“Neste lugar sagrado, que recorda São Paulo, Apóstolo dos Gentios e pai na fé deste povo, agradeço ao Senhor e peço-lhe que conceda sempre aos malteses o Espírito de consolação e o ardor do anúncio”.
O Papa Francisco reza na gruta de S. Paulo, em Malta. Foto © Vatican Media
Foi assim que o Papa Francisco iniciou o seu segundo e último dia de visita a Malta, com uma mensagem deixada no livro de honra da Basílica construída ao lado da gruta onde o apóstolo S. Paulo se terá resguardado depois do naufrágio que o levou a terras maltesas.
Antes, na gruta, após uma oração em silêncio, Francisco pediu ajuda para “reconhecer de longe as necessidades daqueles que lutam por entre as ondas do mar, atirados contra as rochas de uma costa desconhecida”, para que a compaixão dos católicos “não se reduza a palavras vãs, mas acenda a fogueira do acolhimento, que faz esquecer o mau tempo, aquece os corações e os une”.
Neste que é um dos países com mais percentagem de católicos da Europa, o Papa rezou ao “Deus da misericórdia” e evocou a ação do Apóstolo Paulo na evangelização deste país.
Da gruta, Francisco seguiu para a Piazza dei Granai, onde celebrou uma missa ao ar livre pedindo que a fé seja mais do que “fachada”. “Quem julga defender a fé apontando o dedo contra os outros, até pode possuir uma visão religiosa, mas não adota o espírito do Evangelho, porque esquece a misericórdia, que é o coração de Deus”, disse na homilia.
Perante uma multidão de milhares de fiéis que encheu a praça, o Santo Padre avisou que “qualquer advertência, se não for movida pela caridade e se não contiver caridade, afunda mais quem a recebe”. Por isso, o Papa agradeceu a “fé concreta, vivida” do povo maltês, pedindo que todos sejam “testemunhas incansáveis de reconciliação”.
O Papa Francisco segura no Evangeliário durante a Missa na Piazzale dei Granai, em Malta. Foto © Vatican Media
“Como Igreja, comecemos de novo a frequentar a escola do Evangelho, a escola do Deus da esperança que sempre nos surpreende. Se o imitarmos, não seremos levados a concentrar-nos na denúncia dos pecados, mas a sair amorosamente à procura dos pecadores”, acrescentou.
Mas o ponto alto do dia estava guardado para a visita ao Laboratório da Paz João XXIII, em Hal Far, um centro dedicado à educação para a paz que, entre outros projetos, acolhe, desde 2002, imigrantes ilegais que, depois de passarem 16 meses detidos pelas autoridades maltesas, têm de procurar abrigo em instituições como esta.
Ali, o Papa retomou o drama de “milhares e milhares de pessoas” que fogem da violência e da miséria, dando como exemplos as populações da Ucrânia e os Rohingya, de Mianmar. A separação a que são sujeitos deixa “marcas” e só pode ser superada quando se encontram “pessoas acolhedoras que saibam ouvir, compreender, acompanhar”.
Francisco pediu que os centros de acolhimento de refugiados sejam “lugares de humanidade”, para que estas pessoas possam, no futuro, ser “testemunhas e animadores de acolhimento e fraternidade”.
“Vós não sois números, mas pessoas de carne e osso, rostos, sonhos por vezes destroçados”, insistiu.

O Papa Francisco abraça um migrante que veio para Malta em busca de uma vida melhor. Foto © Vatican Media
Em 2021, quase dois mil migrantes desapareceram ou afogaram-se no Mediterrâneo – um aumento em relação aos 1401 em 2020, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações.
Daniel Jude Oukeguale – de quem o Papa recebera, quando viajava para Malta e que lhe foi entregue por uma jornalista no voo, um quadro que retrata o seu naufrágio no Mediterrâneo – falou da sua jornada através do deserto até à Líbia, com tentativas falhadas de atravessar o mar, trabalho escravo, exploração de contrabandistas e detenções. “Às vezes desejava ter morrido. Perguntava-me se toda esta jornada tinha sido um erro, por que motivo homens como nós nos tratavam como criminosos, não como irmãos”, relatou.
Depois da visita, o Papa dirigiu-se ao aeroporto e embarcou de regresso a Roma. A próxima viagem de Francisco, confirmada oficialmente, é ao Congo e ao Sudão, em julho próximo.









