“A religião deve ser como o sal na comida; nem muito nem pouco: só o preciso.”
A frase é atribuída a D. António Alves Martins, que foi bispo de Viseu de 1862 a 1882, mas antes disso, na juventude, participou na luta entre liberais e absolutistas, na primeira metade do século XIX. Tomou partido pelo lado liberal e chegou a ser condenado à morte no local onde mais tarde foi implantada a sua estátua, que tem inscrita aquela frase. Conseguiu evadir-se, com outros três réus, quando era levado para a execução, em Janeiro de 1832.
Nestes tempos que correm, temos religião a mais ou a menos? Temos a mais e é de má qualidade.
Neste “regresso das guerras de religião”, há clérigos no poder e há políticos armados em pregadores, que, quando matam os seus inimigos, dizem aos berros que os mandaram para “as profundezas do Inferno”. E pelo caminho fazem chover fogo sobre todas as cidades e populações que, para eles, estão do lado do mal. Falam da batalha do Armagedão como se fosse uma coisa desejável e querem participar nela, convencidos de que estão eles do lado do bem e, portanto, vão ficar por cima.
Todas as instituições cuja vocação era a de evitar os conflitos são criticadas, desacreditadas e despojadas dos seus meios de intervenção. Exactamente na altura em que precisávamos de mais diplomacia e menos guerra, de mais razão e menos religião.
Vale a pena recordar, neste ponto, a guerra civil que desmantelou a Jugoslávia na última década do século XX, onde já se cruzavam todos estes equívocos. O texto que se segue é o de uma crónica datada de 18 de Abril de 1999, publicada no programa Como se Visse o Invisível, criado pelo jornalista Manuel Vilas Boas na TSF. Estava em curso a operação de bombardeamento aéreo de Belgrado e outras cidades sérvias, desencadeado pela NATO para pôr cobro à guerra civil no Kosovo.
Entre o culto dos mortos e a aliança dos vivos

Casa destruída em Vukovar, na Croácia, em Fevereiro de 2004, durante a Guerra dos Balcãs. Foto: Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).
Ora então, desta vez, o chamado Ocidente cristão foi em socorro dos muçulmanos. É o que parece, e já não era sem tempo. Mas para não variar, foi – novamente – contra o chamado Oriente cristão. Trata-se, portanto, de uma guerra religiosa. Será verdade?
Para muitos ortodoxos é mesmo, e com o sistema de alianças posto ao contrário. Desde que a febre nacionalista começou, em 1991, a desmantelar a Jugoslávia, a primeira grande vítima foi a Bósnia-Herzegovina, estilhaçada em pequenos cantões impossíveis de estabilizar, com fronteiras ridículas e cidades a mudarem de mãos ao sabor das batalhas perdidas e das limpezas “étnicas” levadas a cabo. Perguntava então Velibor Ostojic, ministro da Informação do chamado governo sérvio da Bósnia: “Por que é que a Europa cristã está contra nós? Estamos a defendê-la…”
A verdade é que não estamos tão longe, como gostaríamos, da doutrina medieval da guerra justa e mesmo do espírito de cruzada. E de cada lado há quem os interprete à sua maneira, como é evidente. O jornal El País encontrou por essa altura em Mostar, capital da então chamada República Herzegovina Croata, voluntários espanhóis que se declaravam católicos e fascistas, combatendo “por Deus e pela Croácia”.
Noutra guerra, a do Nagorno-Karabakh, a France-Presse entrevistou voluntários russos que afirmavam estar “em cruzada contra os turcos”, para salvar os arménios do Azerbeijão. “Se não detivermos os muçulmanos aqui, amanhã será muito tarde para a Rússia” – dizia um deles.
A correspondente do semanário norte-americano The New Republic, escrevendo de Sarajevo em Agosto de 1993, contava que a grande diferença entre muçulmanos, croatas e sérvios na Bósnia não ocupada era que os muçulmanos não iam à mesquita, os croatas não iam à igreja católica e os sérvios não iam à ortodoxa.
Muçulmano passara a ser o termo usado para designar quantos não fossem abertamente nacionalistas sérvios ou croatas; na prática, comportavam-se todos de modo bastante secular, ou laico – e, o que é mais irónico, até os membros da comunidade judaica de Sarajevo eram incluídos no rótulo dos muçulmanos – mas na propaganda nacionalista sérvia eram “fundamentalistas, mujahedins ou turcos”.
Quanto aos croatas, o general sérvio Zivota Panic esclarecia o problema afirmando que o Ocidente pretendia simplesmente recuperar o antigo território dos Habsburgos. É importante lembrar que chegou a haver mais de um terço de casamentos mistos, em Sarajevo, antes da guerra, e que o Governo dito muçulmano do Presidente Izetbegovic era também, de facto, um governo misto.
Nesta, como noutras guerras civis, há uma grande diferença entre as populações, que são capazes de se reencontrar e misturar aos poucos, restaurando o tecido social que é indispensável à vida em paz… e, do outro lado, a argumentação apocalíptica dos nacionalismos agressivos, que insistem nas ideias de identidade, pureza e segregação. Infelizmente, na hora de tocar os clarins, essa lógica tribal acaba por mobilizar e chamar às armas, uns contra os outros, vizinhos que tinham aprendido a respeitar-se.

Refugiados muçulmanos chegam a Travnik durante a guerra na Bósnia e Herzegovina, em 1993. Foto © Mikhail Evstafiev /Wikimedia Commons
Os Balcãs são uma grande praia onde cada onda, vinda de um lado diferente, deixou na areia a babugem do alcance máximo até onde chegou. As marcas não coincidem, as mesmas aldeias foram cobertas por impérios sucessivos, disputadas por civilizações concorrentes e por memórias de matanças e êxodos não vingados.
Esta guerra de agora iniciou-se em Agosto de 1991, precisamente na Bósnia, quando nacionalistas sérvios começaram a desenterrar os seus mortos do massacre feito em 1941 pelo regime croata ustachi, colaboracionista dos ocupantes nazis, dando-lhes solenes funerais ortodoxos, enquanto a poucos quilómetros nacionalistas croatas faziam o mesmo com as vítimas da retaliação sérvia, dando-lhes funerais católicos. Os mortos comandam os vivos e mandam que eles continuem a matar-se.
Teria sido necessário, antes de chegarmos a este ponto, convencer os nacionalistas albaneses (outro termo de propriedade discutível) de que não podem tirar à Sérvia a soberania de um território onde esta tem há séculos o coração; e convencer os nacionalistas sérvios de que também não podem despovoar 90 por cento dos habitantes de uma província só porque não se identificam com essa herança histórica.
E, antes de tudo, as independências que começaram, em 1991/92, a fracturar a Jugoslávia, não deviam ter sido encorajadas nem aplaudidas pelo Ocidente, com a Alemanha e a Santa Sé na primeira fila – o que só veio justificar as piores suspeitas dos sérvios. Agora é tarde. A NATO pode ganhar a guerra do Kosovo, mas todos os que lá moram, ou venham a morar, já a perderam.
Curiosamente, e como se conta no capítulo 16 do livro dos Actos dos Apóstolos, no Novo Testamento, é pela antiga Macedónia grega – que se estendia na direcção do Kosovo – que o Apóstolo Paulo traz o cristianismo primitivo da Ásia Menor (a actual Turquia) para a Europa propriamente dita. Também o islão subiu esta estrada, alguns séculos mais tarde.
Não tenho exortação final senão uma que já usei nestas crónicas: a única coisa que faz sentido nisto tudo é a doutrina bíblica da Aliança – e mesmo essa lida com todo o cuidado. Continuamos a ter de escolher entre o culto dos mortos e a aliança dos vivos. A Bíblia é mais ecuménica do que parece e a vida é mais mestiça, mais “crioula” do que querem os cruzados de todas estas “guerras santas”…
Silas Oliveira é jornalista e membro da Igreja Evangélica Presbiteriana de Lisboa.
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