Deus, a eterna questão. Se Deus É a Resposta, Qual é a Pergunta?, é «luminoso e acessível, honesto, pessoal, mas também marcado por uma tremenda clareza intelectual», e ainda «um excelente contributo para a nova vaga de pensamento inovador sobre fé e filosofia», afirma o antigo arcebispo e primaz anglicano de Cantuária, Rowan Williams.
Nesta obra, agora posta à venda pela Temas e Debates, o teólogo Christopher Insole faz um percurso de reflexão de autoconhecimento. Fazendo um percurso pelo pensamento dos estoicos, de Espinosa, de Kant e de outros filósofos de renome com reflexões sobre a experiência religiosa (incluindo ateus declarados como Richard Dawkins), Insole tenta encontrar razões de empatia e reverência por todas as pessoas, sejam ou não crentes, na busca de uma vida com sentido.
«Podemos discutir sobre Deus para sempre, sem nunca mudarmos de opinião. Crentes e não crentes costumam não se entender, e ambos aparentam não compreender o que realmente está em jogo quando discutem sobre Deus», diz a apresentação da obra. «Se conseguirmos aprender a falar sobre Deus, talvez consigamos compreender-nos a nós próprios e aos outros, e valorizar as criaturas vulneráveis e mortais que somos», propõe ainda a obra do autor, que confessa gostar de falar sobre religião e sobre Deus e não rejeita a ciência e ensina Teologia Filosófica e Ética na Universidade de Durham (norte de Inglaterra).
Usando histórias, perguntas, respostas e muitas sugestões, com frases curtas e dinâmicas, o livro torna-se um diálogo entre autor e leitor. «A ideia não é tentar saber mais acerca de Deus, nem apurar se Deus existe ou não (…). O importante é que nos compreendamos melhor a nós próprios e os outros, e honrar e louvar, e aprender com as diferentes formas de ultrapassar situações difíceis, e de seguir em frente.» O 7MARGENS reproduz a seguir, com autorização da editora, o capítulo 3, intitulado “Estúpido”. Subtítulos e imagens são da responsabilidade da Redacção.

Se andou pelas ruas de qualquer cidade britânica grande em 2008, talvez tenha visto o seguinte slogan na lateral de um autocarro:
O mais provável é Deus não existir. Por isso, não se preocupe mais e aprecie a vida.
Trata-se da «Campanha ateia nos autocarros», patrocinada pela British Humanist Association (BHA), como era conhecida na altura. Desde então, a associação mudou de nome para «Humanists UK».
Para mim, a premissa mais interessante do slogan não é o pressuposto de que «o mais provável» é não haver um Deus (mesmo querendo eles dizer «de certeza»). Acho bastante mais curioso que se parta do princípio de que perceber isto vai ajudar-nos a não nos preocuparmos, e vai promover a capacidade de nos divertirmos.
O antropólogo Matthew Engelke realizou um estudo sobre os encontros e a literatura da BHA, descobrindo que ser feliz, e ser feliz agora, é uma prioridade de topo para os humanistas.
Engelke chama a atenção para o logótipo do movimento humanista, selecionado, em 1965, entre os cento e cinquenta participantes de um concurso: o «ser humano feliz». Ele surgia nos crachás de certos membros da BHA, que diziam «Humanista Feliz» ou «Bom sem Deus». Engelke analisa um projeto criado pelo humanista Andrew West, «uma série de retratos de humanistas acompanhados pelas respostas que dão à pergunta»:
O que o deixa feliz?
Cada entrada começa da seguinte forma: «Hoje estou feliz porque». Após o cabeçalho temos uma longa lista de pontos, incluindo: «filhos», «comida, bebida, flores», «pássaros», «consumismo», «séries de televisão, roupas, um par de saltos altos novos – até a compra de uma autocaravana».
A celebração da «felicidade» e do «momento presente» é contrastada com abordagens que, assim se julga, não levam à felicidade, ou então situam-na no Além, no sobrenatural. A referência negativa à religião faz parte deste compromisso com a felicidade. Tal como nos diz Engelke, «a linguagem que domina é a do Iluminismo»:
[U]ma versão específica da história do Iluminismo tem honras de destaque: quando a razão elimina a religião e dá azo a um mundo moderno governado pela ciência.
A felicidade do humanista também serve de crítica implícita da religião. Quando a humanista proclama que «adora os saltos altos novos», não estamos perante um «ataque essencial ao facto de estar encurralada na “rotina” do consumismo. Pelo menos, não é sempre só isso»:
Esse abraçar dos prazeres terrenos também pretende sugerir que eles são os únicos prazeres que podemos encontrar — que somos os nossos próprios criadores. Os humanistas servem-se dos saltos altos para dar com eles na cabeça de Deus; usam as autocaravanas para o atropelar. Aproveitam todas as oportunidades para explicar o que os leva a estarem felizes por serem felizes agora, neste momento, de uma forma que lhes sublinha as valências éticas.

Voluntário dos Mensageiros da Paz, na Igreja de San Antón, em Madrid, a servir o pequeno-almoço, dentro da igreja, a pessoas sem-abrigo: “O que dizer de toda a gente boa e feliz que acredita em Deus?” Foto © António Marujo/7Margens
Tem tudo que ver com «ser bom sem Deus».
Porquê ser tão crítico para com Deus?
E o que tem o criticismo em relação a Deus que ver com a ênfase em ser feliz, e em ser bom?
Certamente que, se assoladas pela culpa ou pela vergonha, ou se tiverem uma visão condenatória do Todo-Poderoso, acreditar em Deus pode tornar certas pessoas infelizes; e há quem faça coisas terríveis em nome da religião.
Mas o que dizer de toda a gente boa e feliz que acredita em Deus? As pessoas gentis, que florescem e que incentivam os outros?
Talvez Deus seja uma ilusão.
Mas, e se for uma ilusão que me ajude a preocupar-me menos? E se eu gostar mais da vida com esta ilusão?
Chegamos agora ao cerne da questão, à pergunta que abre este capítulo:
Será preciso ser-se estúpido ou infantil para se acreditar em Deus?
É óbvio que há humanistas convencidos de que temos de ser estúpidos ou infantis para acreditar em Deus. Podemos não ser estúpidos, nem infantis, de um modo geral, mas no que diz respeito a esta crença, é exatamente isso que somos: estúpidos e/ou infantis.
Ser estúpido e infantil não é bom, e se isso o deixa feliz, olhe que não devia.
Cresça e ganhe juízo.
* * *
Na altura da investigação de Engelke (2011), a BHA podia gabar-se de ter doze mil membros que pagavam quotas anuais no valor de trinta e cinco libras e outros dezoito mil apoiantes que recebiam atualizações sobre as iniciativas e os encontros da BHA. Entre os membros mais destacados da associação, Engelke refere Richard Dawkins e Stephen Fry, os afamados cientistas Jim Al-Khalili, Brian Cox e Alice Roberts, a jornalista Polly Toynbee, o filósofo A. C. Grayling e romancistas como Philip Pullman e o falecido Terry Pratchett. Entre os apoiantes temos o ator e comediante Ricky Gervais, a quem voltaremos em breve. De um modo geral, Engelke informa-nos de que o integrante médio da BHA é «branco», «homem» e «instruído»:
Pouco menos de 89 por cento dos membros são «britânicos brancos» (…) pouco mais de 69 por cento são homens e 72 por cento dos membros têm formação universitária; 13 por cento desses cursos provêm de Oxbridge.
Destes, 24 por cento são «filiados num partido político» e 80 por cento «fazem doações pelo menos mensais a uma ou mais instituições de caridade», «o que nos indica que se trata de um perfil demográfico com níveis elevados de empenho cívico».
Será conveniente referir que o grupo identificado pelo estudo de Engelke representa um segmento relativamente pequeno, e muito pouco diversificado, da população. Não obstante, no Reino Unido, o movimento humanista conta com um perfil intelectual público que ultrapassa, de longe, o número de membros oficiais.
Ora bem, será que os humanistas têm razão? É preciso ser-se estúpido, ou infantil, para se acreditar em Deus?
Ou então, como por vezes nos poderão dizer os ímanes de frigorífico das salas de convívio das empresas:
Aqui, não é preciso ser estúpido nem infantil para acreditar, mas ajuda.
Quem são os ateus «humanistas»

Richard Dawkins, “um dos ateus públicos mais ferozes e destacados”: para ele, “o ato de acreditar em Deus é representado como uma atitude estúpida e/ou infantil” . Foto © Steve Jurvetson | Wikimedia Commons. CC BY 2.0,
Vejamos o trabalho de um dos ateus públicos mais ferozes e destacados, Richard Dawkins.
Entre outras coisas, em Dawkins encontramos dois pressupostos sobre a religião e a crença em Deus:
(i) Supostamente, acreditar em Deus serve de explicação para o motivo por que as coisas são como são, ou como fonte de informação quanto ao estado do mundo.
(ii) Acreditar em Deus, e usar linguagem religiosa, implica acreditar em seres sobrenaturais que se encontram além do reino natural.
Em ambos os casos, o ato de acreditar em Deus é representado como uma atitude estúpida e/ou infantil: é a ciência que nos dá explicações para a razão por que as coisas são como são. A religião, acreditar em Deus ou em deuses, está a par dos «feitiços sobrenaturais e dos truques de ilusionismo», que são «reles e aparatosos» quando comparados com «os factos do mundo real analisados segundo os métodos científicos».
Existem áreas da vida sobre as quais ainda não temos explicação, mas a haver uma explicação, será a ciência que nos levará lá:
Há muita coisa que ainda continua a ser misteriosa e é pouco provável que venhamos a descobrir todos os segredos de um Universo tão vasto como o nosso: contudo, armados com a ciência podemos, pelo menos, fazer perguntas razoáveis e profundas sobre ele e reconhecer respostas credíveis sempre que as encontramos. Não temos de inventar histórias perfeitamente implausíveis: o prazer e o entusiasmo da verdadeira investigação científica chegam para nos manter a imaginação a funcionar. E no fim, isso é mais empolgante do que a fantasia.
Além disso, a ciência mostra-nos que não temos nem necessidade de acreditar em seres sobrenaturais, nem provas da sua existência. Na escrita de Dawkins encontramos sempre um desprezo feroz pela crença em Deus:
O mundo é composto de coisas incrivelmente pequenas, demasiado reduzidas para serem vistas a olho nu; contudo, nenhum dos mitos, ou dos supostos livros sagrados que ainda há quem acredite terem-nos sido dados por um deus omnisciente, as refere de todo! Com efeito, quando olhamos para estes mitos e narrativas, percebemos que não contêm nenhum dos factos que a ciência tão pacientemente nos foi revelando. Não nos dizem quão grande nem quão antigo é o Universo; não nos dizem como tratar o cancro; não nos explicam a gravidade, nem o motor de combustão interna; não nos falam dos germes, nem da fusão nuclear, nem da eletricidade, nem da anestesia. A verdade é que as histórias contidas nesses livros sagrados só contêm a informação sobre o mundo que estava ao alcance dos povos primitivos que as começaram a contar! Se esses «livros sagrados» foram mesmo escritos, ou ditados, ou inspirados por deuses omniscientes, não será curioso que essas divindades não tenham referido nada acerca de coisas tão importante e úteis?
Quão estúpido e infantil é acreditar, quando consideramos que a física e a química estão inteiramente ausentes da Bíblia e de outros livros sagrados!
Quem é mais estúpido: Dawkins ou Einstein?

Einstein: “Acredito no Deus de Espinosa, que se revela na harmonia ordeira de tudo o que existe.” Foto © Pixabay
Em geral, pensamos em Einstein como tendo sido um homem bastante inteligente e com muita queda para a ciência. Eis algumas das palavras de Einstein sobre Deus e a ciência:
Não sou ateu. O sentimento religioso cósmico [revela] a futilidade dos desejos humanos e a ordem sublime e maravilhosa que se revela tanto na natureza, como no mundo do pensamento.
Por falar no espírito que dá forma às modernas investigações científicas, sou da opinião de que as melhores especulações no reino da ciência derivam de um profundo sentimento religioso, e que sem esse sentimento, elas não seriam frutuosas.
Sou um homem profundamente religioso.
Acredito no Deus de Espinosa, que se revela na harmonia ordeira de tudo o que existe.
É claro que quem é inteligente para algumas coisas pode ser estúpido para outras. E recorrer a Einstein como trunfo contra Dawkins pode ser divertido – uma diversão muito satisfatória, admito –, mas não é propriamente um debate.
No entanto, trata-se do exemplo de uma característica partilhada por alguns tipos de crença religiosa, da qual Dawkins parece alheado. Não tem exatamente que ver com a questão do «será que Deus existe», mas sim com a forma como se emprega o termo.
Para Einstein, a palavra «Deus» não é a explicação para as leis da física, nem para os mistérios do Universo. É, isso sim, o termo que Einstein emprega para descrever e evocar essas leis e mistérios. Ao longo do livro irei mostrar que Einstein não está, de todo, sozinho. Para Einstein, é a legitimidade do Universo que é divina. No capítulo 6 voltaremos a isto, e àquilo a que Einstein poderia estar a referir-se com o «Deus de Espinosa». Por agora, contudo, basta o seguinte: o termo Deus não está a ser usado como mais uma explicação, nem como fonte de factos novos. Deus é a ordem e a harmonia misteriosas e profundas de tudo o que existe. Outra forma de dizer isto poderá ser:
A que estamos a chamar a ordem e a harmonia misteriosas e profundas de tudo o que existe?
Einstein chama-lhe Deus.
Deus não é a causa da ordem e da harmonia. Não foi Deus que as concebeu. Deus é isso.
«Deus» é a palavra que usamos para descrever a beleza e o mistério daquilo que não podemos explicar cabalmente. «Deus» é o termo que Einstein quer usar.
Para mim, isto é interessante.
Temos, assim, uma pergunta melhor perante nós. Dawkins não se serve do termo «Deus» para descrever ou para evocar esses mistérios e a beleza da realidade. Einstein sim. O que nos leva à pergunta inicial deste livro.
O que se passa ao certo?
O que estará aqui em jogo? Porque será que um emprega o termo «Deus» e outro o rejeita?
Quem é mais estúpido e infantil: Dawkins ou Einstein?
Esta questão não nos vai dar a resposta. O que está em causa não é que o mais estúpido dos dois irá usar a palavra «Deus», pois essa é a atitude estúpida a ter.
Deus, uma explicação para as coisas?
Ícone da Descida aos Infernos. Thomas Nagel diz que há um «medo da religião» generalizado pela cultura.
Encontramos versões mais refinadas da linguagem de hostilidade para com Deus em filósofos com posições mais matizadas. Já reparei que quando um filósofo receia que a sua posição possa estar a tornar-se um tanto ou quanto «fantasmagórica», demasiado próxima de algo que se assemelhe a religião, por vezes surge um sinal que diz:
Não vou fazer isso!
A prová-lo, quase como se o filósofo se distanciasse do miúdo oprimido no recreio da escola, as referências a Deus ou ao divino são denegridas, das mais variadas maneiras, como se pertencessem à «Idade Média» ou à «Idade das Trevas», como fossem «supersticiosas» ou «pré-científicas», como se implicassem uma «superstição medieval», um «platonismo extravagante» ou uma «injeção de sobrenatural», e como se estivessem a recorrer ao animismo pré-iluminista ou a «metapessoas». Vejamos, por exemplo, a admissão de Nagel: ele não só não acredita em Deus, como ainda admite esperar que «não» haja um Deus!»:
Não quero que haja um Deus; não quero que o Universo seja assim.
Estes são exemplos de filósofos que, por vezes, se mostram relativamente compassivos para com a religião.
Ao mesmo tempo (em certos casos), temos um reconhecido mal-estar quanto à célere rejeição da categoria divina. O próprio Nagel admite estar «profundamente sujeito» ao «medo da religião» generalizado pela cultura. Não obstante, Nagel considera que esse receio acarreta «consequências vastas e amiúde perniciosas para a vida intelectual moderna», barrando certas linhas de pensamento, criatividade e pesquisa promissoras. Por vezes, as vivências e a experiência pessoais servem de prova válida. Aqui temos Dawkins, entre outros, a dizerem-nos o que acontece quando as pessoas abraçam as crenças religiosas: estão à procura de explicações para as coisas, recorrendo a seres sobrenaturais.
Sou religioso. Tal como já disse, saí assim.
Muitos dos meus colegas e alunos de diferentes departamentos de teologia e religião são religiosos: nem todos o são, provavelmente a maioria não o é, mas há muitos que o são. Talvez uma proporção mais elevada do que na maior parte dos outros departamentos académicos, mas não uma percentagem maior do que na população em geral. Portanto, também muitos dos meus amigos e familiares (não todos) acreditam em Deus de alguma forma, ou acreditaram, em vida. Dependendo de como as coisas sejam, talvez alguns dos falecidos ainda acreditem em Deus. Se estiverem em posição de acreditar seja no que for, imagino que a probabilidade de acreditarem em Deus será bastante elevada. Talvez seja melhor dizer que deixaram de acreditar. Agora, eles sabem.
Ou não. Porque não há nada e eles não estão em lado nenhum. Desapareceram por completo, tal como antes ainda não existiam.
A fé não lhes serviu de nada.

Christopher Insole: “Gosto de falar sobre religião, já debati, sobre Deus, com muitos amigos e colegas.” Foto: Direitos reservados.
Como gosto de falar sobre religião e sobre Deus, vou debatendo, ou em determinada altura já debati, sobre Deus, com a maioria destes amigos e colegas.
Garanto que não conheço uma pessoa que seja para quem a procura de uma explicação para a origem ou a natureza do Universo seja a principal motivação para acreditar em Deus. Os motivos assentam mais no tipo de problemas que referimos no capítulo anterior: como aguentar o sofrimento e a dor, como pensar no nosso significado perante a vastidão e a indiferença do Universo, ou como pensar na liberdade, ou no choque que nos provoca a imensidão de perspetivas que nos rodeiam. A minha experiência pessoal é confirmada pela literatura crescente que explora as causas psicológicas para a fé em Deus. Uma síntese recente destas descobertas elenca cinco motivos de destaque para se acreditar em Deus: necessidade de controlo, necessidade de lidar com a morte, sofrimento, necessidade de justiça e pensamento empírico (grosso modo, estilos de pensamento mais intuitivos e laterais). Acredito que assim seja, segundo a minha experiência pessoal, e, embora não seja empregado nestes estudos, o conceito de «anseio» também me parece correto.
Claro que isso não implica que a crença em Deus seja justificada, ou recomendada, embora indique que Deus não serve apenas, ou sobretudo, como explicação ou teoria. Deus é uma espécie de conceito unificador em que um mistério se combina com a procura de inteligibilidade, ou de esperança, ou de paz.
Portanto, algumas das pessoas que conheço aceitam o seguinte padrão de pensamento: uma vez que temos outros motivos para acreditar em Deus, esta fé poderá trazer uma explicação para algumas das características do mundo em que vivemos. Claro que essas características nunca vão pôr em causa a ciência, nem servir de fonte alternativa de informação. Quando muito, elas ajudam a explicar o motivo pelo qual a ciência consegue ter tanto êxito: «Porque será que há tanta ordem e harmonia que se prestam à investigação científica?».
E porque isso é relevante?
Bem, foi sugerido que a crença em Deus é infantil ou estúpida, já que se prende com explicações grosseiras que invocam seres sobrenaturais. Isso só se confirma se a fé em Deus implicar a procura de uma explicação — crassa ou não — e se obrigar à invocação de seres sobrenaturais.
E não é esse o caso: não é isso que a maioria das pessoas está a fazer quando acredita em Deus.
Portanto, seja lá qual for a estupidez, não é esta, embora, em geral, seja esta a estupidez apontada pela crítica humanista.
Tudo isto é irónico. Dawkins não tem formação em filosofia, mas, nas últimas décadas, revelou-se um dos mais influentes promotores de uma posição filosófica na cultura em geral. Por outro lado, Dawkins é formado no método empírico, compreendendo a importância da observação do que se passa no mundo, por oposição a uma invenção segundo os seus preconceitos e desejos.
O meu pedido, com todo o respeito, mesmo que mordaz, a Dawkins, entre outros, é que esta área receba de braços abertos mais observação empírica e curiosidade. Empreguem os vossos talentos e a vossa formação. E, se possível, abordem a filosofia com um pouco mais de humildade e abertura.
O profundo mistério do natural

Debate inter-religioso: “Há toda uma variedade de maneiras em que o conceito de Deus, ou de divino, foi usado.” Foto: Direitos reservados
Porque será que a acusação de que os indivíduos religiosos são estúpidos ou infantis tem tanta tração?
Imagino que as razões sejam muitas, com algumas a envolverem bastante emoção e fatores inconscientes.
Claro que, seguindo uma vertente mais argumentativa e consciente, tenho uma teoria quanto ao que estará a passar-se, sobretudo nos círculos «académicos». Comecemos com uma breve narrativa, trazida pelo influente filósofo do século XX Bernard Williams.
Williams descreve um grupo de filósofos de Oxford do início do século XX que estão a preparar traduções de Aristóteles. Um dos filósofos insiste em traduzir um termo grego, de forma completamente anacrónica, como «obrigação moral», após o que escreve artigos e constrói uma carreira queixando-se da «inadequada teoria da obrigação moral» de Aristóteles.
Julgo que já todos aceitámos, promulgámos ou sofremos com traduções inadequadas do conceito de Deus: diz-se que «Deus é isto», destacando-se uma série de coisas, desde uma fantasia infantil sonhada a um intrometido intervencionista, passando por um antropomorfismo grosseiro (o Pai-ninguém nas alturas). [Nobodaddy, no original do poema de William Blake]
E depois, obviamente, a reação será:
Não vejo como alguém poderá acreditar neste Deus.
Dawkins queixa-se amiúde da crença em seres sobrenaturais, ou num ser sobrenatural. Mas voltemos a pensar em Einstein. Quando fala sobre Deus, Einstein não se refere a nada sobrenatural. É apenas o termo que escolheu para o mistério profundo do natural.
Mais à frente abordaremos as posições teológicas que se centram em algo «além» do Universo, a que se chama Deus, e que é concebido em termos «pessoais». Claro que, mesmo então, o Deus «pessoal» não é uma pessoa como nós, nem se deixa capturar pela crítica grosseira de que os crentes religiosos têm, por assim dizer, um amigo invisível, mais ou menos como um ser humano, só que melhor e mais poderoso.
Estou ansioso por reforçar a ideia de que existe toda uma variedade de maneiras em que o conceito de Deus, ou de divino, foi usado, mesmo tendo em conta as limitações da filosofia «ocidental».
Quero apresentar-lhe alguma dessa variedade e celebrá-la.
Tal como vimos, uma das queixas de Dawkins e de outros ateus humanistas é, precisamente, a variedade. Atentemos no seguinte diálogo da comédia sombria, embora terna e humana, After Life, protagonizada por Gervais. Tony, representado por Gervais, está de luto pela esposa, que morreu recentemente com cancro.
Tony explica-nos que o seu «superpoder» é o facto de «já não querer saber». Pode dizer o que quer, sempre que quer, seja a quem for, e, se por acaso chegar ao ponto em que exagera, pode matar-se. Em vários momentos da série, ele tenta realmente suicidar-se. É o cão que o mantém vivo: exigindo um passeio ou comida, ou apenas por amá-lo, no momento crucial da decisão final, quando tem os comprimidos na mão, ou quando entra vestido no mar.
Numa cena, Tony dirige-se à colega de trabalho Kath, representada por Diane Morgan, que insiste que acredita em Deus e pergunta a Tony: «Como podes não acreditar?».
Tony: Em qual?
Kath: Como assim?
Tony: Então… em Zeus?
Kath: Quem?
Tony: O deus grego. Ou Rá, ou Ganesh?
Kath: Não, não é nesses, no verdadeiro, da Bíblia.
Tony: Javé.
Kath: Só em Deus.
Tony: Olha, estás a ver como tu não acreditas em todos estes outros deuses que eu referi? Pois é o mesmo quando digo que não acredito no teu.
Sim, eu sei, trata-se de um ataque típico humanista/ateu, a fim de um movimento ensaiado num combate de artes marciais mistas. Trata-se de uma versão dramatizada do teorema da «variedade = tolices» que vimos há pouco.

Calvino: “João Calvino também tinha um coração, com os seus motivos muito próprios, conscientes ou não”. Imagem: Wikimedia Commons
Talvez se lembre de quando William James perguntou: «Será lamentável a existência de tantos tipos e seitas e credos religiosos?». A resposta que deu foi negativa. Eis o que tem a dizer sobre o assunto:
A minha justificação é não ver como é possível que criaturas com posições tão diferentes, e com poderes tão díspares dos possuídos pelos indivíduos humanos, devam ter exatamente as mesmas funções e deveres. Não há duas pessoas com dificuldades idênticas, nem se espera que cheguemos a conclusões e soluções iguais. Segundo este ponto de vista peculiar, cada um vai dedicar-se a uma certa esfera de factos e de problemas, com os quais se vai lidar de um modo único.
Seria preciso dizer muito mais para que isto pudesse ser uma resposta a Tony/Gervais. E vamos dizê-lo. Neste momento, contudo, basta afirmar: acreditar em Deus não é estúpido. Einstein não é estúpido. E mais, não acreditar em Deus não é estúpido. Dawkins não é estúpido.
Por vezes, Dawkins consegue ser sarcástico e depreciativo, mas, para todos os efeitos, isso pode dever-se ao sofrimento. Há um motivo para que Dawkins seja popular e influente. Ele apela à frustração e à raiva que muitas pessoas sentem. Pessoas que podem ter bons motivos para temer a religião, ressentir-se dela e odiá-la, tendo sentimentos iguais face àquilo a que as outras pessoas e as instituições religiosas as possam ter sujeitado. Esses danos já assumiram imensas formas. O poeta Edwin Muir (1887–1959) aponta aquele que talvez seja um dos menores, mesmo sendo bastante mau:
Vede El-rei Calvino com sua pena de ferro,
E Deus como quatro letras iradas num livro
Trata-se, obviamente, de uma leitura severa de Calvino. João Calvino também tinha um coração, com os seus motivos muito próprios, conscientes ou não. E é claro que, para outros, Calvino trouxe conforto e esperança. Não vou analisar Calvino neste livro, mas se houver quem queira mostrar-me, num tom mais gentil do que o empregado por Edwin Muir, o conforto que encontraram no calvinismo, ou no dawkinismo, já agora, sou todo ouvidos.
Tal como indiquei no capítulo de abertura, o meu objetivo não é tentar ficar a saber mais acerca de Deus, nem tentar apurar se Deus existe ou não. Como já frisei, a ideia é compreendermo-nos melhor uns aos outros, e perceber as diferentes maneiras de vivermos em conjunto: as diferentes coisas que nos impedem de entrar vestidos no mar, ou, nos meses mais quentes, que nos levam a apreciar o prazer de nadar.
Quando escarnece da fé de Kath em Deus, Tony está a ser um parvalhão. Não se trata de uma crítica a esta série magnífica. Neste momento da trama, Tony é suposto ser um parvalhão. É esse o seu superpoder.
Tony é parvalhão e é ateu: o episódio queria mostrar que ser um parvalhão deste género é um problema, ser ateu, não tanto.
Concordo com essa opinião. Preferia ser ateu a ser parvalhão.
Não tenho amigos parvalhões. Muitos são ateus.
Dito isto, neste momento do episódio identifiquei uma certa seriedade nos bastidores. Era como se o argumentista (Gervais) se orgulhasse da tirada «todos estes outros deuses» enquanto máxima filosófica. Com efeito, naquilo que escreve sobre os motivos que o levam a ser ateu, Gervais serve-se do argumento proclamado por Tony.
Gostei desta linha de ataque do After Life enquanto recurso humorístico, não tanto enquanto filosofia.
Na vida real, Tony devia ter sido mais simpático com Kath. Devia ter sido mais curioso, menos dogmático. Podia ter aprendido coisas que não sabia, sendo esse, afinal de contas, o objetivo de uma conversa.
Graças a Einstein, e à minha experiência, e aos estudos empíricos, sei que a fé em Deus não costuma implicar a procura de explicações, nem de teorias que se oponham à ciência.
Assim sendo, o que é que a crença em Deus – em deuses diferentes (assumindo a perspetiva do parvalhão) – faz pelas pessoas?
Vamos descobrir.
Se Deus É a Resposta, Qual é a Pergunta?
Autor: Christopher Insole
Tradução: Luís Oliveira Santos
Edição: Temas e Debates, 2026
232 páginas, 17,70 €










