O reitor da Grande Mesquita de Paris, Chems-eddine Hafiz, pediu ao Papa que dê o seu “alto patrocínio” a um encontro internacional entre cristãos e muçulmanos, a ter lugar na capital francesa ainda durante este ano, com o objetivo de promover uma fraternidade que “está hoje ameaçada”. O desafio foi recebido com agrado por Francisco, que já encarregou o Dicastério para o Diálogo Inter-religioso de começar a trabalhar nele.
A proposta foi apresentada esta segunda-feira, 10 de fevereiro, quando o Papa recebeu Hafiz em audiência, precisamente três anos depois de ambos se terem encontrado pelo primeira vez no Vaticano. Auxiliado por um intérprete árabe, o reitor da Grande Mesquita de Paris explicou a Francisco que a ideia foi inspirada na iniciativa de João Paulo II, o qual em 1986 convocou para a cidade italiana de Assis numerosas personalidades do mundo das religiões, da política e da cultura para se encontrarem num clima de oração, de diálogo e de amizade. Hafiz sugeriu ainda que o encontro em Paris faça referência “ao nome de Santo Agostinho, figura de convergência entre as terras do Oriente e do Ocidente”.
Reconhecendo que, na Europa, “a fraternidade entre cristãos e muçulmanos está hoje ameaçada, não apenas pelo aumento do extremismo, mas pela erosão insidiosa da confiança mútua”, Chems-eddine Hafiz defende ser necessária “uma resposta forte e concreta: não se trata apenas de denunciar a intolerância, mas de lançar as bases para superá-la”, escreveu numa carta que entregou em mão a Francisco e que partilhou na página oficial da Grande Mesquita de Paris.
Na missiva, o também presidente da Aliança de Mesquitas, Associações e Líderes Muçulmanos na Europa (Ammale) explicou que, com este evento, quer fazer um apelo à fraternidade, mas “não uma fraternidade de conveniência ou fachada” e sim uma fraternidade “que envolve, que exige ações tanto quanto palavras, que inscreve o diálogo na realidade quotidiana dos povos. Não se trata apenas de uma mão estendida, mas de um pacto a ser reconstruído, uma ambição comum a ser reafirmada diante dos ventos contrários dos nossos tempos”.
Hafiz reconhece também que “muitas vezes, grandes reuniões inter-religiosas são percebidas como eventos de elite”, mas assegura que, neste encontro, quer incluir “fiéis, crentes e não crentes, intelectuais e atores sociais e, sobretudo, os jovens e as suas esperanças”. E “porque não basta comemorar as antigas fraternidades, é preciso construir novas”, pretende que dele saia “um compromisso claro, decisões concretas, ações mensuráveis”.
De acordo com o comunicado publicado no sítio da Grande Mesquita de Paris, o Papa Francisco – que recebeu Hafiz e a restante delegação da Ammale na Casa de Santa Marta, por se encontrar ainda em recuperação de uma bronquite – “não apenas aceitou a proposta”, ele “entendeu-a, percebeu a sua necessidade urgente”. E embora a Sala de Imprensa da Santa Sé não tenha ainda avançado informações sobre este tema, o jornal Aleteia confirmou que Chems-eddine Hafiz teve já uma primeira reunião com o padre Laurent Basanese, oficial do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso. É que, como escreveu Hafiz na sua carta ao Papa, “estamos diante de um imperativo moral: não ceder à opção fácil da renúncia. A História ensinou-nos que são as consciências despertas que afastam a indiferença; são os compromissos sinceros que redesenham os contornos da fraternidade”.
(Imagem de destaque: Papa Francisco recebe em audiencia Chems-eddine Hafiz e delegação da Ammale, 10 fevereiro 2025. © Vatican media )
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