrutível e essencial à sobrevivência. Se alguém diz, Toda a minha vida vivi aqui, Sinto uma espécie de auto orfandade, auto traição, como se eu nunca soubesse ter vivido a sério, como as pessoas que beijam o seu chão se for preciso, a cada curto regresso.
Eu, pelo contrário, perdi a conta ao número de casas em que já vivi. Sou uma incapaz dos parasempres, uma superficialidade camaleónica qualquer a espicaçar a natureza humana. Depois perguntam-me de onde vem o meu fascínio pelo minimalismo.
Dominique Loreau escreveu, nas páginas do A Arte da Simplicidade, que devemos apenas ter a quantidade de objetos com os quais nos seja possível fugir se uma guerra nos estoirar à porta.
Já não consigo ter tão poucos objetos assim, mas ainda sou daquelas que entende os espaços vazios como sinónimo de higiene. Livros, os livros saem desta equação.

“Seria tudo mais simples se mudar de casa fosse como mudar de quintal – o galinheiro, as árvores e a horta, irreprimíveis e serenos, indeslocáveis e indesarrumáveis.” Foto © Ana Sofia Brito
Seria tudo mais simples se mudar de casa fosse como mudar de quintal – o galinheiro, as árvores e a horta, irreprimíveis e serenos, indeslocáveis e indesarrumáveis.
Eu acho que a nespereira brava gostava de ser um camaleão, ou talvez uma preguiça, não sei bem, parece escalar de manso o poste de luz à extrema da fazenda, talvez tenha medo do escuro. A figueira bate o pé e não abre mão de se espreguiçar a ponto de ameaçar a jardineira suspensa onde os morangos despontam. Será que a figueira gosta de morangos, ou tem inveja deles, pergunto-me.
O Valter Hugo Mãe conta a história de uma árvore que morreu pouco depois do falecimento do seu dono, e nunca mais consegui apagar tais palavras da minha cabeça, incalculava eu de essa possibilidade existir, mas existindo, não conheço outra tristeza de dimensões tão belas. Talvez por isso, um dia destes imaginei que as árvores da horta estavam tristes com a partida do vizinho Rafael, fui de tronco em tronco, com a voz mais doce que as minhas cordas permitem, dizer ao ouvido de cada uma, que o Rafael não as tinha deixado de amar, que apenas fora embalado pelos encontrões da vida de regresso ao seu princípio para lá se finalizar em paz. É que a gente muda de casa por relatividade das importâncias, só que a gente não muda de quintal porque os quintais – sim, os quintais – pertencem à categoria do absoluto na escala das importâncias. É por isso que são os quintais que mudam de gente e não a gente que muda de quintal.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor”, “O Homem do Trator” e “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024. Lançou em 31 de janeiro o livro de poesia “Tempo”. É autora de um podcast, “Direito ao Grito“, da Fnac e assina a rubrica mensal “E por falar em livros…” no jornal “Sul Informação”.








