No islão, especialmente no mês do Ramadão, o jejum é uma prática religiosa de extrema importância e um dos seus cinco pilares, sendo uma prática que vai muito além da simples abstinência de comida e bebida. Representa um período de reflexão espiritual, purificação da alma e fortalecimento da disciplina pessoal.
Para os muçulmanos, o jejum não é apenas uma demonstração de obediência a Allah [Deus], mas também uma ferramenta de crescimento espiritual, autocontrolo e empatia.
Allah ordena o jejum no Alcorão como uma prática obrigatória para os crentes: “Ó vós que acreditais! O jejum foi-vos prescrito, tal como foi prescrito àqueles que vieram antes de vós, para que possais alcançar a piedade.” (Sura Al-Bácara 2:183). O Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) também destacou a grande recompensa do jejum: “Quem quer que jejue no Ramadão com fé e buscando a recompensa de Allah, terá os seus pecados anteriores perdoados.” (Bukhari, 38; Muslim, 760).
Além disso, há uma recompensa especial para aqueles que jejuam sinceramente: “Na verdade, no Paraíso há uma porta chamada Ar-Rayyan, através da qual apenas aqueles que jejuam entrarão no Dia da Ressurreição. Ninguém mais entrará por ela. Será dito: ‘Onde estão os que jejuavam?’ Então eles levantar-se-ão, e ninguém mais entrará por essa porta além deles. Depois que entrarem, a porta será fechada e ninguém mais poderá entrar por ela.” (Bukhari, 1896; Muslim, 1152).
O jejum no islão tem múltiplos significados, tanto a nível espiritual, como social e físico. Ele ensina o autocontrolo, a paciência, a gratidão e a solidariedade, enquanto purifica tanto a alma quanto o corpo.

Pormenor de painel de azulejos na Mesquita Central de Lisboa, com os atributos de Deus. Foto © António Marujo
O jejum fortalece a taqwa, ou seja, a consciência de Allah, em todos os aspetos da vida. Ao abster-se de comida, bebida e outras indulgências, como relações íntimas com o seu cônjuge, do amanhecer ao pôr do sol, o muçulmano reconhece a sua dependência total de Allah, o que reforça a sua fé e a sua ligação com Ele.
Além disso, ajuda a afastar-se das distrações materiais da vida, lembrando que a vida terrena é passageira e incentivando um maior foco na espiritualidade e nos valores islâmicos.
O mês do Ramadão é também um período de introspeção e arrependimento, permitindo aos muçulmanos pedir perdão a Allah, reavaliar as suas atitudes e renovar o compromisso com uma vida mais devota. Ao mesmo tempo, este mês fortalece a irmandade entre os muçulmanos, através da oração, do jejum e do iftar comunitário.
O iftar (refeição que quebra o jejum) ao pôr do sol é um momento de partilha e conexão dentro da comunidade. O Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) reforçou a importância da solidariedade ao dizer: “A melhor caridade é aquela que se dá no Ramadão.” (Tirmidhi, 663).
Outro propósito essencial do jejum é demonstrar empatia e solidariedade para com os mais necessitados. Ao experienciar a fome e a sede, os muçulmanos tornam-se mais conscientes das dificuldades enfrentadas por quem passa por essas condições diariamente. Isto incentiva a prática da caridade e do pagamento da zakat (doação obrigatória), um dos pilares do islão que reforça o dever de ajudar os necessitados.
Além disso, ao vivenciar a privação, os muçulmanos tornam-se mais conscientes das bênçãos de Allah, como a comida e a água, cultivando um profundo sentimento de gratidão.
O Alcorão reforça essa conexão entre o jejum e a proximidade com Allah: “E quando os Meus servos perguntarem por Mim, em verdade, Eu estou próximo. Eu atendo o chamado do suplicante quando Me invoca. Que, pois, Me respondam e n’Ele creiam, para que possam ser guiados.” (Sura Al-Bácara 2:186).
Embora o jejum seja um ato de adoração, há também benefícios para a mente e o corpo. Muitos estudos indicam que o jejum pode melhorar a clareza mental, a disciplina e o metabolismo, além de purificar o corpo.
No entanto, o islão não impõe dificuldades desnecessárias. Para quem tem problemas de saúde, Allah permite que o jejum seja substituído por outro ato de adoração: “E quem estiver doente ou em viagem, que jejue um número igual de outros dias. E aqueles que podem jejuar com dificuldade, que paguem um resgate: alimentar um necessitado. Mas quem fizer mais voluntariamente, será melhor para ele. E jejuar é melhor para vós, se soubésseis.” (Sura Al-Bácara 2:184).

“O Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recomendava iniciar o dia com uma refeição leve antes do amanhecer (suḥūr) e quebrar o jejum ao pôr do sol (iftār) com tâmaras e água.” Gravura: Maomé recitando o Corão em Meca / Wikipedia
O Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos de Allah estejam sobre ele) recomendava iniciar o dia com uma refeição leve antes do amanhecer (suḥūr) e quebrar o jejum ao pôr do sol (iftār) com tâmaras e água. Ele disse: “Fazei a refeição do suḥūr, pois há bênção nela.” (Bukhari, 1923; Muslim, 1095). Durante o jejum, o muçulmano deve evitar não apenas comida e bebida, mas também palavras e comportamentos prejudiciais.
O Profeta enfatizou isso ao dizer: “O jejum é um escudo. Se alguém de vós estiver a jejuar, que não use linguagem obscena nem levante a voz. Se alguém o insultar ou tentar brigar com ele, que diga: ‘Estou a jejuar’.” (Bukhari, 1894; Muslim, 1151).
O jejum no islão é muito mais do que um simples ato de sacrifício. Ele é um processo de purificação da alma e do corpo, que aproxima o crente de Allah e o incentiva a cultivar melhores hábitos espirituais, emocionais e sociais. É uma prática holística, que integra fé, disciplina, empatia e comunidade. Ele ensina gratidão, paciência, generosidade e humildade, lembrando que o verdadeiro sustento vem de Allah.
Assim, a pergunta que me faz mais sentido será: porque não jejuar? O jejum é uma oportunidade única de crescimento e renovação, ajudando os muçulmanos a aprimorar a sua fé e ligação com o Criador.
Mesmo no mundo moderno, continua a ser uma prática essencial para aqueles que procuram aprofundar a sua espiritualidade e fortalecer a sua conexão com a comunidade muçulmana global. Que este Ramadão seja um tempo de bênçãos, purificação e proximidade com Allah para todos os que jejuam.
Sarika Karim, 45 anos, natural de Lisboa, casada e mãe de quatro filhas. Em 2002, coordenou a Comissão Cultural da Comunidade Islâmica de Lisboa. Em 2014, iniciou um projeto na área da Saúde Mental em Estruturas Residenciais para Idosos e é sócia-gerente de Residências Sénior. Participa também ativamente em iniciativas de solidariedade na comunidade.










