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Patriarca Bartolomeu. Foto Nikos Papachristou Ecumenical Patriarchate
O Serviço de Inteligência Estrangeira da Federação Russa publicou um relatório, no qual lança acusações ao Patriarca Bartolomeu. Foto © Nikos Papachristou

Tensões entre os ortodoxos

Serviço de informações russo acusa Patriarca de Constantinopla de ser um “Anticristo de batina”

| 26/01/2026

Desde a festa de Natal que os sinais de instrumentalização da Igreja Ortodoxa russa por parte do Kremlin não têm parado, assim como as manifestações de contestação dessa prática. Desta vez, o alvo foi o Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla (hoje Istambul). A mais recente manifestação veio este fim de semana do Conselho das Igrejas da Ucrânia, que se mostrou “indignado” com aquilo que disse evocar “a propaganda antirreligiosa da era soviética”.

Tudo começou na vigília de Natal, em 7 de janeiro, na igreja de S. Jorge, nos arredores de Moscovo. No final da celebração litúrgica, Vladimir Putin dirigiu-se aos fieis presentes, começando por destacar, segundo o jornal Moscow Times , “a enorme e verdadeiramente única contribuição da Igreja Ortodoxa Russa e de outras confissões cristãs para a união da sociedade”. Adiantou, além disso, que, tal como Jesus veio à Terra para salvar todas as pessoas, “os soldados da Rússia cumprem essa mesma missão (…): defender a pátria; (…) por ordem do Senhor, cumprem essa missão sagrada”.

Escassos dias depois, no dia 12, registou-se um acontecimento surpreendente: o Serviço de Inteligência Estrangeira da Federação Russa publicou um relatório, no qual lança uma série de acusações ao Patriarca Bartolomeu, num registo que está longe de ser comum, considerando-o, nomeadamente, uma “encarnação demoníaca” e um “Anticristo de batina“.

Os motivos invocados pela instituição de informações e espionagem russa para recorrer a tais epítetos têm a ver com o facto de, segundo ela, o Patriarca de Constantinopla ter “desmembrado a Ucrânia Ortodoxa” e “continuar as suas atividades cismáticas no interior da Igreja Ortodoxa”.

O que é verberado na atividade recente de Bartolomeu é o facto de estar alegadamente “obcecado em expulsar a ortodoxia russa dos Estados Bálticos, estabelecendo em seu lugar estruturas eclesiásticas completamente sob o controle do Fanar”, o bairro de Istambul onde o Patriarcado Ecuménico tem a sua sede, e que é tradicionalmente considerado o “primeiro entre iguais” dos patriarcados cristãos ortodoxos do mundo.

Refira-se que, quando o Patriarca Bartolomeu reconheceu, em 2018, uma Igreja Ortodoxa Ucraniana independente, desvinculada da Igreja Ortodoxa Russa, o Patriarca de Moscovo, Cirilo, declarou-se em rutura com Constantinopla e com as igrejas ortodoxas que apoiaram a decisão. Isso ajuda a enquadrar o apoio e mesmo aliança que Cirilo deu à invasão da Ucrânia, sob a ordem de Putin, legitimando a operação bélica ao assumi-la como uma “guerra santa”.

Logo no dia seguinte à publicação do relatório do Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia, o Patriarcado Ecuménico classificou as acusações que lhe foram dirigidas como “infundadas e indignas de resposta”. Recordou que, aquando da sua decisão de proclamar a autocefalia da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, “optou deliberadamente por não responder ao fluxo constante de ataques vindos de círculos políticos e eclesiásticos do lado russo”, contenção que, sublinhou, “continua a guiar sua postura pública até hoje”.

No meio destas tensões, surgiu em vários media, no início da última semana, a denúncia de que mulheres vestidas de freiras, dadas como pertencendo a um tal convento de Santa Isabel, andaram por dezenas de paróquias da Igreja (ortodoxa) da Suécia a vender objetos para fins alegadamente de beneficência. Líderes religiosos suecos alertaram para o facto de algumas dessas freiras terem ligações com a inteligência militar russa e com operações pró-Kremlin. Ainda que não tenhamos encontrado evidência de tal acusação, a denúncia levantou, de imediato, “preocupações sobre o envolvimento involuntário de comunidades religiosas em esquemas geopolíticos”.

 

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