
Uma aula de universidade em anfiteatro: “se a todos e a todas os que pretendem vir estudar para Portugal fosse oferecido um curso grátis de iniciação à nossa língua, sendo-lhes proporcionada uma ajuda na escrita de trabalhos finais, certamente que se manteria (e hipoteticamente aumentaria) o número de interessados e interessadas em frequentar as universidades portuguesas”. Foto © Dom Fou | Unsplash
Nos últimos anos em que dei aulas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa recebi alguns estudantes estrangeiros que chegavam a Portugal sem dominar a nossa língua. Eram alunos e alunas geralmente espanhóis, franceses e italianos que assistiam às aulas procurando segui-las o melhor que podiam e complementando a sua aprendizagem filosófica com cursos de língua portuguesa para melhor se integrarem no meio local. Para os trabalhos escritos, tal como para os testes e os exames, era habitual que os professores aceitassem o uso das línguas de origem, mas as provas orais eram geralmente feitas em português, embora se admitisse que os estudantes se exprimissem no seu idioma próprio.
Ficou-me na memória, desses contactos com estrangeiros, um episódio anedótico, quando recebi de uma aluna um trabalho final escrito. Já não tenho presente o tema ou o filósofo que ela deveria abordar. Recordo-me, no entanto, de que redigira a prova na sua língua de origem e de que a construção do texto, bem como o tratamento dos problemas levantados, revelavam uma maturidade que me surpreendeu. Resolvi então consultar o google, para ver as possíveis fontes que lhe pudessem ter servido de inspiração. E, para minha surpresa, saiu-me ipsis verbis o trabalho que me fora entregue.
A recepção de alunas e alunos estrangeiros é boa para a internacionalização das nossas universidades mas também deveria colaborar na valorização da língua portuguesa, ajudando a difundi-la. Esta é actualmente falada por milhões de pessoas, pois é usada no Brasil, Angola, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau e Timor-Leste. Na América do Sul, o bloco comercial sul-americano Mercosul usa o português como língua de trabalho, ao lado do castelhano. E em grande parte das escolas no Uruguai, Argentina, Paraguai, Venezuela e Bolívia, o português é oferecido como segunda língua estrangeira, sendo nalguns destes países considerado obrigatório. Também podemos encontrar comunidades de língua portuguesa na Namíbia, África do Sul e Zâmbia, devido à imigração de muitos africanos lusófonos, sendo o português ensinado nas escolas desses países. Um caso interessante é o de Goa, onde até 1961 a língua “oficial” era o português. E embora o concani seja o idioma oficial que se fala neste enclave, verificamos que nele há muitos termos de influência portuguesa.[1]
Actualmente tenho netos e netas a estudar em diferentes universidades nacionais. Alguns deles frequentam mestrados em áreas científicas e no seu currículo têm disciplinas leccionadas em inglês, o que compreendo. Mas verifico com espanto que na área das humanidades há universidades onde os mestrados são leccionados em inglês, tendo como destinatários uma maioria de estudantes portugueses – uma situação que lhes levanta problemas e que me causa alguma perplexidade. Percebo o desejo de captação de um público mais amplo, internacionalizando o ensino e dando azo a trocas culturais benéficas para uma abertura de horizontes. Mas pergunto-me até que ponto esta situação contribui para a secundarização do português enquanto língua falada.
A propósito da difusão da língua portuguesa no mundo, recorro mais uma vez à conferência de Maria Helena Mira Mateus (vide nota 1) na qual se reflecte sobre a possibilidade de tornar o português uma língua privilegiada do mundo actual. E com esse objectivo lembra a difusão da nossa língua nos séculos XV, XVI e XVII pelas costas da África e da Ásia, onde em vários portos destes continentes se tornou uma espécie de língua franca. Neste texto que nos apresenta a língua portuguesa como uma das mais faladas no mundo, há também a preocupação de a dar a conhecer a quem pretenda aumentar a sua competência linguística. E uma outra tese determinante desta conferência é a crítica ao monolinguismo, nomeadamente à valorização do inglês, considerando que todos ganharíamos “se muitos trabalhos científicos fossem escritos nas línguas faladas habitualmente pelos seus autores.”[2]
Compreendo que a necessidade de atrair alunos estrangeiros seja uma preocupação geral da nossa Universidade. Mas se a todos e a todas os que pretendem vir estudar para Portugal fosse oferecido um curso grátis de iniciação à nossa língua, sendo-lhes proporcionada uma ajuda na escrita de trabalhos finais, certamente que se manteria (e hipoteticamente aumentaria) o número de interessados e interessadas em frequentar as universidades portuguesas.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática (aposentada) de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa.
[1] A informação quanto ao uso da língua portuguesa no mundo foi colhida no texto de uma conferência da Professora Maria Helena Mira Mateus, Difusão da Língua Portuguesa no Mundo, FLUL / ILTEC, 1 de Setembro de 2008. https://dlcv.fflch.usp.br/sites/dlcv.fflch.usp.br/files/01_37.pdf.
[2] ibidem, pg. 5.









