Pré-publicação 7MARGENS: O que é ser cigano

| 2 Set 20

Ciganos num mercado. Foto © Mirna Montenegro, reproduzida do blogue da autora.

 

Aprender a ser cigano hoje – Empurrando e puxando as fronteiras é o título do livro que o patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, apresentará na tarde desta quinta-feira, 3 de Setembro, na Feira do Livro de Lisboa (Auditório Sul, 18h). Da autoria de Mirna Montenegro, o livro procura analisar a forma como as pessoas ciganas concretizam a sua “maneira cigana de educar e de aprender”, demonstrando que são “gestoras conscientes da sua aprendizagem”, da sua autopromoção e do seu desenvolvimento, que pode inclusivamente dar contributos significativos ao sistema educativo português.

Doutorada em Educação, Mirna Montenegro tem trabalhado a área da escolarização de crianças de etnia cigana e a acção educativa das comunidades ciganas, e foi a responsável pelo Projeto Nómada (1995-2004), desenvolvido pelo Instituto das Comunidades Educativas, com origem no Projecto de Alfabetização Informal e Comunitária (1993-95), desenvolvido no Centro de Animação Infantil e Comunitária da Bela Vista (Setúbal), entre 1992 e 1995.

A apresentação do livro é feita numa parceria entre a Cáritas Portuguesa, que publica, e a Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos. Na sessão, haverá um número máximo de 48 lugares sentados e é obrigatório o uso de máscara, de acordo com o plano de contingência posto em prática na Feira do Livro por causa da pandemia de covid-19. No certame de Lisboa, que decorre até 13 de Setembro, a Cáritas tem as suas edições à venda nos pavilhões A65-A67.

Em pré-publicação exclusiva, o 7MARGENS publica a seguir a parte final do capítulo IV, dedicado às “(Re)configurações identitárias”. Omitem-se aqui as referências bibliográficas e notas de rodapé.

 

Ser cigano é…

Placa de pasta de modelar alusiva ao conto “Os Ciganos”, de Sophia de Mello Breyner, feita pelos alunos do 6º ano de Educação Tecnológica, do Externato da Luz (Lisboa)

 

“Os costumes seriam um reflexo de uma forma de ser, não o inverso. O que explica uma identidade cigana, apesar da diversidade entre os ciganos”.

Efectivamente, as pessoas ciganas podem prescindir ou modificar alguns dos seus costumes sem deixar de se sentirem ciganas. Há que diferenciar a cultura dos costumes, os quais constituem diferentes formas que a cultura assume em determinados contextos históricos e geográficos, por muitos enraizados que pareçam. Ou seja, os costumes adaptam-se para “acompanhar a evolução dos tempos”, como é referido pelos entrevistados, demonstrando que fazem parte da cultura de superfície, que se deixa aculturar, apayonando-se ou aciganando-se, sem beliscar o núcleo da cultura cigana, assente em valores, esses sim, constantemente reivindicados como sendo perenes, constantes, aquela substância que os faz sentirem-se cigano. (…)

 

– Uma maneira de pensar e de sentir diferente…
É uma maneira própria de viver e de conceber o mundo. (Bento)
A maneira de pensar é diferente. (Leandro)

É mais fácil passar-lhe aquilo que é como senhora: menos emotiva, mais arrumada, disciplinada: “aqui está o preto, aqui está o branco” do que a minha parte, que é toda cinzenta. Você passa a sua identidade não cigana pela arrumação que tem na sua cabeça, friamente, calmamente. Mas também sei que sendo mais frios, mais ponderados, se calhar, resolvem situações com mais direitos do que nós que os resolvemos com mais impulsividade e, às vezes, perdemos a razão. A vossa forma de estar é muito mais encarada com frieza do que a nossa. (Olívia)

O cigano é assim: ferve em pouca água (Soraia)

 

– Implicando uma maneira de estar também diferenciada…

O cigano mesmo que se conheça há um minuto, reconhecem-se…. Basta falarem entre si palavras que não percebem. O cigano tem maneiras de estar e de falar diferentes das outras pessoas. (Leandro)

Apanha-se o jeito de ser que se reconhece em qualquer lado (Rodrigo)

Nós não temos escrito na testa que somos ciganos. Tem a ver com o comportamento (Soraia)

 

– E ancorada em valores nucleares…

Sermos homens e mulheres de honra e vergonha (Bento)

O que nós queremos mais na cultura é o valor da honra. Nós temos de viver muito para conservar a honra. Saber estar, saber o que falar, o que dizer. Então, saber estar na comunidade cigana é manter a palavra e ser respeitado e dar-se ao respeito. Um cigano sem palavra não é ninguém. (Leandro)

Ricardo Quaresma. Futebol. Racismo. Ciganos

Ricardo Quaresma, futebolista de etnia cigana, num jogo da selecção portuguesa de futebol. Foto © Ludovic Péron/Wikimedia Commons

 

– O grupo, a comunidade, tem primazia sobre o individual…

É uma maneira própria de enfrentar o mundo, onde os sonhos se resumem, muita das vezes, a favor do grupo, onde a liberdade e autonomia são uma mais-valia. Se algo acontece a um indivíduo não cigano, o problema é apenas dessa pessoa; nos ciganos o problema passa a ser do grupo familiar. (Bento)

O nosso convívio faz-se nos mercados, no culto, na rua. (Cláudio)

E o viver em comunidade. É casarem uns com os outros. Isso é que faz o cigano. É casarem entre si. A partir do momento que casam com outros é mais que evidente que se dilui. Os nossos laços familiares são muito trabalhados. É o ser leal com o outro cigano, o viver em comunidade, em conjunto. O viver para os outros. O que se passa lá fora não interessa. E cada vez o cerco se aperta mais. (Soraia)

 

– Uma noção do tempo diferente…

Não há compromissos com o tempo, onde se tenta afastar dos pensamentos a palavra morte e outras fatalidades. Um dia não é mais um dia, é a oportunidade de vivê-lo intensamente sem pensar no amanhã!

Creio que os ciganos vivem muito o presente, não há projectos a médio e longo prazo. (Bento)

O cigano vive o hoje. E o viver o hoje altera todos os comportamentos dos indivíduos. Todo o comportamento do cigano é vivido para o dia-a-dia, para agora, para a hora. (Soraia)

 

– Onde a planificação a longo prazo não tem sentido, confrontando-a com a cultura dos “senhores”…

A vossa filosofia de vida é o quê? É acordar de manhã, ir trabalhar, vir do trabalho para casa e é todos os dias esta história. E trabalham em empenho de quê? Para ter uma casa, pagar a casa, ter um carro, pagar o carro, e andam 50 anos a sacrificar-se para pagar essas coisas. E a vida passa ao lado. Fazem logo planos para 50 anos. Isto a mim, isso mete-me muita confusão. Vocês vivem em função daqui a 50 anos e o cigano vive um dia de cada vez. Hoje tenho 20, vivo com os 20. Amanhã tenho 10, vivo com os 10. Não fazemos grandes planos. E isto está a mudar. A vossa maneira de ser e de estar na vida tentam transmitir isso para nós. E hoje em dia também já há muito ciganos a pensar assim. (Leandro)

 

– Uma relação diferente de proximidade espacial e emocional com as pessoas…

Os ciganos não prescindem da presença in loco nas tristezas e nas alegrias. As relações entre familiares não admitem tantas distâncias, não são tão frias [como nos não ciganos]. Os senhores continuam a ser menos solidários e afectuosos com a família; existe uma concepção do tempo muito bem definida e que não pode ser interrompida seja por que razão for, nem que seja uma fatalidade. (Bento)

Nós somos demasiado impulsivos. Nós agimos mais com o coração. Vocês são aquela calma, aquela frieza. Não é emocional. (Olívia)

[ser cigano] Pode parecer uma pessoa dura à primeira vista, mas a cultura nos ensina a ser sensíveis. Quando um cigano ri, ri bem alto, e quando chora, ouve-se do outro lado do mundo. (Tatiana)

Olga Mariano, mediadora sóciocultural e activista pelos direitos da comunidade cigana e cofundadora da Associação para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas Portuguesas. Foto © Observatório das Comunidades Ciganas/ACM.

 

– Face às exigências de, na actualidade, ter de cumprir um horário de trabalho por conta de outrem, o tempo dedicado à solidariedade vai sendo ajustado.

Actualmente, os ciganos estão impactados [sofreram influências] pela sociedade envolvente, encontram-se já algumas semelhanças como, por exemplo, deixarem de dar solidariedade porque têm uma feira nesse dia, algo que, no passado, era impensável. Enquanto mediador, com horários pouco flexíveis, torna-se muito complicado estar, desde a primeira hora, a solidarizar-me com o grupo. Um emprego torna-nos, forçadamente, muito mais individualistas. Mas conseguimos sempre fazer a tal solidariedade, não é às 15h, é às 18h depois do trabalho. (Bento)

 

– Uma noção de generosidade e de partilha mais vincada assente na ideia de que “a vida providenciará” o que for preciso… O sentido de providência assenta no valor da dádiva, na capacidade de solicitar a dádiva do outro, na reciprocidade da dádiva, que por sua vez contribui para o sentimento de “segurança para acção” e predispondo para viver o dia-a-dia.

Não há tanto apego aos bens materiais. Nós não conseguimos fazer comer “contado”, tipo 2 febras para 2 pessoas, nem conseguimos cozinhar em tachos pequenos. Contamos sempre com aqueles que não vêm. Nos ciganos não é preciso haver convite para vir a casa uns dos outros, aparecemos. Se for na hora de jantar não é preciso convidar muitas vezes, senta-se e come. Que vergonha seria se não houvesse comer! (Bento)

Um adulto cigano apercebe-se quando um familiar ou amigo está a passar por qualquer dificuldade, e, de forma espontânea, ele o dinheiro, colocando a pessoa à vontade de devolver a quantia quando ele puder (provavelmente não irá “apanhar” o dinheiro que emprestou, a não ser em casos de quantias elevadíssimas). (…) (Tatiana)

 

– Uma relação diferente com o trabalho…

Nós não gostamos de ser mandados: “Vai fazer isto, vai fazer aquilo, vai fazer o outro!” É normal que um patrão dê nas orelhas de um empregado. Mas nós não estamos preparados para isso. Não me estava a ver a trabalhar e a mandarem em mim. (Cláudio) (…)

 

Mas, no fundo, somos humanos e, como tal, também temos pontos em comum, facto salientado por todos os entrevistados e que Tatiana explicita de forma sintética assim:

Semelhanças, diria que, independentemente de qualquer cultura, o ser humano em si tem sempre como objectivo de vida constituir família (casar e ter filhos) e lutar por um estilo de vida melhor, confortável e seguro. (Tatiana)

Subjacentes às narrativas, estão patentes alguns dos elementos constitutivos que Rodriguez identificou como enformando o modelo cigano de ser pessoa:

O orgulho em ser cigano. (…)

A pulsão básica pela vida, patente na valorização da natalidade e das crianças, na paixão pela vida e no respeito pelos mais velhos. Em virtude da vontade de ser cigano, a cultura fomenta a endogamia e solidariedade. (…)

A consciência de ser cigano. (…) “Ser cigano aparece como um apelo a viver a ciganidade, um processo de autoconhecimento que se desenvolve em contexto familiar, realçando a importância do contexto comunitário”. (…)

A dignidade de ser cigano. Trata-se de um conceito essencialista de dignidade diferente da sociedade maioritária em que lhe basta alimento, teto, afecto, valores e diversão. Em contraponto, para sociedade maioritária, a dignidade corresponde a “muitos alimentos (mais do aqueles que se podem comer); muitos tetos (mais do que aqueles que se podem habitar); o afecto de muitos (com a pretensão de gostar de todo o mundo); muitos valores (a maioria excludentes, que dificilmente contribuem para a construção de uma cosmovisão coerente); muita diversão (para esquecer o vazio afectivo). Para a ciganidade, uma coisa é a dignidade, outra o luxo; uma coisa é a pobreza, outra a miséria”.

Em jeito de síntese, retiram-se das várias narrativas a capacidade de gerir as diversas facetas que constitui cada uma das identidades das pessoas ciganas, reveladora de uma consciencialização apurada do seu papel pessoal e social na sua comunidade de pertença, cuja distância ou proximidade com a sociedade maioritária vai sendo manejada à medida que se ressignificam os conteúdos culturais de um ou de outro lado dos limites das fronteiras, ou seja empurrando-as (aumentando o lado cigano, aciganando os elementos culturais paítos) ou puxando-as (aumentando o lado não cigano, apayonando-se). Ou seja, na tensão constante entre o desejo individual e colectivo, entre a vontade pessoal e a pressão colectiva, o indivíduo encontra um equilíbrio dinâmico que vai construindo, assente em re-significações tanto dos usos e costumes como das normas, regras, valores ciganos e paítos, alargando o seu espaço vital (pessoal e colectivo) empurrando os limites ou aproximando-os de si. Este movimento dinâmico reforça a ideia de “habitus de etnia composto ou simples” e “de lugar de etnia”, de “identidades complexas e não justapostas”, assim como da “baixa permeabilidade à assimilação cultural” e de “segurança para acção” de Maria José Casa-Nova (2009).

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