
Lugares vazios à mesa ou mesas vazias: “Seria tudo mais fácil se estarmos presentes já fosse, de verdade, o melhor presente.”
As ruas estão preenchidas com luzes e decorações. Através de janelas de algumas casas vemos as árvores de natal. Na televisão, passam a cada hora dezenas de anúncios que tentam convencer-nos de várias inutilidades que devemos querer para nós ou para oferecer a alguém. Vemos anúncios com famílias felizes, à volta da mesa. Mesas cheias de comida. Pessoas que chegam com sacos, sorrisos. É esta a expectativa estabelecida. Familiares que chegam a casa com sacos nas mãos e comida e que se sentam à mesa para comerem numa mesa farta. Mas alguém tem de o dizer: isto é publicidade enganosa.
Em muitas mesas, não haverá, nem houve, sequer um terço daquela comida. Ou para cumprir com o “quem trouxe, quem trouxe” ou outros slogans da época comercial, foi preciso deixar muito dinheiro no supermercado. Não pensamos nas elevadas expectativas que são criadas pela sociedade e na frustração de quem vê estes anúncios e sabe que não conseguirá estar à altura desse “ideal”. E quando faltam pessoas à mesa e não apetece que seja Natal? O Natal acontece para se celebrar a Vida e em algumas famílias a tradição de se juntarem na noite ou ao almoço vai-se mantendo. Mas noutras, isso já não é possível e falta espaço para essa memória feliz.
Foi isto mesmo que vi e senti em muitas mulheres que vivem numa freguesia do concelho de Sintra, em prédios de mais de vinte andares junto ao IC19, onde vivem pessoas e famílias que alimentam a cidade de Lisboa com o seu trabalho humilde e essencial que não as tira da pobreza. São de regularidade semanal as sessões de um projeto em que estou envolvida, o SenteMente – práticas artísticas para o bem-estar e saúde mental em mulheres. Através do teatro, música e outras atividades, várias mulheres partilham as suas histórias. Há alguns dias partilharam que estavam tristes e mais deprimidas por se estar a aproximar o Natal. Perante o aparente contrassenso de que Natal e tristeza não rimam, aquela sessão transformou-se necessariamente de maior conversa. Falou-se da saudade e de como é ter um ou mais lugares vazios à mesa. Dizia a Dona H. que não faz árvore de natal e que ficará em casa sozinha e que ninguém a poderá convencer do contrário.
É necessário partilharmos e assumirmos que este pode ser também um período triste para quem teve perdas profundas. Nem todas as mesas estão cheias, nem todas as famílias completas.
Em outros casos, em que as famílias se juntam na expectativa de uma noite feliz, mantém-se a pressão, o esforço da mesa completa, “para que não falte nada”, com muitos sacrifícios financeiros. Seria tudo mais fácil se estarmos presentes já fosse, de verdade, o melhor presente. Se o consumismo não se sobrepusesse a um abraço.
Mais, numa época em que as alterações climáticas são uma realidade cada vez mais incontornável, talvez não precisemos das coisas que nos tentam convencer que precisamos.
Pensemos no aqui e agora, e no real motivo de estarmos a celebrar o Natal, como o nascimento de alguém que defendia sobretudo o amor pelo outro, a humildade, a dignidade humana. Pensemos no que podemos fazer melhor e em quem nos deixou o melhor.
Às pessoas com lugares vazios à mesa, às pessoas com dificuldade em terem uma refeição completa, às pessoas que sofrem com a pressão da sociedade e com a publicidade enganosa que veem na televisão, às pessoas sem casa, às pessoas deslocadas dos seus países, às pessoas em situação frágil de saúde, o meu abraço.
Estejamos conscientes e Presentes, aqui e agora, que o Natal é mesmo aquilo que quisermos fazer dele.
Susana C. Gaspar é professora, gestora de projetos e artista de teatro, cruzando frequentemente as suas práticas artísticas com os direitos humanos.









