[Todos os Santos – Solenidade 2024]

[folhas de luz auroral / no espelho divino ― / oh bem-aventuranças! © haiku e fotografia Joaquim Félix]
1. Amanhecendo com a luz do dia a brincar às escondidas
atrás de nuvens e folhas semelhantes aos lençóis da cama por fazer,
dei comigo a meditar na breve introdução à solenidade
deste dia, a muitos níveis, extraordinário.
Felizmente, por ser omnicompreensivo, é um dia sem par no santoral.
Como todos sabemos, hoje, celebra-se a solenidade de Todos os Santos.
Em quatro linhas, como uma criança que escreve o sumário da aula,
e até os professores universitários na Moodle, ou noutras plataformas,
podemos ler o que está registado no Missal Romano:
«Solenidade de Todos os Santos que estão com Cristo na glória.
Na mesma celebração festiva, a santa Igreja, ainda peregrina sobre a terra,
venera a memória daqueles cuja companhia alegra os céus,
para que se estimule com o seu exemplo,
se conforte com a sua proteção e, com eles,
receba a coroa do triunfo, na visão eterna da divina majestade» (MR, 1007).

[Amanhecendo com a luz do dia a brincar às escondidas © fotografia: Joaquim Félix]
2. Realmente é uma graça podermos honrar,
numa única solenidade litúrgica, a santidade de todas as pessoas que,
tendo morrido, habitam nas moradas de Deus (cf Jo14,2)
em contentamentos de felicidade eterna,
na exultação da vida cantante, saborosa e iluminada.
Porque, segundo as palavras de S. João, escritas no Apocalipse:
«Deus toda a lágrima de seus olhos alimpará;
e não haverá mais morte; nem pranto nem clamor, nem trabalho mais haverá:
porque já as primeiras coisas passaram» (Ap 21,4).
3. Se é verdade que, para eles, as lágrimas foram enxugadas,
e não se dão mais à morte, aos clamores e trabalhos,
para nós, ainda não é assim, de todo,
pois nem sequer acabamos de contar os mortos destes dias,
nos quais as primeiras coisas se passam.
Quando parece que quase perdemos a conta
dos milhares de mortos nas guerras-de-sangue-em-jorro,
eis que surge DANA com a sua impetuosidade danada,
desprendendo a sua gota fria das camadas mais altas,
para, na semelhança de um cavalo apocalítico,
se abater e causar tremendos danos na Comunidade Valenciana.
Impressionam-nos, sim, as muitas vidas ceifadas
tanto pela violência humana quanto pelos rigores da natureza.

[Nos quais as primeiras coisas se passam © fotografia: Joaquim Félix]
4. Não são só as altas contas do obituário mundial que nos entristecem,
pois a vida de uma pessoa ― amiga, familiar ou concidadã ―
vale infinitamente, vale simplesmente, porque o seu valor é santo.
A vida é, recordemos sempre, o melhor sinal da eternidade,
um espelho luminoso da glória divina, na terra dos peregrinos.
Foi nesse sentido que Santo Ireneu de Lião escreveu:
«A glória de Deus é o Homem vivo
e a vida do Homem consiste na visão de Deus» (Contra as Heresias, IV,20,7).
5. Por conseguinte, lamentamos a trágica morte do Odair Moniz
e a morte serena do Joaquim de Sá Martins, de 82 anos,
falecido há uma semana na nossa comunidade paroquial.
Todas as mortes têm o seu lado de perturbação, todas, repito,
porque nos alagam nas lágrimas quentes de uma chuva outra
que só o luto, a fé e a confiança enxugam ao sol do tempo que passa.
Evitemos, pois, as degradantes formas de poluição e de violência
que acrescentam mais morte, prejuízos e sofrimentos.
Estes dias, na parede branca de um colégio em Braga,
li o seguinte grafito: «Um labirinto místico onde os grafites gritam».
Estava assinado com o nome «CRIOLO».
Que gritem os grafitos, no labirinto místico da vida.
Sim, que gritem, através da denúncia profética, as vidas ceifadas,
mas não deixem também de apelar à exigente construção da paz,
na harmonia das diferenças culturais e eclesiais.

[Na parede branca de um colégio em Braga © fotografia: Joaquim Félix]
6. Para não antecipar a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos,
nem cobrir este dia com tristezas ou sobrecarregá-lo de sufrágios,
concentremo-nos na solenidade de Todos os Santos.
Antes de mais, gostaria que contemplássemos a visão de S. João,
lida a partir do Livro do Apocalipse, tão instigante que é,
na densa paisagem povoada por criaturas, anjos, clamores e cânticos.
Estou persuadido de que as crianças se deliciariam
a pintar entusiasticamente esta página sagrada
― à semelhança de Ilda David’, Salvador Dali, Gustave Doré
e outros ilustradores da Bíblia ―,
numa explosão de cores e cenas de nos fazer espantar.
7. Aos adultos, habituados a excursões e a viagens de férias,
apresentaria uma outra proposta; ousada, confesso.
Para contemplar esta santa página, sugeriria duas visitas,
a fim de encher os olhos de luz e as bocas de espanto.
Primeiro, iríamos até Paris, com a ajuda da Adelaide Neiva,
para nos deliciaremos na Sainte-Chapelle.
― Porquê?, perguntareis.
Porque, na capela alta ― toda ela é um imenso vitral ―,
a rosácea, com o Apocalipse, fulgura quem nela se demora.
Sim, o livro do Apocalipse transborda para os olhares iluminadas visões
na semelhança de uma perfumada rosa em chamas crepitantes.
O outro local a visitar, para nos alegrar na solenidade deste dia,
é a cripta de San Magno na catedral de Anagni, a 70 km de Roma.
Nesta cripta, conhecida como a Capela Sistina da Idade Média,
é possível contemplar todas as paredes cobertas de frescos.
E, entre outros motivos bíblicos e também das ciências,
resplandece a página que ouvimos do Apocalipse.
Digamos que, ao vê-la, os nossos olhos se afrescariam nessa
«multidão imensa, que ninguém podia contar» (Ap 7,9),
com todos os detalhes narrados por S. João na sua visão:
8. Não podendo fazer hoje estas excursões,
a não ser através de imagens que a internet proporciona,
podemos fixar o nosso olhar, por exemplo,
em tantas metáforas vivas que nos enchem de luz o olhar,
nos corpos que, nesta estação de outono, se vestem de luz até às nervuras.
Porque a luz é ainda a melhor metáfora de Deus invisível,
cantemos-lhe, na alegria que nos faz estremecer,
ao menos uma estrofe da Oração à Luz,
segundo as palavras ditadas por Guerra Junqueiro:
«Luz que nos dás o pão, ó luz amada!
Luz que nos dás o sangue, ó luz dourada!
Luz que nos dás o olhar, luz encantada!
Bendita sejas, luz, bendita sejas!».
Quem desejar, pode ouvir uma outra sequência,
disponível no Youtube, ou fruir todo o poema num CD,
com a troante voz de Miguel Maduro-Dias
e música de Alfredo Teixeira
interpretada no piano por Joana Moreira:
9. «Caríssimos, agora somos filhos de Deus
e ainda não se manifestou o que havemos de ser.
Mas sabemos que, na altura em que se manifestar,
Seremos semelhantes a Deus,
porque O veremos tal como Ele é» (1 Jo 3,2).
Segundo S. João, Deus que é Luz da Luz, Luz incriada,
ama-nos, dando-nos à luz da história e da vida eterna,
dando-nos o pão, o sangue e o olhar.
Persuadidos pela visão narrada nas palavras de S. João,
habite-nos esta fonte de futuro:
«Todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo,
para ser puro, como Ele é puro» (1 Jo 3,3).

[Corpos que, nesta estação de outono, se vestem de luz até às nervuras © fotografia: Joaquim Félix]
10. Iluminemo-nos com esta palavra
que nos coloca a marulhar na corrente e não como água estagnada.
Purifiquemo-nos através da esperança,
e não por meio do medo, do pessimismo ou da resignação.
Jesus também vê multidões, no caso, carentes de esperança.
Eis porque, subindo ao monte, como o Novo Moisés,
nos ensina a iluminar a vida presente com um futuro repleto de frutos.
Sejamos, pois, puros de coração, construtores da paz e misericordiosos,
pobres de espírito e humildes,
porque até nas nossas lágrimas correrão rios de alegria.
Para todos os esperançados, a síntese de Jesus é e será sempre esta:
«Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa» (Mt 5,12).
11. Esta é a geração dos que procuram o Senhor,
que procuram a Sua face luminosa
na realidade dos dias e na bem-aventurança (cf. Sl 24,6).
Subimos à montanha do Senhor, entramos no templo da vida,
na forma como nos deixamos abraçar pela sua luz encantada.
E porque nos sentimos abençoados, num amor admirável,
só podemos continuar a cantar,
juntamente com as multidões terrestres e celestiais,
as misericórdias de Deus que, com admirável amor,
nos chama ― e, de verdade, somos ― seus filhos (cf. 1 Jo 3,3):
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de sexta-feira, 1 de novembro, solenidade de Todos os Santos, proferida na comunidade paroquial de Fragoso, Barcelos.










