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[nos gazes misturados/ a dureza faz-se luz―/ oh ferreiros místicos! © haiku e fotografia: Joaquim Félix]

[Metáforas vivas]

Sair pelo mundo juntos

| 19/10/2025

 

1. A Igreja celebra hoje a festa de S. Lucas,
a quem a Tradição eclesial reconhece a autoria
de um Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo
e do Livro dos Atos dos Apóstolos.
No Evangelho, S. Lucas concede particular relevância
à misericórdia e aos pobres,
e manifesta grande sensibilidade em relação à evangelização dos gentios
― talvez porque, nascido em Antioquia da Síria, ele não fosse judeu.
E, entre outros traços dignos de atenção,
narra a infância de Jesus com entranhada ternura
e beneficia de uma proximidade especial com Maria.

[S. Lucas narra a infância de Jesus com entranhada ternura. © Fotografia (Palazzo Ducale di Urbino): Joaquim Félix]

[S. Lucas narra a infância de Jesus com entranhada ternura. © Fotografia (Palazzo Ducale di Urbino): Joaquim Félix]

 

2. Em vez de fazer uma síntese da sua biografia e obras,
detenhamo-nos em certos aspetos ― creio que pertinentes ―
para enraizar neles prioridades para a Igreja em nossos dias.
Assim como, então, ele narrou com grande fidelidade e desvelo
as primeiras realizações da Igreja nascente,
assim hoje, volvidos dois mil anos,
também nós carecemos da narração dos nossos Atos eclesiais
suscitados pela fé em Jesus de Nazaré, o Cristo.
É urgente que a narração da nossa fé de discípulos
seja feita mais com Atos que com palavras.
De palavras, por melhores que sejam, estamos saturados;
o seu excesso causa, entre outras doenças, a «surdez pastoral».
Realizadas no domingo passado as eleições autárquicas,
esperamos que as promessas dos políticos se cumpram.
Também nós, na condição de eleitos por Deus,
nos esforçaremos para que as promessas de Jesus se tornem Atos
em nós e naqueles a quem somos enviados.

[Carecemos da narração dos nossos Atos eclesiais. © Fotografia (Rua de Urbino): Joaquim Félix]

[Carecemos da narração dos nossos Atos eclesiais. © Fotografia (Rua de Urbino): Joaquim Félix]

 

3. Porquanto discípulos amados de Jesus,
ansiamos, com desejo de forja, pela tradução do Evangelho
nas linguagens vernaculares das Igrejas no mundo.
Ou seja, que muitas das palavras
que ecoaram no contexto das assembleias sinodais
e, inclusive, surgem nas sessões do Renovar 2025,
― a decorrer, desde ontem até amanhã, em Guimarães ―
se vertam em Atos, Atos, Atos, Atos…

Corresponsabilizados nos Atos e com as palavras que os esclarecem,
concretizaremos a nossa condição de apóstolos;
isto é, de «enviados», para cumprir a missão que Jesus nos confia:
a construção do mundo novo, mais pacífico e misericordioso.

4. Na passagem do Evangelho segundo S. Lucas,
ouvimos: «Designou setenta e dois discípulos
e enviou-os dois a dois à sua frente,
a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir» (Lc 10,1).
O mundo é, na simbólica do numeral, o destino dos discípulos.
Haveremos de reduzir o futuro e as metas das viagens de Jesus,
a sua mundividência, o seu amor pela inteireza do mundo?

[Duas discípulas de Jesus. © Fotografia: Joaquim Félix]

[Duas discípulas de Jesus. © Fotografia: Joaquim Félix]

Por nada lhe queremos obliterar um passo que seja.
Como é que Ele enviou os setenta e dois discípulos?
Nem mais, aos pares, dois a dois.
S. Gregório Magno, numa das suas homilias sobre os evangelhos,
refere-se a este detalhe com um comentário intemporal:
«Ele enviou os seus discípulos em pregação dois a dois,
porque são dois os mandamentos da caridade,
a saber, o amor de Deus e o amor do próximo.
O Senhor manda os seus discípulos em pregação dois a dois,|
para nos indicar isto sem palavras:
quem não tiver caridade para com os outros
de modo algum deve assumir o ofício da pregação»
(Hom. 17,1-3: PL 76, 1139).

[Amor pela inteireza do mundo. © Fotografia: Joaquim Félix]

[Amor pela inteireza do mundo. © Fotografia: Joaquim Félix]

 

5. O amor é um laço indissolúvel entre Deus e o próximo.
Se anunciarmos o Evangelho só com palavras,
faltando-nos os Atos da caridade,
podemos retumbar como os sinos da igreja de Santa Cruz,
mas não narraremos o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo
como testemunhas credíveis que Ele nos proporciona
na comunhão no mínimo dual, nunca porém isoladamente.
Ninguém é capaz de preparar sozinho os adventos de Jesus.
Eis porque o individualismo, afogado nos espelhos e aplausos,
é um tumor que mata a autenticidade da missão.

[O amor é um laço indissolúvel entre Deus e o próximo. © Fotografia: Joaquim Félix]

[O amor é um laço indissolúvel entre Deus e o próximo. © Fotografia: Joaquim Félix]

 

6. Para o evitar e combater, recordo-me sempre das dez teses
escritas, em modo de conclusão, por Gisbert Greshake,
na sua obra intitulada Ser sacerdote.
Permiti que leia apenas a terceira, a quinta e a sétima:
«3. É mais importante viver a unidade no presbitério
que entregar-se só à minha tarefa. (…)
5. É mais importante acompanhar espiritualmente os colaboradores
que fazer por si só todo o trabalho possível. (…)
7. É mais importante agir em unidade que agir na perfeição, mas isolado.
Portanto, é mais importante a colaboração que o trabalho,
a comunhão que a ação» (p. 239).

[Ícone de Maria, advogada (Hagiosoritissa) oferecido pelo cardeal Cesare Facchinetti, em 1674, à catedral de Spoleto, onde é venerado © Fotografia: Joaquim Félix]

[Ícone de Maria, advogada (Hagiosoritissa) oferecido pelo cardeal Cesare Facchinetti, em 1674, à catedral de Spoleto, onde é venerado © Fotografia: Joaquim Félix]

 

7. Colaborador inabalável nas circunstâncias mais difíceis,
como S. Paulo refere na Segunda Epístola a Timóteo
― «Só Lucas está comigo» (2Tim 4,11) ―,
S. Lucas era um narrador com profunda sensibilidade:
intuía que a excelência humana e a inabitação divina
residem nos detalhes.
Sim, quase nos faz pensar na frase de Ludwig Mies van der Rohe:
«Deus está nos detalhes».
Talvez por isso, surgiu uma tradição em Bizâncio,
por ocasião da controvérsia iconoclasta (séc. VIII),
que o apresenta como um dos primeiros iconógrafos.
E, por ter gozado da especial companhia da Virgem Maria,
foi-lhe atribuída a escritura de vários ícones dela e de Jesus.

[Deus está nos detalhes. © Fotografia: Joaquim Félix]

[Deus está nos detalhes. © Fotografia: Joaquim Félix]

 

8. Criado o contexto, gostaria de apresentar uma pintura,
não da autoria de S. Lucas, mas de Asbjørn Andresen,
artista norueguês, mas a viver na Suécia,
que daqui a seis dias completará 88 anos de idade.
A pintura tem por título «Atos dos Apóstolos».
Em julho do ano passado,
o Pe. Vítor ― capelão desta igreja―, eu e o Pe. Juvenal visitámo-lo,
a ele e à pintora Lisa Sigfridsson, na sua casa em Dingle.
Durante esses dias-de-luxo-lento-da-amizade,
entrámos por diversas vezes no seu atelier
perfumado pelas madeiras e iluminado como uma catedral.
Entre as muitas obras de arte,
chamou-nos a atenção a pintura «Atos dos Apóstolos».
Pela vivacidade das suas cores, sim,
mas sobretudo pela força simbólica que incarna, quase-sacramental.
Após vários diálogos ― de recorte crítico, mas em tons familiares ―,
acabámos por adquirir a pintura para o Seminário.

[Díptico «Atos dos Apóstolos», de Asbjørn Andresen, já instalado no refeitório do Seminário Conciliar. © Fotografia: Joaquim Félix]

[Díptico «Atos dos Apóstolos», de Asbjørn Andresen, já instalado no refeitório do Seminário Conciliar. © Fotografia: Joaquim Félix]

 

9. Ainda a pintura estava a caminho,
solicitei a Asbjørn que escrevesse meia página sobre ela.
Nesse texto breve, Asbjørn refere que, além da madeira,
trabalhou muito com ferro e pedras.
Duros, são dois materiais desafiantes,
mas «existem formas de os tornar um pouco mais moldáveis».
O ferro, por exemplo, com a mistura de oxigénio e acetileno.
Na pintura, podem ver-se, junto da porta aberta,
duas garrafas, uma com oxigénio e outra com acetileno.
Na outra parte do díptico, todo fulgurado por tons forjanenses,
é trabalhada sobre a bigorna uma peça de ferro,
com uma flama ao mesmo tempo precisa e forte,
alimentada através das mangueiras que saem das garrafas.
No texto, Asbjørn salienta que são duas as garrafas
e que «têm um tamanho quase humano».

[Duas garrafas, uma com oxigénio e outra com acetileno. © Fotografia: Joaquim Félix]

[Duas garrafas, uma com oxigénio e outra com acetileno. © Fotografia: Joaquim Félix]

 

10. Depois de uma sumária apresentação,
Asbjørn dirige-se a quem contemplar o díptico:
«Tens um pedaço de ferro numa bigorna, que serve para ser moldado.
Isto exige um pouco de energia e força,
mas a forma aparece gradualmente quando continuas a trabalhar».
Depois disso, passa ao ideal que ele mesmo vê:
«E então o pensamento surgiu na minha mente:
as garrafas poderiam na atualidade ser discípulos
na sua saída para o mundo.
A garrafa de acetileno sendo o discípulo número um,
a garrafa de oxigénio o discípulo número dois.
O seu objetivo é sair pelo mundo juntos
para fazer um tipo especial de trabalho.
Eles assemelham-se, mas as suas energias são diferentes,
e quando estas energias se misturam,
uma grande força aparece e um grande trabalho pode ser realizado
― em conjunto, com paciência e resistência.
Foi esse o meu pensamento ao fazer esta pintura».

[Tens um pedaço de ferro numa bigorna, que serve para ser moldado. © Fotografia: Joaquim Félix]

[Tens um pedaço de ferro numa bigorna, que serve para ser moldado. © Fotografia: Joaquim Félix]

 

11. Leves e sem alforges, haveremos de continuar
a sair pelo mundo fora, nas lides da grande seara.
São poucos os trabalhadores, bem o sabemos,
mas conservemo-nos unidos, como S. Lucas junto de S. Paulo.
Constatamos que muitos abandonam a comunidade,
outros partem e alguns são enviados.
Jesus, ontem, hoje e sempre, continua a enviar-nos
«como cordeiros para o meio de lobos» (Lc 10,3).
Ainda há dias, ouvimos nas notícias como os lobos atacam
as ovelhas e os cordeiros lá para os lados de Miranda do Douro.

Na missão da Igreja, os lobos atacam com voracidade,
semelhantes ao caldeireiro Alexandre (cf. 2Tim 4,14).
Ainda assim, com cautelas, prossigamos a missão
cientes de que há ainda quem esteja a nosso lado
e nós ao lado de alguém,
para recobrarmos as forças a fim de que a mensagem do Evangelho
continue a ser «plenamente proclamada» (2Tim 4,17).

12. Podem as cidades e o mundo opor-se à nossa pregação,
porém, em cada casa, a nossa primeira palavra será sempre:
«Paz a esta casa» (Lc 10,5).
No tempo de guerras barbáricas por todos os lados,
com mísseis de longo alcance a serem negociados,
jamais negaremos a cura aos enfermos
e a palavra da pacificação a transmitir:
«Está perto de vós o reino de Deus» (Lc 10,9).

[Está perto de vós o reino de Deus. © Fotografia: Joaquim Félix]

[Está perto de vós o reino de Deus. © Fotografia: Joaquim Félix]

Além da palavra divina, sai em nosso auxílio
o último parágrafo escrito por Asbjørn Andresen:
«Pode ser muito difícil pintar um ato.
A imagem é estática, o ato é movente.
Por isso, muitas vezes é melhor fazê-lo de forma metafórica, como fiz aqui.
Pode ser desafiador para interpretar,
mas também divertido e interessante,
alimento para a mente e ser partilha de pensamentos e crenças».
Confiantes e com perseverança, na comunhão dos carismas,
a nossa vida há de continuar a escrever novos parágrafos
no ininterrupto e entusiasmante Livro dos Atos!

[Escrever novos parágrafos com o lírio da paz. © Fotografia: Joaquim Félix]

[Escrever novos parágrafos com o lírio da paz. © Fotografia: Joaquim Félix]

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de sábado, 18 de outubro (Festa de S. Lucas Evangelista) proferida na igreja de Santa Cruz, em Braga.

 

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