Progressivamente, e sobretudo com o desenvolvimento do comércio eletrónico, aquela que era uma “tradição” norte-americana extravasou fronteiras e tornou-se popular em inúmeros países. Portugal não foi exceção. Foto © Pixelshot
Não sei se é de ter chegado aos 40, mas há alturas em que me sinto velha. “Oh, filha… agora velha! Velhos são os trapos!”, diria a minha avó Fátima.
Pronto, talvez “velha” não seja a palavra certa. Sinto que.. não sou deste tempo. Sim, acho que é mais isso.
Mas adiante: esta é uma dessas alturas. “E porquê?”, perguntam vocês. Porque está aí a Black Friday. “A blec quê?”, perguntaria agora a minha avó. Pois, avó, eu – não vai assim há tantos anos – também não sabia o que isso era.
A Black Friday – expressão que, traduzida para português, significa Sexta-feira Negra – surgiu nos Estados Unidos da América e corresponde ao dia após o feriado de Ação de Graças (o qual, por sua vez, se assinala naquele país na quinta-feira da quarta semana de novembro).
A expressão surgiu pela primeira vez para designar o “crash” da bolsa de Wall Street em 1869, que aconteceu precisamente nessa sexta-feira, e que levou inúmeras empresas à falência. Um século depois, já nos anos 60, essa mesma expressão foi utilizada pela Polícia de Filadélfia para se referir ao caos que se instalava no trânsito devido ao cada vez mais elevado número de pessoas que faziam “ponte” a seguir ao feriado de Ação de Graças e aproveitavam para iniciar as suas compras de Natal. Entretanto, surgiu outra justificação – já com uma conotação positiva – para que a sexta–feira após o feriado de Ação de Graças continuasse a chamar-se assim “negra”: tratava-se do dia em que os comerciantes, por começarem a vender mais, conseguiam finalmente “tirar as contas do vermelho” e passavam a usar tinta preta para registar os seus lucros. A explicação é do linguista norte-americano Ben Zimmer, segundo o qual houve ainda quem tentasse mudar o nome para um mais simpático Big Friday (Grande Sexta-feira), claramente sem sucesso.
Inicialmente circunscrito à zona de Filadélfia, o termo generalizou-se, nos EUA, a partir de meados dos anos 90. As marcas esforçavam-se cada vez mais por atrair os consumidores nesse dia, com promoções e descontos exclusivos. Muitas lojas abriam mais cedo, e alguns clientes passaram a acampar à sua porta para garantir que conseguiam aproveitá-los.
Progressivamente, e sobretudo com o desenvolvimento do comércio eletrónico, aquela que era uma “tradição” norte-americana extravasou fronteiras e tornou-se popular em inúmeros países. Portugal não foi exceção. Aqui, chegou a partir dos anos 2010, primeiro de forma tímida, mas agora… Bem, acabo de fazer uma pesquisa rápida na minha caixa de correio eletrónico e percebo que, este ano, recebi o primeiro e-mail a divulgar promoções da Black Friday no dia 9 de outubro. Isso mesmo: há mais de um mês. Esse e-mail incentivava-me a fazer um pré-registo numa qualquer plataforma, e explicava que só assim eu poderia vir a beneficiar de “um descontaço de até 100%” (estou mesmo a citar) durante a Black Friday (ou seja, no dia 23 de novembro). Por mais tentador que pudesse parecer, resisti.
Ao longo do último mês, o assédio intensificou-se. Na caixa de correio eletrónica ou na de metal que está à porta de casa, nos pop ups que me saltavam aos olhos em cada site, nos mupis das paragens de autocarro, nas vitrines, nos anúncios por toda a parte, as mais variadas lojas (de perfumes, brinquedos, roupa, livros, tecnologia, companhias aéreas… e até a farmácia do meu bairro!) tentaram aliciar-me a fazer compras durante a Black Friday (e nas suas variantes Black Week e Black Month). Tudo me dizia que era URGENTE (assim, mesmo, em letras garrafais) aproveitar estes “descontos imperdíveis” para adquirir aquilo de que “preciso” e – cereja no topo do bolo! – despachar já os presentes de Natal “aos melhores preços”.
Sim, porque já é Natal… Certo? Assim que passou o Halloween (essa outra tradição “tão nossa”), foi ver as lojas a substituírem as abóboras e esqueletos que decoravam as montras por flocos de neve, embrulhos coloridos, pais natais e luzes a piscar. Por isso, não fiquei propriamente surpreendida quando, na semana passada, o meu filho mais novo – de cinco anos – insistiu para montarmos a árvore e decorarmos a casa… Todos os amigos já o tinham feito menos ele, assegurava.
“Oh filha, o Natal é quando um homem quiser!”, diria em relação a isto a minha avó, sempre pronta a ver tudo pelo lado positivo, e lembrando o belíssimo poema de Ary dos Santos.
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
E sim, talvez o facto de o Natal começar cada vez mais cedo até pudesse ser uma coisa boa. Mas não este Natal, avó. Não um Natal que, para ser devidamente celebrado, implica que gastemos mais, mais, e ainda um pouco mais, e cada vez mais cedo, porque nunca temos o suficiente (e porque, se aproveitarmos os descontos, ha de sobrar… para podermos gastar mais).
Já no início do século XX, o filósofo e sociólogo judeu alemão Walter Benjamin dizia que o capitalismo é como uma religião: consumimos para acalmar “as mesmas ansiedades, tormentos e perturbações às quais as chamadas religiões ofereciam respostas”. Se ele soubesse naquilo em que a Black Friday se transformaria, certamente que lhe atribuiria honras de “dia santo”.
Quanto aos descontos, diz-nos o investigador Luigino Bruni no seu livro O Capitalismo e o Sagrado (2019), passaram a ser “o elemento essencial do culto”. Nesta religião do consumo, em vez de ser o fiel que oferece dons ao seu deus, é a empresa a oferecer “dons” aos seus fiéis. “De facto, na religião do consumo a divindade é o consumidor, que as empresas procuram fidelizar (outra palavra religiosa) com o seu sacrifício-desconto. Dom sem gratuidade – portanto, não religião, mas idolatria”, escreve o coordenador da iniciativa A Economia de Francisco .
Volto ao ponto de partida. Não sei se é por estar velha, ou por não ser deste tempo, mas dispenso o pedestal e “sacrificar” a carteira não me traz qualquer consolo. E, no meio de todo este frenesim ansiogénico e consumista que já se arrasta desde outubro, lembro o meu Natal de antigamente: um dos pontos altos era descobrir, peça a peça, o enorme presépio que a minha avó começava a fazer no início de dezembro, para só iluminar ao dia 8 (data em que a Igreja Católica assinala a Imaculada Conceição da Virgem Maria). A pequena manjedoura estava preparada para receber o menino Jesus, mas ele só lá era posto na noite de 24. E que bom que era contar, devagarinho, os dias para a sua chegada.
Por isso, olhem: chamem-me antiquada, mas só farei a árvore e começarei a montar o presépio no primeiro domingo do Advento. E, nesta Black Friday, recuso-me a comprar seja o que for.










