
Reconhecendo que a Igreja nem sempre vive “na luz” como seria de esperar, mas vive muitas vezes “na sombra”, o Papa não fugiu à questão dos abusos de menores praticados no seio da instituição. Foto © Vatican Media
Poderia dizer-se que o primeiro discurso do Papa na Bélgica, aonde chegou sob a chuva na noite de quinta-feira, 26, condisse com o tempo cinzento que o recebeu. No encontro com as autoridades civis do país, esta sexta-feira, Francisco quase não sorriu, porque sérios foram os principais temas que escolheu abordar: o “inverno demográfico”, o “inferno da guerra” e a “vergonha dos abusos”.
Reconhecendo que a Igreja nem sempre vive “na luz” como seria de esperar, mas vive muitas vezes “na sombra”, o Papa não fugiu à questão dos abusos de menores praticados no seio da instituição – que inúmeros escândalos tem gerado em todo o mundo, e concretamente na Bélgica. Pelo contrário, desenvolveu o tema além do que já estava previsto no discurso previamente entregue aos jornalistas.
Tirando os olhos do papel e olhando a audiência de frente, reconheceu: “Irmãos e irmãs, isto é uma vergonha! A vergonha que hoje todos devemos tomar nas nossas próprias mãos e pedir perdão e resolver o problema: a vergonha do abuso, do abuso infantil. Pensamos no tempo dos Santos Inocentes e dizemos: ‘Oh, que tragédia o que fez o rei Herodes!’, mas hoje na Igreja existe este crime; a Igreja deve envergonhar-se e pedir perdão e tentar resolver esta situação com humildade cristã. E assegurar todas as condições para que não volte a acontecer”.
E acrescentou ainda: “Mas alguém me diz: ‘Santidade, acha que segundo as estatísticas a grande maioria dos abusos ocorre na família, ou no bairro, ou no mundo do desporto, na escola?…’. Basta apenas um para se envergonhar! Na Igreja devemos pedir perdão por isso; os outros pedem perdão pela sua parte. Esta é a nossa vergonha e a nossa humilhação”, insistiu o Papa.
Retomando o texto preparado, Francisco assinalou ainda ter ficado “triste” com outro fenómeno: as “adoções forçadas” que ocorreram na Bélgica entre as décadas de 1950 e 1970. “Muitas vezes a família e outros atores sociais, incluindo a Igreja, pensavam que para eliminar o estigma negativo, que infelizmente afetava a mãe solteira naqueles tempos, era preferível, para o bem de ambos, mãe e filho, que este último fosse adoptado. Houve mesmo casos em que algumas mulheres não tiveram a opção de ficar com a criança ou entregá-la para adoção. E isto acontece hoje em algumas culturas, em alguns países”, lamentou o Papa, assegurando que reza “para que a Igreja encontre sempre dentro de si a força para esclarecer e não se conformar com a cultura dominante, mesmo quando esta cultura utiliza – manipulando-os – valores que derivam do Evangelho, mas para tirar conclusões indevidas, com o seu pesado resultado de sofrimento e exclusão”.
“Estamos perto de uma quase guerra mundial”
Recordando que a Bélgica surgiu, após a II Guerra Mundial, como “um lugar ideal, quase uma síntese de Europa, a partir da qual recomeçar a sua reconstrução física, moral e espiritual”, e que o país “é uma ponte: entre o continente e as Ilhas Britânicas, entre as zonas germânicas e francófonas, entre o sul e o norte da Europa”, Francisco sublinhou que o país tem “um papel muito importante” neste momento “histórico”.
“Estamos perto de uma quase guerra mundial”, lamentou o Papa. E explicou que “a harmonia e a paz não são uma conquista que se obtenha de uma vez por todas, mas antes uma tarefa e uma missão”. Para isso é importante “recordar o passado e deixar-se ensinar por ele”. Neste sentido, defendeu Francisco, “a Bélgica é mais preciosa do que nunca para a memória do continente europeu. Na verdade, fornece argumentos incontestáveis para o desenvolvimento de uma ação cultural, social e política constante e oportuna, ao mesmo tempo corajosa e prudente, que exclui um futuro em que a ideia e a prática da guerra voltem a ser uma opção viável, com consequências catastróficas”.
A Bélgica pode ter um papel importante para derrotar o “inferno da guerra”, mas também é essencial que contribua para evitar “o inverno demográfico”, acrescentou Francisco, pedindo: “Devemos ser práticos sobre isso, ter filhos, ter filhos!”. Um apelo que, de resto, já havia feito no dia anterior aos luxemburgueses. “Eu vi a percentagem de nascimentos [do Luxemburgo]… Por favor, mais crianças, mais filhos. É o futuro”, afirmou na parte final do seu discurso no Palácio Grã-Ducal. E aí sim, com o bom humor que lhe é reconhecido, o Papa ressalvou que mais filhos não significa abdicar dos animais de estimação. “Não digo menos cãezinhos, mas mais crianças”, esclareceu, esperançoso.









