
Mosaicos de Rupnik na Capela Redemptor Hominis, no Santuário de São João Paulo II, em Washington (EUA). Foto © Lawrence OPFlickrCC BY-NC-ND 2.0
Os Cavaleiros de Colombo, maior organização leiga católica do mundo, anunciaram esta quinta-feira,11 de julho, que irão cobrir os mosaicos da autoria do padre Marko Rupnik, acusado de abusos sexuais e de poder, que decoram as duas capelas do Santuário Nacional de São João Paulo II, em Washington, e a capela da sede da organização em New Haven, Connecticut (EUA). A decisão, inédita na Igreja, surge uma semana depois de o bispo de Lourdes ter admitido considerar que os mosaicos do padre e artista esloveno que decoram o santuário mariano francês acabarão por ter de ser retirados.
No Santuário de São João Paulo II, as obras de Rupnik serão tapadas “muito em breve” com tecido opaco, pelo menos até à conclusão da investigação formal do Vaticano sobre o caso. Mais tarde, após o Dicastério para a Doutrina da Fé emitir a sua decisão sobre Rupnik, poderão vir a ser escondidas “de forma mais permanente, com uma cobertura de gesso”, adiantou Patrick Kelly, líder dos Cavaleiros de Colombo, em entrevista à EWTN News.
A decisão da organização – que conta com perto de dois milhões de membros em todo o mundo e se autointitula como “o braço forte da Igreja” – foi tomada no final de um extenso processo de avaliação que incluiu a escuta de vítimas de abuso sexual e daqueles que lhes prestam apoio, historiadores de arte, peregrinos do santuário, bispos e teólogos. “Embora as opiniões tenham variado entre os consultados, houve um forte consenso para dar prioridade às necessidades das vítimas, especialmente porque as alegações são atuais, não resolvidas e horríveis”, explicou Kelly. “Os Cavaleiros de Colombo decidiram cobrir estes mosaicos porque a nossa primeira preocupação deve ser com as vítimas de abuso sexual, que já sofreram imensamente na Igreja e que podem ser ainda mais prejudicadas pela exibição contínua dos mosaicos no santuário”, sublinhou.
E acrescentou ainda: “O nosso processo de decisão realmente teve em conta múltiplos fatores. Mas o fator número um foi a compaixão pelas vítimas. Precisávamos de dar prioridade às vítimas acima de qualquer coisa, qualquer coisa material”.
Destacando a missão de evangelização que presidiu à construção do Santuário de João Paulo II, inaugurado em 2011, o líder da organização considera que a arte nele presente “deve servir como um trampolim — não uma pedra de tropeço — para a fé em Jesus Cristo e a sua Igreja”.
A inspiração de Lourdes

Pormenor de obra na fachada da Basílica de Nossa Senhora do Rosário, em Lourdes (França), da autoria do padre Marko Ivan Rupnik. Foto © António Marujo/7Margens
A decisão dos Cavaleiros de Colombo foi anunciada uma semana após o bispo de Lourdes, Jean-Marc Micas, ter afirmado, em entrevista ao jornal La Croix, que a sua “convicção profunda, construída e íntima é a de que um dia [os mosaicos da autoria de Rupnik que se encontram no Santuário de Nossa Senhora de Lourdes] terão de ser removidos porque impedem Lourdes de chegar a todas as pessoas a quem se destina a mensagem do santuário”. No entanto, explicou o prelado francês, decidiu “não retirá-los de imediato”, pois a sua opção não seria “suficientemente compreendida” e “acrescentaria ainda mais divisão e violência” neste momento.
Como “primeiro passo”, o bispo afirmou já ter decidido que os mosaicos deixarão de ser iluminados durante as procissões noturnas do rosário à luz das velas.
Na entrevista à EWTN News, Patrick Kelly assumiu que as recentes declarações do bispo de Lourdes – que também criou uma comissão multidisciplinar para refletir sobre o que fazer com as obras de Rupnik e propor uma solução – motivaram os Cavaleiros de Colombo a agir. “Os santuários são lugares de cura, oração e reconciliação. Eles não devem causar mais sofrimento às vítimas”, concluiu a ordem de leigos católicos. Isto, apesar de, em junho último, o prefeito do Dicastério para a Comunicação, Paolo Ruffini, em viagem nos Estados Unidos da América, ter dito a uma assembleia de profissionais dos média que “remover, apagar, destruir a arte nunca foi uma boa escolha”, aludindo ao caso do artista italiano Caravaggio [ver 7MARGENS]. Sobre o caso das obras de arte do padre Rupnik, considerou que fazê-lo não seria “uma resposta cristã”. E exemplificou, observando que mesmo a Companhia de Jesus, que expulsou Rupnik por desobediência, não retirou a arte dele da capela da Cúria geral em Roma.
Reconhecendo que “cada situação é diferente”, Kelly destacou que “nos Estados Unidos, os católicos continuam a sofrer de uma forma única com as revelações de abuso sexual e, às vezes, com a resposta da Igreja. Está claro para nós – concluiu – que, como um santuário nacional, a nossa decisão deve respeitar a necessidade especial de cura deste país”.
Os Cavaleiros de Colombo anunciaram também diversas mudanças imediatas que serão implementadas no santuário em sinal de solidariedade para com as vítimas de abuso, incluindo a distribuição de materiais informativos sobre os mosaicos, deixando claro que a sua exibição durante o processo de consulta “não teve a intenção de ignorar, negar ou diminuir as alegações de abuso”. Todas as missas no Santuário Nacional de São João Paulo II passarão a incluir uma oração dos fiéis pelas vítimas de abuso sexual, e os santos com ligações a vítimas de abuso, como Santa Josefina Bakhita, serão especialmente homenageados.









