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Comunidade de Santo Egídio formalizou acordo de colaboração global com o Governo português, sublinhando a importância de promover a diplomacia, no contexto internacional. Foto © Ministério dos Negócios Estrangeiros. Paulo Rangel Andrea Riccardi
Comunidade de Santo Egídio formalizou acordo de colaboração global com o Governo português, sublinhando a importância de promover a diplomacia, no contexto internacional. Foto © Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Comunidade de Santo Egídio

Reabilitar a diplomacia, perante o “paradigma da guerra”

 

É necessário reabilitar a diplomacia, perante o atual “paradigma da guerra”, que relegou para um papel menor o “paradigma da paz”, apontou a Comunidade de Santo Egídio.

Esta Comunidade formalizou na sexta-feira passada um acordo de colaboração global com o Governo português, sublinhando a importância de promover a diplomacia, no contexto internacional.

“O paradigma atual é o paradigma da guerra, e o paradigma da paz já não está no centro como estava nos anos do pós-guerra”, disse o fundador da comunidade católica, Andrea Riccardi, em declarações à agência Ecclesia e Rádio Renascença. O responsável explicou que a instituição atua como um sujeito internacional e mantém meia centena de protocolos estatais para garantir que “uma comunidade cristã deve favorecer o diálogo”.

A parceria com o Estado português consolida uma relação iniciada nos anos 1980 durante as negociações de paz para Moçambique, assumindo agora uma relevância estratégica perante o próximo mandato de Portugal no Conselho de Segurança da ONU.

O entrevistado lamentou a proliferação de conflitos na Ucrânia, na Palestina e em Israel, no Sudão, Birmânia e no estado congolês de Kivu, advertindo perante as atuais tensões globais que “a guerra parece ser um método a que se recorre”.

Riccardi rejeitou a ideia de que a mediação representa um sinal de fraqueza no panorama geopolítico, defendendo de forma perentória que “a diplomacia é uma arte nobre, uma invenção antiga da civilização, uma invenção que não deve ser desprezada”.

A análise incidiu também sobre a crise em Moçambique, com o responsável a alertar para o efeito desestabilizador da “guerrilha jihadista” e a questionar publicamente “que função tem essa guerrilha, a quem aproveita”. A resposta social no terreno africano inclui o programa sanitário DREAM, com a instituição a travar as consequências da pressão demográfica e a sublinhar que “nasceram em Moçambique 100 mil crianças saudáveis de mães tratadas”.

O fundador da Comunidade de Santo Egídio assumiu que Moçambique é um “país central” para a instituição e pediu “uma presença solidária e de cooperação, a todos os níveis”.

Questionado sobre o assassinato de D. Osório Citora Afonso, bispo de Quelimane, morto a tiro no dia 6 de junho, Andrea Riccardi convidou a “refletir sobre o recurso à violência, em Moçambique, que infelizmente contagiou também os ambientes da Igreja”. “Tenho confiança no futuro deste país, confio que Moçambique vai ter um futuro melhor”, concluiu.

Valores comuns”, diz Governo

Andrea Riccardi e Paulo Rangel, na conferência de imprensa, depois da assinatura de protocolo entre a Comunidade de Santo Egídio e o Estado português. Foto © Agência Ecclesia.

Andrea Riccardi e Paulo Rangel, na conferência de imprensa, depois da assinatura de protocolo entre a Comunidade de Santo Egídio e o Estado português. Foto © Agência Ecclesia.

“Podemos ser parceiros e, sendo entidades muito diferenciadas, partilhamos valores. Temos valores comuns e isso permite que, no terreno, possamos ter uma grande convergência e maximizar o papel muito positivo de ambos”, disse Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, em conferência de imprensa, após a assinatura do documento, citado pela agência Ecclesia.

O membro do Governo apontou, em particular, ao mandato de Portugal como membro não permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, a partir de janeiro de 2027

“Esta cooperação visa não só fazermos a diferença nos sítios onde estamos, mas também podermos criar um conhecimento que permita que os processos de paz, de estabilização, de consolidação da democracia, de respeito aos direitos humanos, possam ser verdadeiramente melhorados”, precisou.

O ministro português destacou a “longa tradição” de colaboração com a Comunidade de Santo Egídio, em particular no processo que levou à assinatura do Acordo Geral de Paz em Roma, a 4 de outubro de 1992, pondo fim à guerra civil em Moçambique.

Paulo Rangel destacou a ação humanitária da instituição católica, com presença em países como Guiné-Bissau e Timor-Leste, bem como em cenários de conflito no continente africano.

“Tendo nós uma vocação de relação muito forte com a África, na nossa política externa, e também com uma presença conhecida pela defesa dos Direitos Humanos e das organizações internacionais, das organizações do desenvolvimento, da cooperação e da assistência humanitária”, sublinhou o membro do Governo, “é algo muito importante ter um acordo assinado com a comunidade de Santo Egídio”.

"É algo muito importante ter um acordo assinado com a comunidade de Santo Egídio", afirmou o ministro Paulo Rangel. Foto © Agência Ecclesia.

“É algo muito importante ter um acordo assinado com a comunidade de Santo Egídio”, afirmou o ministro Paulo Rangel. Foto © Agência Ecclesia.

O documento dá enquadramento oficial a “contactos regulares, de troca de informação, e de convergência na ação”, entre as duas partes, algo que acontecia, até agora, de modo espontâneo.

O responsável do MNE referiu que, para Portugal, é importante uma parceria que permite “conhecimento do terreno, dos atores e, em particular, das necessidades nos vários palcos de conflito”, falando num acordo de “alcance global”.

A ideia foi partilhada pelo fundador de Santo Egídio, Andrea Riccardi, realçando que a comunidade acompanha situações “fortemente problemáticas”, como a Ucrânia, onde distribuiu 30 milhões de euros em ajudas, e Cuba. “O espírito com que trabalhamos é o de não isolar ninguém e manter de pé todas as pontes e caminhos de diálogo”, sustentou.

O responsável elogiou as “relações históricas” com Portugal e a “visão africana” da política nacional, que considerou mais completa do que outros países europeus. “Não tem uma visão hegemónica, mas uma visão que se abre à colaboração com todos”, justificou.

A Comunidade de Santo Egídio foi fundada em 1968, na cidade de Roma, e está presente em 70 países, incluindo Portugal. Segundo a instituição católica, “a oração, os pobres e a paz são os alicerces da vida destes leigos e leigas, unidos por um laço de fraternidade e empenhados no serviço voluntário e gratuito aos mais vulneráveis”.

O calendário da organização inclui o tradicional encontro interreligioso em Assis, assinalando os 40 anos da iniciativa de João Paulo II, num evento com a presença do Papa Leão que servirá para refletir sobre “o papel que as religiões podem ter na promoção da paz”.

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