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autores - Margarida Rocha e Melo

“Se um dia encontrares o Buda, mata-o”

Natureza

“Absorta na hercúlea tarefa de arrastar um bago de arroz, não lhe ocorrerá que existe um ser a observá-la, de um lugar que ela nem consegue conceber. E que para esse ser tudo aquilo é insignificante.” Foto © Iqwan Alif / Pexels

 

Agarrados à nossa verdade, é difícil levantar a cabeça para lá da nossa bolha. Assim se alimentam discórdias. No budismo, lidar com o ego é um dos constantes desafios. O comentário de Linji Yixuan coloca-o de modo radical: “Se um dia encontrares o Buda, mata-o”.

A verdade é inimiga da Verdade. Ter razão opõe-se à Razão. Cheguei a este oximoro ao observar uma formiga. Absorta na hercúlea tarefa de arrastar um bago de arroz, não lhe ocorrerá que existe um ser a observá-la, de um lugar que ela nem consegue conceber. E que para esse ser tudo aquilo é insignificante.

À partida, alguém que concebe outros níveis de existência, seria pautado com alguma humildade, pois adivinharíamos que esta existência não passará de algo comezinho para quem nos observe de uma dimensão equivalente àquela com que olhamos uma formiga. Por outro lado, se falamos de crenças, uma atitude moderada em relação a estas e ao modo como as apresentamos aos outros, seria algo natural.

E, contudo, isto é o que menos sucede. Nascemos mergulhando para dentro do caldeirão de uma cultura e religião e essa passa a ser a «nossa verdade». Ou quando, após alguma busca, encontramos algo que nos faz sentido, agarramo-nos a essa nova verdade descoberta e também não aceitamos olhar para o lado.

Quase todos vivemos agarrados a ideias de verdade. E, para nosso mal, são essas verdades inalienáveis que nos trazem tanta discórdia. “L’enfer, c’est les autres” lançou Jean-Paul Sartre. O inferno, são os outros. Aqueles que não veem a «minha verdade». E Jean Cocteau afinou ainda mais o sarcasmo: “Les dieux existent: c’est le diable”, “os deuses existem: é o diabo”.

Não pretendemos escarnecer das crenças. Estamos integrados nelas. Diria que qualquer ideologia acaba, de certo modo, por também ser uma crença – a «nossa verdade». Mas é crucial conseguirmos olhar em todas as direções.

No budismo Theravada a expressão «not sure» – «não sei», «não é certo» – é algo que ouvimos com frequência da boca dos mestres. Para a maior parte de nós poderá soar atordoador. Mas é das posturas mais saudáveis que poderemos adotar. Porque essa é a realidade: «not sure», incerta. É nesta linha de pensamento que existem questões e «koans» colocando dilemas aparentemente insolúveis, mas de uma acuidade tremenda.

É atribuído ao monge do séc. IX Linji Yixuan, uma destas máximas mais desconcertantes: “Se um dia encontrares o Buda, mata-o”. Pretendia ele deixar claro aos seus discípulos que sempre que julgarmos que atingimos a «verdade», e um patamar tão elevado que estaríamos em posição para nos encontrarmos com o Buda, então, será ocasião para «matar» essa nossa presunção e recomeçar de novo.

Este tema é retomado por diversos mestres com a mesma radicalidade, quase chocante para o iniciante: “O que abandonarias: o Buda ou a Paz?”. Para o verdadeiro praticante, «abandonaríamos» o Buda, em nome da Paz. O Buda, tal como o mesmo sublinhou aos seus discípulos, é apenas «o dedo, apontando para a Lua, mas não é a Lua.» Tal como todos os ensinamentos procuram a paz, mas não são «A Paz». Tal como as nossas «verdades construídas» não são «A Verdade», pois essa está para lá da nossa capacidade.

Afinal, se a ciência ocidental se tem baseado na verificação e buscado a «verdade», por outro lado, a mente do cientista é uma mente aberta, e apenas porque interroga é que avança. E de acordo com a física quântica – e aquilo que conseguimos descortinar dela -, o efeito do observador pode influir sobre um fenómeno, como explica o físico Brian Greene, com a sua excecional didática para leigos.

A ideia de que existem certezas imutáveis oferece-nos segurança. É óbvio que é importante para a criança a certeza do amor materno. É claro que basta pensarmos nas regras de trânsito para reconhecermos a necessidade inalienável de assunções comuns para que possamos conviver.

E, contudo, quanto mais se sofistica o nosso pensamento, mais abandonamos a capacidade para o desnudar com clareza.

Talvez por isso, na linha do Buda, também Cristo referiu: “Apenas quando vos tornardes como criancinhas entrareis no reino dos céus”.

É necessário realizarmos o «full circle», numa expressão bem encontrada pela Oprah Winfrey. É necessário percorrer o caminho completo e «fechar o círculo».

É necessário construirmos certezas, estabelecermos verdades, desenvolver razões, para depois as abandonarmos e reconhecermos que, certezas e verdades é tudo aquilo que não temos, é tudo aquilo que não existe e aí, sim, abrirmo-nos, na Verdade, aos outros no abraço da Paz.

 

Margarida Rocha e Melo é jornalista agora dedicada ao ensino; budista, mantém o respeito pela sua herança cristã, esperando poder contribuir para o encontro de religiões, de mentes e de seres humanos.

 

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