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Igreja Cristã Ortodoxa Arménia em Lviv, com estátua de cristo do século XV. A estátua, uma das mais antigas, foi retirada para ser guardada. Técnicos polacos que vieram ajudar a retira-la. A igreja é do século XVII que fazia parte do bairro arménio de Lviv. 4 de Março de 2022

Guerra da Ucrânia em fundo

Páscoa ortodoxa entre a cruz e a ressurreição

| 15/04/2023

Igreja Cristã Ortodoxa Arménia em Lviv, com estátua de cristo do século XV. A estátua, uma das mais antigas, foi retirada para ser guardada. Técnicos polacos que vieram ajudar a retira-la. A igreja é do século XVII que fazia parte do bairro arménio de Lviv. 4 de Março de 2022

Igreja Cristã Ortodoxa Arménia em Lviv, com estátua de cristo do século XV. A estátua, uma das mais antigas, foi retirada para ser guardada, por causa da guerra. A igreja é do século XVII e fazia parte do bairro arménio de Lviv. 4 de março de 2022.

 

“A ressurreição nunca foi tão urgente como hoje, quando todos vemos à nossa volta a escuridão da perseguição, do sofrimento e da morte”, afirma o patriarca ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu, na sua mensagem pascal, publicada na primeira página do Osservatore Romano.   

“A Cruz representa o supremo choque entre o poder do amor divino e o amor do poder terreno. Basta olhar para a hostilidade na Ucrânia. Basta reconhecer a divisão na sociedade”, prossegue a mensagem,  que deixa, entretanto, esta nota de esperança: “no entanto, na tragédia da solidão e da morte, a luz da ressurreição já começa a brilhar”.
Em Moscovo, a Páscoa ortodoxa da Ressurreição de Jesus, festejada uma semana depois das restantes igrejas cristãs, é também pretexto para a tradicional mensagem do patriarca Cirilo, dirigida aos fiéis do patriarcado, e também aos ortodoxos do mundo inteiro. 

“O que quer que aconteça no nosso mundo em constante mudança, por vezes inquieto e dilacerado por conflitos, quaisquer que sejam as dificuldades e provações que nos sucederem, sabemos, acreditamos e pregamos que a alegria pascal no salvador ressuscitado permanece infalível e vitoriosa”, afirma Cirilo no seu texto.

O patriarca de Moscovo, sem nunca mencionar a Ucrânia, refere-se, depois, às “preces especiais… pelas pessoas em zonas de combate”, que, nesta Páscoa “são oferecidas a Deus, acrescentando: “como cristãos, não podemos ficar indiferentes aos problemas e dificuldades dos nossos irmãos e irmãs cujos corações são marcados pelo fogo da luta intestina”. Reza, assim, para que Deus “possa curar feridas corporais e, acima de tudo, espirituais; dar conforto aos que sofrem; e conceder uma paz duradoura e justa aos povos irmãos que provêm de uma só fonte baptismal, o Dnieper”.

Da Ucrânia fala, naturalmente, o arcebispo metropolita Sviatoslav Shevechuk, que dirige a Igreja Greco-Católica daquele país, a qual, em ambiente ortodoxo, segue também o calendário litúrgico da Europa Oriental. Em entrevista ao site Vatican News, não poupa nas palavras: “Deveríamos estar mortos há um ano, em vez disso estamos vivos e temos esperança”.

Quando lhe perguntam se, “no meio de tanta dor, tanta morte, tanta destruição”, as pessoas perderam a fé, a resposta é assertiva: “Eu diria o contrário, a experiência direta da morte, de se confrontarem com esta catástrofe, leva muitas pessoas à conversão. Verdadeiramente na Ucrânia, assistimos a um grande momento de procura de Deus. Diz-se que, na frente, até os ateus rezam pelos soldados e, quando regressam dos combates, procuram um pai espiritual com o qual possam partilhar as suas experiências”. 

E Shevechuk explica: “Esta dor, estes sofrimentos suscitam questões existenciais não só sobre o significado do sofrimento, mas também sobre a morte. E a mensagem cristã é verdadeiramente fonte de esperança, porque temos uma perspetiva de vida para além da morte. Uma perspetiva de vida maior, mais ampla, que nos dá a força interior para continuar a construir, enquanto alguém todos os dias destrói; para continuar a curar feridas, enquanto alguém diariamente no-las inflige”. 

Esta Páscoa ocorre, porém, numa fase de crescente tensão entre as igrejas ortodoxas presentes na Ucrânia, particularmente entre a que historicamente é maioritária e manteve desde o início uma vinculação ao Patriarcado de Moscovo, do qual se apressou a desligar com o eclodir da guerra, e a Igreja de pendor nacionalista, considerada cismática pela primeira, mas, entretanto, reconhecida como igreja autocéfala pelo patriarca Bartolomeu, que tem no campo ortodoxo um papel de primus inter pares.

O conflito azedou, a partir de março último, com a ordem dada pelo regime de Zelensky de desocupação dos imponentes edifícios da Lavra (ou mosteiro) nos arredores de Kyiv, ocupados por monge tidos como afetos à Igreja com ligações históricas a Moscovo. A ordem, até agora não cumprida, poderá conhecer desenvolvimentos proximamente. 

Este é um caso paradigmático de uma instrumentalização da religião no quadro da guerra desencadeada pela invasão da Rússia e pela legitimação e apoio que tem sido dada ao presidente Vladimir Putin por parte do patriarca Cirilo.

 

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