Editorial 7M

Que faremos deste texto?

| 30 Ago 2022

relatorio de portugal sinodo

“Nunca antes uma reflexão tão participada e sobre tantos aspetos relevantes da vida da Igreja e da sua relação com o mundo havia sido produzida e publicada em Portugal.” Foto: Direitos reservados.

 

O Relatório de Portugal para o Sínodo 2021/2023, elaborado pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) é um documento corajoso. Poucas instituições de importância significativa terão alguma vez, em Portugal, trazido a público uma imagem tão crítica, realçando tantos aspetos negativos de si próprias. Revela particular coragem ao nomear os seus agentes mais visíveis (bispos, padres e leigos “clericalizados”) como os principais responsáveis pela situação. Coragem para não se perder em referências a causas externas para explicar as dificuldades em que se encontra. Coragem por ter escolhido dar voz aos que anseiam pela renovação, mais do que àqueles para quem tudo o que está, está bem.

É também um texto inédito: nunca antes uma reflexão tão participada e sobre tantos aspetos relevantes da vida da Igreja e da sua relação com o mundo havia sido produzida e publicada em Portugal.

Análise crítica, coragem e novidade que traduzem confiança na capacidade das comunidades cristãs em “fazer florescer a esperança (…), ouvir uns dos outros e criar um imaginário positivo que ilumine as mentes, aqueça os corações e restitua força às mãos” e de nesse caminho serem assistidas pelo Espírito Santo.

 

A secularização levada a sério

Publicado num contexto em que muitas vozes católicas faziam ressoar uma espécie de “toque a reunir” para salvar a Igreja dos ataques dos seus inimigos sempre prontos a usarem factos poucos esclarecidos para contra ela lançarem anátemas definitivos, o contributo sinodal da CEP ganha ainda maior relevância. Nele supera-se uma visão da Igreja enquanto sociedade perfeita gerida por príncipes escolhidos por Deus que nenhuma prestação de contas devem aos crentes, aos cidadãos ou à sociedade, para se propor uma Igreja como uma instituição diferente de qualquer outra, mas, como todas as outras, sujeita não apenas ao princípio da prestação de contas, mas comprometida a responder a todas as questões que cidadãos, sociedade e Estado lhe coloquem.

Ainda que revelador de imenso sofrimento, o processo de investigação e identificação dos abusos sexuais contra menores ocorridos em contexto eclesial permitiu não só consolidar uma nova consciência sobre esta tenebrosa questão sistémica, sobre os conceitos e práticas de poder e autoridade clerical que lhe subjazem, mas também tomar consciência de que a Igreja tem de ser uma instituição transparente e escrutinada por todos. Não apenas, ou sobretudo, porque as leis do Estado democrático assim o impõem, mas mais do que isso e acima de tudo, porque nós, católicos, assim o desejamos por o termos aprendido de Jesus.

Nesta linha, o documento da CEP exprime (mesmo que não seja essa a sua intenção primordial) a constatação de que a sociedade secularizada precisa cada vez menos da Igreja identitária, embora sejam em cada vez maior número os cidadãos e as cidadãs à procura de um verdadeiro encontro com Jesus Cristo. Encontro que só comunidades fraternas, alegres, adultas, democráticas e confiantes no amor misericordioso de Deus podem facilitar.

Pela primeira vez, um texto dos bispos portugueses reconhece (sem o explicitar, é certo) que as funções tradicionais do clero (administrar sacramentos, gerir instituições educativas, sociais, caritativas e outras, pregar a moral e presidir às celebrações festivas) perderam importância e significado numa sociedade secularizada que, ao invés, revaloriza o testemunho de fé individual e comunitário. Esses de que o documento releva o enorme défice.

 

E agora?

Cada leitor encontrará lacunas neste contributo dos bispos portugueses para o Sínodo 2021/2023.  A começar pela ausência do compromisso na construção da paz e da justiça (Fratelli Tutti) e a acabar na falta de referências às questões do mundo do trabalho (ambas presentes em várias sínteses diocesanas). Mas este não é, nem podia ser, um texto suficiente, capaz de tudo abranger. Mas é, certamente, um documento singular que merece ser transformado em referência inaugural.

Referência para um caminho de renovação que não se obstine em aperfeiçoar o diagnóstico, mas antes em escolher prioridades, construir uma agenda, definir objetivos quantificados, prazos e calendários, produzir materiais que suportem a reflexão, a renovação do pensamento e das práticas que respondam aos pontos críticos detetados.

Nestas decisões tem especial importância a definição de etapas (e o modo de o fazer) para acolher os resultados da “vontade de uma caminhada em conjunto de forma regular e sistemática, através da criação de grupos formais e informais de diálogo dentro da Igreja e desta com o mundo, em especial as periferias”.

Entramos agora num tempo de expectativa, embora os responsáveis pelo Sínodo dos Bispos tenham convidado todas as Igrejas locais a incentivarem as suas comunidades a refletirem e agirem a partir do instrumentum laboris que o Vaticano divulgará em outubro, como síntese das mais de 100 contribuições nacionais recebidas [ver 7MARGENS].

Este é, por isso, um tempo de expectativa ativa, de participação e construção, de contribuição para que os resultados finais do Sínodo de 2023 sejam marcados pelo arrojo e pela novidade que são a marca do Espírito. Espírito que sempre, e agora de forma mais urgente,  nos chama a renovarmos o modo de ser comunidade para podermos acolher “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo [as] dos pobres e de todos aqueles que sofrem” como sendo nossas.

 

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