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On Falling, cinema, filme, Laura Carreira, Joana Santos
Cena de "On Falling", de Laura Carreira. Foto: Direitos reservados.

Cinema

“On Falling”: da aflição à âncora salvadora

| 20/04/2025

 

Logo nos planos iniciais, somos colocados face a um ambiente dominado por iluminação e cores soturnas: dominantes verdes, obscuridade, tons pesados. O que aí vem será certamente dominado pela aflição. E, sabendo de antemão ao que vimos, não podemos deixar de evocar a mesma luz e a mesma cor que já nos atingira em Great Yarmouth: Provisional Figures (Marco Martins, 2022), também no Reino Unido e com portugueses emigrados e destroçados. Desta feita, com Laura Carreira, estamos num armazém de distribuição, na Escócia, onde Aurora (nome a evocar luz, que está ausente neste lugar e nesta vida) repete inexoravelmente, dia após dia, os mesmos gestos automáticos, desprovidos de criatividade. Aurora é colectora e com um aparelho eletrónico vai controlando as mercadorias num labirinto gigantesco de corredores e prateleiras, enquanto o dispositivo a controla também a ela e ‘reage’ apitando fortemente se não ‘gosta’ do ritmo do que vai acontecendo. Então, o chefe, se lhe elogia num dia a performance (e a premeia de forma grotesca com um chocolate…), num outro dia virá censurá-la porque o ritmo abrandou! Uma espécie de sistema panóptico electrónico.

A realizadora, Laura Carreira, iniciou os estudos artísticos em Lisboa, mas deu-lhes continuidade na Escócia, onde reside e trabalha na área do cinema há mais de dez anos, tendo antes realizado duas curtas-metragens, onde tornava clara já a sua preocupação por abordagens sociais, numa aproximação íntima às pessoas. É inevitável, visto On Falling – realizado no Reino Unido e co-produzido maioritariamente com fundos da produtora de um dos mais importantes nomes do designado realismo social inglês, Ken Loach (n. 1936) –, que não pensemos na importância dessa corrente cinematográfica do Reino Unido, desde o pós-guerra.

E não será despiciendo ter em conta a relação que o realismo inglês cruza com tantos dos ‘cinemas novos’ que, desde essa altura, brotaram na Europa. Lembremos o neorrealismo italiano, a Nouvelle Vague, em França e, em Portugal, embora o quadro seja bem mais complexo, digamos de forma simplificada, o designado Cinema Novo, com Paulo Rocha e Os Verdes Anos (1963), caminho já timidamente esboçado um ano antes por Ernesto de Sousa, em Dom Roberto, para não falar, na década de 1950, das obras de Manuel Guimarães, aproximadas ao neorrealismo, como Nazaré ou Vidas Sem Rumo. As sementes do realismo, de uma forma ou de outra, foram ainda florescendo, de formas diversas, nos últimos anos do século XX e, uma vez entrado o novo século, podemos lembrar os belgas irmãos Dardenne e a sua compatriota Chantal Akerman (+2015) – nomes, não por acaso, lembrados por Carreira em várias entrevistas.

Uma das cenas do filme “On Falling”, de Laura Carreira, com a actriz Joana Santos no papel principal. Foto: Direitos reservados.

Justamente, uma tal evocação levar-nos-á a entender melhor a qualidade original do muito premiado On Falling, dado ao ecrã por uma realizadora portuguesa, envolta no manto que acabei de evocar: a mescla do realismo britânico com uma realizadora ‘europeia’, trabalhando uma realidade social, profundamente humana, da imigração portuguesa na teia destruidora do trabalho no Reino Unido, um “sistema sem rosto”.

Era essa marca, com a caracterização que cada caso impõe nas formas do trabalho fílmico de Ana Rocha de Sousa e Marco Martins, que já tínhamos antevisto nos excelentes Listen (2020) e no referido Great Yarmouth. Por sua vez, On Falling, de Laura Carreira, é a confirmação de que a possível tentação do libelo panfletário está arredada. Aqui, o que mais interessa é a pessoa e a sua situação. Aurora está permanente na câmara de Carreira. Aurora é o centro de interesse da realizadora. A imigrante portuguesa é envolta num manto pesado de solidão. Solidão que é uma marca presente, em off, nas conversas que escutamos de colegas que evocam no refeitório as séries de televisão mais em voga, como sucedâneo de companhia, em casa. E um ligeiro assomo de comunicação para Aurora, que revela pontualmente um colega gentil, vem a desembocar, dias depois, no conhecimento do suicídio deste.

No dia-a-dia de Aurora, para além do acabrunhante trabalho, duas acções marcam a cadência: usar incessantemente o telemóvel e comer, comer de forma muito precária, a ponto de a má alimentação, a par da ansiedade, a fazer perder os sentidos num parque público, na sequência de uma dramática entrevista de emprego. Pelo meio vamos sabendo dos discursos demagógicos e paternalistas dos patrões, bem como das suas estratégias de controlo dos empregados. Este é o quadro de uma estrutura fílmica minimal, mas intensa, que adiciona ao talento da realizadora o extraordinário desempenho da actriz protagonista, Joana Santos. Certamente que a forma demorada, persistente, como a câmara de Carreira ‘devora’ a personagem Aurora só poderia concretizar-se nas qualidades de Joana Santos.

Estaremos então perante um círculo inevitável de onde não há saída? Existem discretos sinais de solidariedade humana ao longo do filme: na cozinha da habitação colectiva onde vive Laura ou, de forma exemplar, nos gestos delicados com que o funcionário do parque socorre Aurora quando a descobre caída e a quem, num momento, esta se agarra como uma âncora de salvação. E, na coda do filme, ressalta um subtil e simbólico apontamento: quando um inusitado problema informático obriga à interrupção do trabalho e os empregados, pela primeira vez sorrindo, brincam com uma bola no labirinto dos corredores. É aí que, também pela primeira vez, se escuta banda sonora extra-diegética numa canção inspirada em velho folclore irlandês, na voz da vocalista do agrupamento Lankum, com um mote-interrogação carregado de sentido: “O que faremos nós quando não tivermos dinheiro?”, What will we do when we have no money?

Um filme perturbante e comovedor. Uma excelente obra cinematográfica.

 

On Falling
Drama
Realização: Laura Carreira (n. Porto, 1994)
Argumento: L. Carreira
Fotografia: Karl Kürten
Montagem: Elle le Fevre e Francisco Moreira
Com Joana Santos, Inês Vaz e outros
Produção Reino Unido e Portugal (2024)

 

Carlos Capucho é professor aposentado de Comunicação Social e Cultural e de Ciências da Comunicação (Estudos Fílmicos), da Universidade Católica Portuguesa

 

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