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Pompeo Girolamo Batoni, “São Paulo” (1740-43), pormenor; Basildon Park, Berkshire, Reino Unido (National Trust). Foto © National Trust Photographic Library/John Hammond/Bridgeman Images, reproduzida na capa do livro.

Livro de Thiessen em pré-publicação

Paulo não abandonou o judaísmo: “Um Judeu Chamado Paulo”

| 09/10/2025

 

Numa tese destinada a provocar polémica e que deixará muitas pessoas espantadas, o investigador Matthew Thiessen, da Universidade Duke (Durham, Carolina do Norte), no Sudeste dos Estados Unidos defende que Paulo, considerado o grande apóstolo do cristianismo nascente, não abandonou o judaísmo. O livro Um Judeu Chamado Paulo – O arauto do Messias para os gentios (edição Temas e Debates), que agora é posto à venda, parte da análise história, linguística e bíblica para sintetizar debates académicos sobre a figura do apóstolo e avançar: “Thiessen não percorre de modo neutro as várias posições académicas”, diz Pamela Eisenbaum, da Iliff School of Theology. “Em vez disso, defende com veemência que Paulo permaneceu plena e firmemente dentro do judaísmo, desde o nascimento até à morte.”

Também o jesuíta português Francisco Martins, autor do livro A Bíblia Tinha Mesmo Razão?, que o 7MARGENS entrevistou, e que fez a revisão técnica da tradução do livro de Thiessen, escreve, a propósito desta obra, que “Paulo nunca deixou de ser judeu, mesmo depois de aderir a Cristo”. E acrescenta: Nem o judaísmo era uma religião da justificação pelas obras, nem Paulo era contra a Lei ou o judaísmo. Este fascinante livro de Matthew Thiessen introduz os leitores a uma nova forma de entender o apóstolo dos gentios que é menos partidária nas suas premissas e mais rigorosa nas suas conclusões.”

O 7MARGENS publica a seguir excertos da obra, retirados dos capítulos “Tornar Paulo estranho de novo” e “Paulo, um judeu do fim dos tempos”.

 

Tornar Paulo estranho de novo

Paulo viveu há quase dois mil anos. Viveu, movimentou-se e fez a sua vida no mundo mediterrânico antigo, um mundo que partilhava pressupostos e crenças que frequentemente diferiam dos pressupostos e crenças de muitos dos seus leitores posteriores. Se, de alguma forma, transportássemos magicamente Paulo para o nosso tempo e conseguíssemos ultrapassar o fosso linguístico, deduzo que tenderíamos a concluir que ele era bastante estranho. As Bíblias e os livros sobre Paulo procuram fazer exatamente isso, traduzindo o seu grego para as línguas modernas e tentando tornar inteligíveis as várias afirmações que compõem as suas cartas. Trata-se de um trabalho importante, mas, em alguns casos, o esforço para o tornar inteligível resulta na reconstrução da sua pessoa à nossa imagem. Como poderemos nós evitar este perigo e permitir que Paulo seja ele mesmo em toda a sua estranheza?

As palavras são importantes. Por vezes, as palavras mais comuns são as mais importantes, pois transportam consigo pressupostos ocultos que têm um peso ideológico ou, no caso de uma figura como Paulo, teológico. Talvez os leitores já se tenham apercebido de algumas palavras e expressões menos comuns na introdução deste livro. E talvez tenham ficado surpreendidos com a falta de algumas palavras comuns. Permitam-me dizer algumas palavras sobre palavras – a razão por que evito algumas e uso outras – e depois ligar a razão destas palavras ao porquê da minha abordagem metodológica mais alargada para pensar e falar sobre Paulo.

Alguns dos meus maiores arrependimentos na escrita estão relacionados com as escolhas de tradução que fiz ao falar de textos antigos. Por regra, tais escolhas nem sequer foram decisões conscientes, representando antes o meu seguimento irrefletido de convenções das quais eu era demasiado preguiçoso ou ignorante para me afastar. Lamento aqui o facto de ter usado essas palavras. Em nenhum momento usarei a palavra «cristão» para me referir aos discípulos de Jesus no século I d.C. Porquê? Porque a palavra nunca aparece nas cartas de Paulo. Embora Paulo nunca use «cristão» (ou «cristianismo»), a palavra surge três vezes no que hoje apelidamos de Novo Testamento, duas vezes nos Atos dos Apóstolos (11:26; 26:28) e uma vez na Primeira Carta de Pedro (4:16). Em todos os casos, parece ser um termo estranho aplicado aos discípulos de Jesus pelas autoridades do Império Romano. Na Primeira Carta de Pedro, vemos o autor a apelar aos leitores para que ostentassem este título com orgulho, ainda que o seu uso tivesse a intenção de rebaixar e insultar.

São Pedro com as chaves do Céu.

“Na Primeira Carta de Pedro, vemos o autor a apelar aos leitores para que ostentassem este título (cristãos) com orgulho, ainda que o seu uso tivesse a intenção de rebaixar e insultar.” Pintura: Peter Paul Rubens (1577–1640), S. Pedro com as chaves do céu. Museu Nacional do Prado (Madrid) / Wikimedia Commons.

A ausência da palavra «cristão» nos escritos de Paulo poderá ser explicada de duas maneiras. Em primeiro lugar, é possível que Paulo simplesmente não conhecesse o termo e, portanto, não o pudesse utilizar. A maioria dos estudiosos duvida de que tanto os Atos dos Apóstolos como a Primeira Carta de Pedro datem do tempo de Paulo. Por conseguinte, poderá ser anacrónico usar os termos «cristão» ou «cristianismo» em relação a Paulo ou aos tipos de grupos que Paulo organizou e aos quais se dirigiu através das suas cartas. Em segundo lugar, e talvez algo mais tentador, é possível que o termo «cristão» seja anterior a Atos e a 1Pedro em algumas décadas e que Paulo conhecesse a designação, mas escolhesse conscientemente não a usar. Porque faria ele isso? Será que o termo não lhe agradava? Se for esse o caso, então a nossa utilização dessa palavra na descrição tanto dele como dos seus primeiros leitores seria não só anacrónica, mas também não paulina e, possivelmente, até antipaulina.

Para Paulo, o mundo humano estava dividido em dois grandes grupos: judeus e não-judeus. E dentro destas duas categorias havia aqueles que seguiam Jesus e os que não o seguiam.

Quando nós usamos o termo «cristão», assumimos quase sempre que se trata de uma categoria mutuamente exclusiva do judaísmo. Praticamente todos os cristãos e judeus contemporâneos partem desse pressuposto, ainda que ele ignore (convenientemente?) o pequeno número de judeus messiânicos que existem hoje em dia.

O termo «cristão» traz consigo um mapa mental de um mundo com uma fronteira claramente definida e defendida entre duas religiões distintas: o judaísmo e o cristianismo. Usar o termo no contexto do tempo de Paulo seria tão impreciso e inútil como chamar americanos ou canadianos aos povos indígenas do século XIV da «Ilha da Tartaruga», com base no facto de residirem acima ou abaixo daquilo a que hoje denominamos Paralelo 49. O Canadá e os Estados Unidos não existiam no século XIV e a fronteira que desenhamos nos mapas é pouco mais do que uma ficção jurídica moderna (e, claro, partes do Canadá estão abaixo do Paralelo 49 e partes dos Estados Unidos estão acima dele). Estas categorias não se aplicam nem nos ajudam a compreender melhor a vida dos povos indígenas. (…)

Como poderemos resumir hoje o pensamento paulino se qualquer análise honesta terá de lidar com o facto de haver lacunas, algumas bastante grandes, no que Paulo escreveu? Como será possível lidar com temas não desenvolvidos e subdesenvolvidos no que ele disse? E como conseguiremos pesar as coisas que ele afirmou quando grande parte delas surge em contexto polémico, em resposta a questões específicas? Poderíamos simplesmente abandonar o projeto, concluindo que o que Paulo escreveu é demasiado ocasional e fragmentário e talvez até de pouco valor teológico. Por outro lado, poderíamos fingir não haver qualquer problema e continuar a tratar os seus escritos como uma proposta teológica sistemática, passível de ser lida no vazio. (…)

 

Paulo, um judeu do fim dos tempos

Caravaggio, A Conversão de São Paulo (1600-1601), quadro na Igreja de Santa Maria del Popolo, Roma.

(…) O que terá levado Paulo a passar de alguém que perseguia os discípulos de Jesus a alguém dedicado a criar o maior número possível de discípulos não-judeus de Jesus numa vasta região geográfica? Não foi, como sugerem muitos relatos populares sobre Paulo, uma profunda insatisfação com o seu modo de vida judaico. Pelo contrário, Paulo dá a entender que estava bastante satisfeito e realizado no seu anterior modo de viver os costumes e as práticas judaicas, e que o Deus de Israel simplesmente o interrompeu, revelando-lhe o filho de Deus, Jesus.8 E qual fora o objetivo dessa interrupção? Deus autorizara Paulo a tornar-se o arauto do Messias para os não-judeus (Gálatas 1:15-16). Como Krister Stendahl, mais tarde bispo da Igreja da Suécia em Estocolmo, argumentou há quase cinquenta anos, Paulo não passou pelo que apelidaríamos de «conversão», trocando uma religião (judaísmo) por outra (cristianismo). Convém recordar que o cristianismo não existia no tempo de Paulo. Em vez disso, deu por si a acreditar que o Deus dos seus antepassados, o Deus de Israel, o chamara, um fariseu que anteriormente resistira àquele bando de arrivistas que seguia um Messias falhado e crucificado, para ir proclamar uma mensagem sobre como o Deus de Israel, através de um Messias judeu ressuscitado, acabara de reclamar todo o cosmos, incluindo os não-judeus, levando assim a cumprimento as Escrituras judaicas.

Paulo não abandonou o judaísmo. Todavia, como mencionei no capítulo anterior, esta é a impressão que muitas traduções transmitem no modo como lidam com o grego de Gálatas 1:13. A título de exemplo, a New Revised Standard Version Updated Edition (NRSVUE) traduz as palavras de Paulo neste versículo como «You have heard, no doubt, of my earlier life in Judaism» («Terão ouvido, sem dúvida, falar da minha vida anterior no judaísmo»). Uma melhor tradução refletiria que Paulo se refere à sua maneira ou modo anterior no seio de algo a que ele chama Ioudaismos, um nome relacionado com o verbo ioudaizein (judaizar), que tem que ver com o facto de os não-judeus adotarem costumes judaicos (Gálatas 2:14). Os judeus não se podem judaizar, mas os gentios podem. Aqui, Paulo afirma que, outrora, promovia práticas judaicas entre os gentios, uma observação que desenvolve em Gálatas 5:11, declarando que costumava proclamar a circuncisão. Não obstante, até mesmo esta afirmação relativamente clara contém um grau de incerteza.

Festa Judaica. Marrocos

Alfred Dehodencq (1822–1882), Festa judaica em Tetuão (Marrocos). Museu de Arte e de História do judaísmo (Paris) / Wikimedia Commons.

A quem proclamou Paulo a circuncisão? A judeus ou a gentios? A interpretação mais razoável aponta para a proclamação da circuncisão aos não-judeus, uma vez que os judeus com quem ele falava seriam ou mulheres, que não precisavam de circuncisão, ou homens, que já estavam circuncidados. É possível que Paulo tenha declarado aos judeus a validade permanente da circuncisão para que eles continuassem a circuncidar os seus filhos recém-nascidos, mas tal pressuporia a existência de um número suficiente de judeus a abandonar a prática de circuncidar os seus filhos para que ele tivesse de andar de um lado para o outro a exortá-los no sentido de o continuarem a fazer. Parece mais provável que ele pretendesse dizer que, no passado, ensinara que os gentios precisavam de se circuncidar. É precisamente contra isso, afinal, que ele procura argumentar em Gálatas.

Quando, porém, é que Paulo defendeu a circuncisão? Foi antes ou depois de o Messias lhe ter sido revelado? Não há uma resposta inequívoca para esta pergunta. É bastante plausível que, depois de passar a acreditar que Jesus era o Messias e que ressuscitara, Paulo tenha levado algum tempo para chegar à conclusão de que os gentios não tinham nem a necessidade nem a obrigação de se submeterem à circuncisão. Esta última possibilidade sai, em certa medida, reforçada se nos lembrarmos, como defendi no capítulo anterior, que os judeus antigos não se focavam no proselitismo junto dos não-judeus. No entanto, penso que Paulo se refere aqui principalmente às suas ações como fariseu antes de ter encontrado o Messias ressuscitado. Embora os judeus não tivessem conselhos missionários que enviassem os seus representantes aos gentios, dispomos de indícios de que alguns judeus efetivamente missionavam e alguns desses elementos tinham ligações aos fariseus (Mateus 23:15; também um provável fariseu chamado Eleazar em Antiguidades Judaicas, 20.17-47, de Josefo). Assim, poderia fazer sentido que Paulo, o fariseu, também estivesse envolvido, mais ou menos sistematicamente, no proselitismo de não-judeus.

Mesmo nesse caso, será que a necessidade, ou não, de os discípulos gentios (do sexo masculino) de Jesus se submeterem à circuncisão e as questões sobre aquilo a que Paulo chama «as obras da lei» estavam na primeira linha do seu pensamento durante os primeiros anos depois de ter aderido ao movimento de Jesus? Paulo conta aos seus leitores da Galácia que, depois de Deus lhe ter revelado o Messias, foi para a Arábia. Aqui, terá estado rodeado de árabes que praticavam a circuncisão à semelhança do seu antepassado Ismael, que fora circuncidado aos treze anos de idade (Génesis 17:25). Josefo transmite aos seus leitores que este era o costume no primeiro século depois de Cristo: «Os árabes protelam a cerimónia [da circuncisão] para o décimo terceiro ano, porque Ismael, o fundador da sua etnia, nascido da concubina de Abraão, foi circuncidado nessa idade.» Consequentemente, Paulo teria estado rodeado de parentes (por melhor ou pior que se dessem) dos judeus, pois era crença comum que os árabes eram descendentes de Abraão através de Ismael. Como sugerem Anna Maria Schwemer e Martin Hengel, é possível que Paulo tivesse ido inicialmente para a Arábia por acreditar que os árabes eram descendentes de Abraão. Na Arábia, Paulo ter-se-ia então cruzado não com gentios incircuncidados, mas com árabes circuncidados e descendentes de Abraão. Só depois de ter deixado a Arábia e rumado a outros territórios gentios é que a questão de saber se os gentios crentes em Jesus precisavam de se submeter à circuncisão se tornaria um problema real. Esta controvérsia geraria em Paulo uma frustração considerável, como indicam as suas cartas destinadas à Galácia, a Filipos e a Roma.

Este capítulo e o anterior prepararam o cenário contextual para o que se segue. Estamos prestes a entrar no cerne da polémica em torno das cartas de Paulo, epístolas que foram interpretadas durante quase dois mil anos como reveladoras da rutura de Paulo com o judaísmo e, sobretudo, com a lei judaica. Tenho vindo a argumentar que Paulo não abandonou uma religião estabelecida chamada judaísmo para se converter a uma nova religião chamada cristianismo. Em vez disso, os judeus antigos procuravam viver fielmente diante de Deus da forma que consideravam melhor, mas com frequência divergiam uns dos outros quanto a essa forma e às decisões a tomar. Além disso, os judeus discordavam em relação a algo fundamental para a vocação e as cartas de Paulo: como lidar com os não-judeus. Melhor dizendo, os judeus discordavam sobre como os não-judeus se deviam relacionar com Israel, com o Deus de Israel e com a lei de Israel.

 

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