
O Pe. Acílio Fernandes foi impulsionador da Casa do Gaiato em Portugal e no estrangeiro. Foto © Casa do Gaiato de Paço de Sousa
Há cinco ou seis anos fui director de turma de um aluno, vindo de África. Eram imensas as dificuldades que trazia ao chegar à Escola de Aranguez, no centro da cidade de Setúbal. Além de problemas graves de visão, havia ainda outros a resolver. A dado momento, precisei de falar com o encarregado de educação. Como não conseguia, enviei uma mensagem por correio electrónico. Foi parar a um destinatário incorrecto, mas tudo se resolveu. Sem que eu desse mais um passo, o recado chegou-lhe. O responsável por aquele rapaz não tardou muito a surgir na escola.
Joel [nome fictício] era – e é – um dos residentes da Casa do Gaiato de Setúbal. Um dia, inesperadamente, surgiu-me o padre Acílio Fernandes, sem se importar com a hora marcada no meu horário para receber os pais. Não perdeu tempo. Foi quando podia ir. Mas foi! Ia acompanhado por um dos rapazes, solícito e educado, e levava um par de muletas e imensas dificuldades físicas. Mas foi… Não deixou de ir. Não arranjou desculpas. Compareceu, cheio de força interior e de interesse por aquela criança tão necessitada de todo o empenho e carinho. Como é óbvio, atendi-o, deixando para mais tarde outras tarefas. Elas que esperassem.
Conversámos longamente. Apercebi-me de que era um homem forte, desassombrado, frontal, sem pieguices beatas, que tudo dava aos rapazes confiados a si e à Obra da Rua, se necessário incomodando-nos e desinstalando-nos, ultrapassando regras e burocracias. Aquela hora de diálogo deu-me imenso. Nunca mais foi necessário falar com aquele homem idoso, mas vertical. Criou, todavia, um momento de aprendizagem que nunca mais esquecerei.
Outros terão convivido com o padre Acílio da Cruz Fernandes muito mais do que eu. A mim bastou-me aquele dia incómodo (e abençoado). Nunca o vi oficiar uma eucaristia. Nunca escutei uma homilia sua. Nunca o vi envergando vestes talares lustrosas e roçagantes ou sinais exteriores da sua condição de presbítero. Reconheci, todavia, na sua presença, nas suas palavras e nas suas atitudes a envergadura de alguém que decidira responder radicalmente ao incitamento de Cristo e do Paráclito, bem explícito nos Evangelhos e em todo o Novo Testamento. Era a fortaleza e o desassombro de um seguidor do “Pai” Américo, que, segundo me disseram tantas pessoas, nunca virou cara às dificuldades, ao confronto e aos mais desfavorecidos, mesmo com os defeitos inerentes à imperfeição humana.
Num momento duro, em que demasiados presbíteros se apresentam com uma face completamente distinta daquela que o Evangelho lhes exige, senti-me obrigado a estar na Sé de Setúbal na tarde do dia 15 de Setembro, a fim de acompanhar as exéquias deste “pai dos pobres” e o cortejo que o levou ao Cemitério da Piedade. Estranhei muitas ausências, mas compreendi-as, imensamente preocupado, cada vez mais preocupado. Estive, todavia, atento aos gaiatos que ali estiveram, de luto, cantando e chorando, imprimindo uma inefável e simples beleza àquele momento de despedida. Tal como nos ensinou Raul Brandão num dos seus textos mais acutilantes (O Padre), há sempre luzes no meio das trevas. São essas que devemos seguir e alimentar, como aquela pobre velha de uma narrativa do autor de Húmus que, perante a indiferença dos poderosos do clero e da sociedade, manteve acesa a lâmpada do Santíssimo.
Ruy Ventura é historiador de arte (CHSC – Universidade de Coimbra) e organizador de Por Mim Fora – antologia de poemas de Sebastião da Gama, publicada no dia 10 pela Officium Lectionis [ver 7MARGENS].










