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Elon Musk
Elon Musk, 2023. Foto © Marcel Grabowski / UK Government/ Wikimedia Commons.

[Dicionário particular III]

‘t’ de trilionário

| 08/07/2026

 

Os números são o meu dia-a-dia, mas tenho alguma dificuldade em processar números com demasiados zeros. Prefiro contagens simples como contar os dias que faltam para ir de férias. Sinto-me totalmente incapaz de alcançar a abstração vertiginosa de um trilião de euros, mas é isso que Elon Musk tem carimbado na testa desde que a SpaceX entrou na bolsa de valores.

“Está encontrado o primeiro trilionário da história da humanidade”. Li no ecrã do telemóvel enquanto tomava o pequeno-almoço. “Fortuna de Musk ultrapassa o PIB da Suécia e da Irlanda”. Na verdade, nem há grande lógica em fazer este tipo de comparação – o valor em bolsa de uma empresa não tem nada a ver com o resultado líquido dessa mesma empresa, e nem tão pouco com a produção interna de um país – no entanto é um dado fascinante, tenho de admitir, se não fosse tão perturbador.

Enquanto o património de um só indivíduo cresce mais de um milhão de dólares por minuto, a realidade esmaga-nos através de imagens de um chão seco e gretado, algures na África subsariana; de mulheres a caminhar sob o sol implacável com baldes de água à cabeça; de crianças cujas costelas desenham a geografia da fome.

A corrida espacial privada consome milhões de dólares com testes em órbita, enquanto comunidades inteiras colapsam no nosso planeta devido à ausência total de infraestruturas básicas, como um simples furo de água potável, que custaria escassos milhares de euros. Esta desproporção não é apenas a excentricidade do atual capitalismo, é um sintoma gritante de que algo falhou no nosso modelo de civilização.

Dizem as estimativas da Oxfam que bastariam uns míseros dez por cento da fortuna de Musk para erradicar a pobreza extrema global durante um ano inteiro, resgatando mais de 800 milhões de pessoas da subnutrição. Uma gorjeta na contabilidade do Olimpo tecnológico seria a salvação do mundo real. E é perante este abismo que somos forçados a colocar uma pergunta desconfortável: será que acumular em excesso, num planeta onde o básico falta a tantos, não constitui, na verdade, um crime moral?

No plano jurídico, a riqueza extrema é legal. Mas legalidade nem sempre é sinónimo de moralidade, e quando a retenção de um excedente absurdo por parte de um único homem coincide diretamente com a morte por subnutrição ou por doenças tratáveis de milhares de crianças, a opulência perde a inocência e torna-se cúmplice da miséria. Uma fortuna excessiva é um atentado contra a dignidade da espécie humana, e a fronteira é apenas a indiferença coletiva.

Nyanchau Teny, de dois anos, em Rumbek, Sudão do Sul, a beber uma infusão de folhas de árvore que permite tratar tosse, diarreias e vómitos, resultados da má nutrição. Foto © UNHCR/Rocco Nuri

Nyanchau Teny, de dois anos, em Rumbek, Sudão do Sul, a beber uma infusão de folhas de árvore que permite tratar tosse, diarreias e vómitos, resultados da má nutrição. Foto © UNHCR/Rocco Nuri

Gostava de perceber o que se passa na mente de quem habita os cumes dourados. Até que ponto haverá noção do mundo real? A psicologia sugere que uma hiper-riqueza cria uma bolha de isolamento cognitivo que atrofia o “músculo empático”. Quando o dinheiro se transforma numa abstração estatística de muitos dígitos, perde-se o contacto com o valor de um prato de comida e, por isso, um trilionário deixa de conseguir ver o mundo através da lente das necessidades humanas e passa a ver a expansão do império e do legado pessoal.

A solução para este desequilíbrio exige repensar aquilo a que chamamos de uma “boa vida”. Chegado a um certo patamar, o capital deixa de servir para garantir o bem-estar de quem o detém e, se fossemos guiados pela ética humana, o peso do excedente imensurável deveria gerar um profundo desconforto moral, e não orgulho. O excesso já não nos pertence e deveria, por imperativo ético e através de mecanismos fiscais globais justos, ser canalizado para o bem comum. Para criar escolas, redes de saneamento e garantir que nenhuma comunidade é abandonada à sua sorte.

Não se trata de travar a inovação e o progresso, mas de escolher que futuro queremos construir. Se permitirmos que a riqueza continue concentrada a este nível enquanto o básico falha a uma grande percentagem da população mundial, o nosso avanço tecnológico será apenas a fachada de uma sociedade moralmente falida.

É tempo de exigir que a economia volte a servir a vida humana e não o contrário. O verdadeiro indicador do sucesso da nossa espécie nunca será o primeiro homem a chegar a Marte com triliões nos bolsos, mas sim o dia em que o mundo, finalmente, compreender a diferença entre ambição legítima e crime moral por acumulação desenfreada.

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

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