[O flagelo que não acaba – XII]

Rupnik, o protegido

| 30 Set 2023

Abusos. Catarina Soares Barbosa

“Se prosseguimos calados, contribuímos para continuar a ferir as vítimas na sua dor e solidão. Mesmo de forma egoísta, deveríamos começar a perguntar, a falar, a averiguar porque, face ao que vimos e ao que resta ver, ninguém está livre de ser vítima de qualquer tipo de abuso na Igreja.” Ilustração © Catarina Soares Barbosa

 

Acabámos de assistir em directo ao espectáculo nauseabundo de ver como se revitimizam as vítimas, todas as vítimas de abusos na Igreja. Ser vítima na Igreja é já por si um drama que acarreta consequências para toda a vida e que, pelo que vemos, parece que não importa quase a ninguém.

O comunicado de imprensa, como o emitido pelo Vicariato de Roma, é uma autêntica filigrana para dizer algo que evidencie a posição de quem o emite e que, na sua “perfeita?” redação, faz com que as margens do texto fiquem pejadas de pessoas já muito feridas, que continuam a ser insultadas com desprezo, com indiferença e, sobretudo, com a dúvida permanente sobre aquilo que denunciam desde a mais absoluta invisibilidade.

 

Comunidade saudável?

Marko Rupnik, expulso da Companhia de Jesus, o agressor e abusador que, não esqueçamos, um ano depois de ser ordenado pediu para ser capelão da comunidade de freiras a quem depois sujeitou a todo o tipo de abusos e que não foram as únicas, criou o chamado Centro Aletti que geria a sua obra e negócio – que era tudo o mesmo – junto a uma pequena comunidade que, segundo a inspeção e segundo o comunicado de imprensa do Vicariato, mostra que “há uma vida comunitária saudável sem problemas críticos específicos.”

Seria desejável que no mesmo comunicado se explicasse o que se entende por “vida comunitária saudável”, conhecendo, como já se conhece, a capacidade de manipulação de Rupnik. Porque não estamos a falar de alguém que se move por um impulso sexual incontrolável, estamos a falar de alguém que manipula, distorce a vontade e a consciência de suas vítimas e delineia cada um de seus atos de abuso milimetricamente.

 

Livres do influxo

Pergunto-me até que ponto podemos pensar que as pessoas dessa comunidade não estão manipuladas, ou pelo menos subjugadas, pela personalidade camaleónica de Rupnik, a quem puderam endeusar e submeter-se a ele, sem terem consciência de que foram e estão a ser dirigidos por ele? A inspeção teve isso em conta? Mais ainda, atrevo-me a perguntar: até que ponto aqueles que levaram a cabo a inspecção estavam livres do influxo de Rupnik? Não é um exagero. A capacidade de manipulação dos agressores e abusadores é imensa. São mestres nisso.

Muitas dúvidas foram levantadas com esta inspeção e por este comunicado de imprensa com a transparência tantas vezes alardeada pela Igreja porque, para além de ocultar e ignorar as vítimas, para além de varrer para debaixo do tapete as acções delituosas – estamos perante delitos, não o esqueçamos – de Rupnik, para além da forma em como deixa a Companhia de Jesus – que lhe custou, mas fez o que tinha que fazer -, para além de tudo isto, parece que a palavra de um cardeal com pensamento e atitudes de um príncipe rançoso da Igreja do Renascimento, tem o poder suficiente para mudar a realidade, modificar os factos, reescrever a história e continuar a abusar do seu poder abandonando e insultando as vítimas com o seu desprezo. O maldito poder na Igreja! Quem controla o poder desse cardeal?

 

Um predador

Rupnik é um abusador de consciências, um predador, um agressor sexual e, agora, por obra e graça de um cardeal com nome angélico, transformou-se em protegido. Rupnik pode fazer o que quiser em Roma, está impune. Que vítima se atreverá a abrir a boca contra ele? Ele é o protegido, o pupilo, o predileto, o mimado, o valido de um cardeal.

Tenho vindo a dizer, desde há muito tempo, que o que nos vai arrasar não será o secularismo, nem a indiferença religiosa, nem os ataques externos. Aquilo que nos vai arrasar é a má gestão da realidade de todo o tipo de abusos na Igreja; o que nos vai arrasar é a falta de credibilidade que demonstramos reiteradamente face a esta realidade dos abusos; o que nos vai arrasar é a falta de testemunho que damos em favor das vítimas; o que nos vai arrasar é a ambiguidade do direito canónico em relação a estas vítimas; o nos vai arrasar é o mutismo que nos torna cúmplices; o nos vai arrasar é o silêncio de alguns pastores que bramam sobre outras questões, mas que fazem comentários sobre estes factos que nos ocupam – se é que os fazem – em voz baixa, e sacudindo a água do capote.

 

Altíssimas expressões teológicas

Já não estamos para tibiezas, mais ainda, acho que chegamos tarde. No entanto, não é para desistir. Temos que perder o medo de refletir em voz alta, de fazer perguntas em voz alta que reflitam o estupor em que nos encontramos perante situações como a atual, porque isso, embora alguns digam que não, também é comunhão.

Porque ficamos com água na boca quando falamos de comunhão com altíssimas expressões teológicas, mas a comunhão de cada dia, a que mostra ao mundo que somos membros do Corpo Místico de Cristo, essa, deixamo-la de lado como se não existisse e, os membros mais feridos desse Corpo, que, não esqueçamos, foi a vítima por excelência, ficam abandonados à sua sorte. Outro comentário seria analisar a razão pela qual nas esferas eclesiásticas, se confunde com tanta facilidade o corporativismo com a comunhão. Não tem nada que se pareça.

Se prosseguimos calados, contribuímos para continuar a ferir as vítimas na sua dor e solidão. Mesmo de forma egoísta, deveríamos começar a perguntar, a falar, a averiguar porque, face ao que vimos e ao que resta ver, ninguém está livre de ser vítima de qualquer tipo de abuso na Igreja. Mais ainda, de alguma forma com este penúltimo escândalo – porque o último está sempre por vir – todos nós já nos tornámos vítimas porque, caso houvesse alguma dúvida e a partir deste momento, de que serve denunciar na Igreja se qualquer abusador e agressor se pode tornar no protegido, o pupilo, o predileto, o mimado, o valido de um cardeal?

 

Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo da Igreja Católica. Tradução de Júlio Martin.

 

Impotência ou inércia?

Impotência ou inércia? novidade

No último à Margem, Jorge Wemans brindou-nos com um excelente texto que eu senti como um grito de revolta face à “normalização do intolerável” e, simultaneamente, como um grito de desespero por não se saber qual o caminho para a construção de um futuro alternativo perante um presente demasiado sombrio. Neste texto, em diálogo com o que o Jorge escreveu, tento refletir sobre qual o caminho ou caminhos a percorrer rumo a um futuro que desconhecemos, mas que confiamos seja melhor.

Felizes o que choram… de alegria: Cristianismo e humor

Felizes o que choram… de alegria: Cristianismo e humor novidade

Esta sexta-feira, 14 de junho, o Papa Francisco encontra-se com os humoristas, entre os quais estarão os nossos bem conhecidos, Maria Rueff, Joana Marques e Ricardo Araújo Pereira. Cremos que é a primeira vez que um Papa convoca os que fazem do riso o seu ganha-pão e nutrem a nossa boa disposição. Também não é sem significado que este encontro decorra logo no dia a seguir à festa de Santo António, o santo com quem se pode brincar sem receio de represálias vindas do alto. [Texto de Isidro Lamelas, OFM]

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Vai nascer uma “Aldeia da Esperança” nos Açores, inspirada em Taizé

Proposta pelo Conselho Pastoral Diocesano

Vai nascer uma “Aldeia da Esperança” nos Açores, inspirada em Taizé novidade

“Organizar uma `Aldeia da Esperança´, dirigida aos jovens, em formato de acampamento, seguindo o modelo de Taizé, a decorrer no verão, de preferência na ilha de São Jorge, no Santuário do Senhor Santo Cristo da Caldeira”: esta é uma das várias propostas feitas pelo Conselho Pastoral Diocesano de Angra – reunido em Ponta Delgada entre os dias 8 e 10 de junho – que irá passar do papel à prática.

Lembrar Aristides de Sousa Mendes, “seguir a voz da consciência” e também hoje “salvar vidas”

Comissão Justiça e Paz de Braga

Lembrar Aristides de Sousa Mendes, “seguir a voz da consciência” e também hoje “salvar vidas” novidade

A Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga associa-se à comemoração do Dia da Consciência – que se celebra anualmente a 17 de junho em homenagem a Aristides de Sousa Mendes – através de uma mensagem que assinala a importância de, tal como fez o cônsul de Portugal em Bordéus no século passado, “seguir a voz da consciência” e assim contribuir, no tempo presente, para “salvar vidas”.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This