
Martin Scorsese: “Respondi ao apelo do Papa ao mundo da arte da única forma que sei: imaginando e escrevendo um guião para um filme sobre Jesus”‘. Foto: Scorsese na cerimónia dos Globos de Ouro. © Ansa Brasil
Ainda ecoavam as reações ao globo de ouro de melhor atriz obtido pelo seu filme Assassinos da Lua das Flores e já Martin Scorsese surgia a revelar informações relevantes sobre a sua nova criação: um filme sobre o evangelho de Jesus, mas centrado em enredos que abordam problemas de hoje.
O início das filmagens está previsto para o final de 2024 e o filme está concebido para ter cerca de 80 minutos. Por ora, está feito o guião, com base no livro A Life of Jesus (Uma vida de Jesus), de Shūsaku Endō, tarefa em que Scorsese contou com a colaboração do crítico e cineasta Kent Jones. Sabe-se que o enredo estará quase todo centrado no presente, embora não necessariamente num momento específico.
Em declarações ao jornal Los Angeles Times, citadas pelo Avvenire, o conhecido realizador de 81 anos explica que, com o novo projeto, pretende contribuir para “eliminar a negatividade associada à religião organizada”, mas “não para fazer proselitismo”.
Depois de A Última tentação de Cristo, em 1988, Scorsese volta à figura de Jesus e a ideia surgiu-lhe numa audiência com o Papa Francisco, em maio de 2023, como revelou em entrevista à revista La Civiltà Cattolica, e que o 7MARGENS também noticiou. “Respondi ao apelo do Papa ao mundo da arte da única forma que sei: imaginando e escrevendo um guião para um filme sobre Jesus”, disse, na altura, o realizador, após ter participado na conferência internacional “Estética Global da Imaginação Católica”, no Vaticano.
Desenvolvendo a inquietação que teve ao conceber o filme, o cineasta disse que, “neste momento, a palavra religião gera indignação porque, em muitos aspetos, a religião falhou. Isso não significa que o impulso inicial estivesse errado”.
“Estou a tentar encontrar uma nova forma de a tornar mais acessível e remover o peso negativo do que tem sido associado à religião organizada”, afirma Scorcese, citado no Avvenire.
Sobre a mensagem de Cristo, pede que se pense nela: “Podemos rejeitá-la. Mas ela pode fazer a diferença na forma como vives a tua vida, mesmo que a rejeites. Não a rejeites por impulso. É só disso que estou a falar. E digo-o como alguém que fará 81 anos dentro de alguns dias”, acrescentou.
Importa notar que o livro que serviu de base ao guião deste filme em gestação é do mesmo autor de um outro livro que viria a dar origem ao filme Silêncio, de 2016, também realizado por Martin Scorcese. Passa-se no Japão do século XVII e põe em cena a perseguição dos missionários cristãos, em particular de três jesuítas.
Refira-se, por fim, que no seu último filme Assassinos da Lua das Flores, Scorsese foi buscar uma indígena, Lily Gladstone, originária da nação Osage, um povo cuja história remonta pelo menos ao séc. VII antes de Cristo em território hoje dos estados do Ohio e Mississipi, nos EUA. O realizador procurou retratar a vida dessa comunidade e chegou a recorrer a membros Osage para o assessorar durante as filmagens. Ao ver-lhe atribuído o prémio de melhor atriz, nos Globos de Ouro 2024, no último domingo, Lily Gladstone tornou-se a primeira indígena a conquistar tal troféu, tendo, no agradecimento, discursado, na primeira parte, na sua língua de origem.









