Honras de Panteão

Portugal curva-se, eternamente grato, hoje e para sempre, perante Aristides

| 19 Out 21

Concessão de Honras de Panteão Nacional a Aristides de Sousa Mendes. Foto © Presidência da República

 

O Presidente da República (PR), Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou na manhã desta terça-feira que Portugal se curva perante a “personalidade moral” de Aristides de Sousa Mendes, e que “eternamente grato, hoje e para sempre, o recorda e homenageia”. 

Foi desta forma que o Presidente terminou a cerimónia solene de concessão de honras de Panteão Nacional a Aristides de Sousa Mendes, na evocação do legado do homem que hoje é um “Justo entre as Nações”. Com o gesto que teve, concedendo vistos de passagem a milhares de pessoas em fuga do nazismo e da França ocupada, Aristides salvou talvez umas 30 mil vidas, mudou a história de Portugal e projectou Portugal no mundo, como também referiu o Presidente. 

A historiadora Margarida de Magalhães Ramalho referiu algumas das consequências que resultaram do gesto do então cônsul de Portugal em Bordéus, no Sudoeste de França: “Milhares de pessoas devem-lhe a vida e milhares de pessoas puderam [continuar a] existir graças a ele”, afirmou. “O seu nome é lembrado em praças, nomes de rua, estabelecimentos de ensino, etc.” E o que fez Aristides para isso? “Uma coisa muito simples: desobedeceu. Se é preciso coragem para acatar ordens com que não concordamos, mais difícil é seguramente seguir a consciência e não as cumprir. Foi isso que Aristides de Sousa Mendes fez.”

O gesto de Aristides acontece num quadro de tragédia: em 1940, na sequência da ocupação de Paris e da França, mais de três milhões de pessoas, só da região de Paris, puseram-se em fuga. E os que estavam em fuga, lembrou ainda a historiadora, tinham que ter simultaneamente quatro vistos válidos: um de saída de França, um de entrada em Espanha, um de entrada em Portugal e um visto definitivo para outro país. “O problema é que quase nenhum país estava disposto a conceder vistos definitivos.”

Em 17 de Junho de 1940, “ao fim de três dias de uma enorme luta interior”, Aristides decidiu “escutar a voz da sua consciência e, ao arrepio das ordens de Lisboa, começa a emitir vistos a toda a gente”, recordou Margarida Ramalho. Que citou uma das afirmações do cônsul: “Era realmente meu objectivo salvar toda aquela gente”, cuja aflição era indescritível (…) quantos suicídios… quantos actos de loucura de que eu próprio fui testemunha!”

No ano passado, o Papa Francisco recordou o exemplo de Aristides, a propósito do Dia da Consciência, que se assinala a 17 de Junho, precisamente em memória do gesto do cônsul. E pediu “que a liberdade de consciência seja sempre e em toda a parte respeitada”, lembrou a historiadora. 

No final da guerra, os números descreviam a dimensão do horror nazi: “Terão morrido, até 1945, seis milhões de judeus, 250 mil ciganos, 250 mil portadores de doenças físicas e mentais, três milhões de prisioneiros russos, sete milhões de civis soviéticos, dois milhões de civis polacos, 300 mil civis sérvios, um número indeterminado na casa dos milhares de opositores políticos, de membros da Resistência alemã ou dos países ocupados, homossexuais, católicos e Testemunhas de Jeová”, referiu Margarida Ramalho. 

Concessão de Honras de Panteão Nacional a Aristides de Sousa Mendes. Foto © Presidência da República

 

Oito décadas depois destes acontecimentos, referiu entretanto Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, é “com sobressalto que, pela Europa e pelo mundo fora, se verifica que o registo histórico do sucedido pode não ter ficado suficientemente enraizado na memória colectiva das democracias que desde então foram emergindo”. E referiu “o aumento evidente de fenómenos de antissemitismo, de ódio racial, de homofobia, de recusa do outro, por ser estrangeiro ou diferente”, e ainda “o recrudescimento de discursos negacionistas do Holocausto e das vidas das suas vítimas, cujo testemunho na primeira pessoa vai, por força da lei do tempo, começando a desaparecer”.

Ferro Rodrigues acrescentou que o exemplo de Aristides “engrandece Portugal” e que “a maioria das pessoas gostará de pensar que, se alguma vez estivesse perante um dilema equivalente, escolheria não olhar para o lado e tomar a decisão ética, enfrentando as consequências”. Mas, disse, “felizmente, poucos de nós são confrontados na vida real com tal dilema”. Pelo contrário, o presidente do Parlamento pensa que serão “muito raras as pessoas que, na hora decisiva, face a situações concretas, arriscam mesmo comprometer a sua segurança, a sua liberdade ou a da sua família, com o único propósito de ajudar os outros”. Aristides de Sousa Mendes foi uma dessas pessoas e, “quando algo de extraordinário como isso acontece, somos tocados pela grandeza”, acrescentou, admitindo que a “enorme coragem” do cônsul sempre o emocionou.

Também o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. José Ornelas, presente na homenagem, sublinhou o exemplo de Aristides para os tempos de hoje. Para o bispo de Setúbal, é necessário “reagir” e “rebelar-se contra as ditaduras” que querem transformar uma comunidade nacional em “nacionalismo contra outros”, desvirtuando “valores sagrados para pô-los ao serviço dos seus valores”.

“Todos os ditadores quando falam de nacionalismo não estão falando do bem do povo, estão falando do seu bem e de assegurar o seu domínio sobre esse povo. Hoje o que transparece é que este homem, que em nome precisamente do ser homem, do ser humano, é capaz de rebelar-se contra ordens que são injustas porque há valores que se sobrepõem aos interesses passageiros e contextuais de quem quer que seja”, afirmou José Ornelas à Agência Ecclesia.

Cerimónia foi pontuada por excertos do Requiem de Gabriel Fauré, cantado pelo Coro do Teatro Nacional de São Carlos. Foto © Presidência da República

 

Numa cerimónia pontuada por excertos do Requiem de Gabriel Fauré, cantado pelo Coro do Teatro Nacional de São Carlos, o Presidente Marcelo referiu ainda que, com a decisão que tomou, o cônsul “mudou a história de Portugal nesse momento trágico chamado genocídio, em plena guerra mundial, porque de genocídio se tratava já na perseguição de comunidades, que haveria de acabar em Holocausto”. Mas também “projectou Portugal no universo”, acrescentou o PR. “Desde o reconhecimento de um dos Justos entre as Nações, em Jerusalém, ao respeito e à veneração na Europa, nas Américas, na África, nas Ásias, onde quer que haja descendentes dos descendentes daquelas e daqueles que ajudou a salvar, ou ao menos um punhado de cidadãos do mundo, cultores das bem-aventuranças – das bem-aventuranças das igrejas como das bem-aventuranças das luzes, que somam a razão ao afecto.”

Marcelo citou ainda um trecho bíblico: “Recordando-nos, nas palavras de Paulo, que não há judeu nem romano, nem grego, nem outros mais. Isto é, não há raças nem etnias, religiões, culturas, civilizações, que sejam umas mais do que outras e que não mereçam todas e todos o mesmo respeito da dignidade da pessoa, da sua indestrutível natureza, da sua inexpugnável diferença.”

“Que se sucedam ou não os modismos de cada época, os valores essenciais não mudam essa justiça natural que nenhuma lei ou ordem iníquas de uma ditadura ou de um ditador podem apagar”, afirmou ainda o Presidente. “Aristides de Sousa Mendes serviu com coragem extrema, provação pessoal e familiar e exemplar humildade esses valores na sua mais notável expressão.” Por isso, “aqui entrou Aristides de Sousa Mendes e aqui permanecerá até ao fim dos tempos, se os tempos tiverem fim”. 

Os discursos, bem como a cerimónia, podem ser vistos na RTP Play. 

 

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