“Teorbas Brancas” sucedem ao volume, publicado em 2024, “Teorbas dos Tempos”, prefaciado por Alfredo Teixeira (ver 7MARGENS). Tal como acontece no primeiro, também neste volume, são publicadas quarenta e uma homilias que, segundo o autor, são quase todas Inéditas.
“O segundo volume, intitulado Teorbas Brancas, que agora se publica, contém as homilias dos domingos do tempo comum e das festas do Senhor, que caem neste período. Em ambos os volumes, como se pode constatar pelo índice, privilegiei uma organização que atende à sequência litúrgica, não ao ano civil. E, em vez de contemplar todos os domingos, atendi a outros parâmetros; um deles, por exemplo, leva a publicar mais do que uma homilia para a mesma celebração, em anos sucessivos.”, disse o autor ao 7MARGENS.
O prefácio, que agora se publica, deste segundo volume, é da autoria de Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora no departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
Provavelmente muitas homilias, pregações ou sermões marcaram época na história da Igreja e da teologia como peças literárias ou artísticas de inestimável valor. Assim foi, por exemplo, com os célebres sermões do Padre António Vieira, considerado o Imperador da língua portuguesa, até hoje amplamente estudado e abundantemente citado por várias disciplinas, tais como a Teologia, a História e a Literatura, dentro do mundo lusófono ou fora dele.
Porém, que a homilética não seja considerada apenas uma área da teologia, mas uma área de estudos transdisciplinares em si mesma, é o que parece que se pode inferir deste livro que o leitor tem em mãos e que recolhe várias homilias pronunciadas pelo autor – o Padre Joaquim Félix de Carvalho.

[Capa do volume II das Teorbas. Fotografia: esculturas de Manuel Rosa, apresentadas na Galeria de Arte Contemporânea Ala da Frente, em Vila Nova de Famalicão, durante a exposição «Primeiro os pés, depois a cabeça» © Joaquim Félix]
O próprio autor é alguém com uma trajetória de vida e de estudos transdisciplinar. Ao mesmo tempo em que fez estudos acadêmicos avançados, sendo doutor pela respeitada Universidade de Santo Anselmo em Roma, exerce sua docência inseparavelmente de sua pastoral e de sua atividade litúrgica. Na docência mesmo, interage com vários públicos, desde seminaristas, sacerdotes e religiosos, até jovens alunos de escolas e leigos que são ativos no trabalho pastoral.
Assim, vemos refletido nas homilias que compõem esse belo livro a personalidade do autor que é inseparavelmente acadêmico e pastor. E mais ainda, acadêmico, pastor e artista, não estando a arte – da palavra, da poesia e da música – em nenhum momento ausente daquilo que escreve tendo como matéria prima o cotidiano das pessoas.
Ao mesmo tempo, o Padre Joaquim está longe de ser um presbítero que solitariamente elabora conteúdos que serão depois entregues aos muitos rebanhos dos quais como pastor é responsável. Reflete-se luminosamente em seu livro sua preocupação de pastor com seu povo, que sendo destinatário das homilias que pronuncia é ao mesmo tempo seu autor. A autoria neste caso é coautoria, a arte é antes de tudo recebida de Deus, que é musa, inspiração e possibilidade de que a pregação aconteça e cumpra sua missão e a aventura para a qual existe.

[Fotografia na página 197: Das termas de Diocleciano flutuam até hoje relíquias de mártires. / «Porta da Ressurreição» (detalhes), do escultor Igor Mitoraj. Basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires. Roma. © Joaquim Félix]
Sustenta essa nossa interpretação a origem semântica e a etimologia de homilia e por conseguinte também homilética. O grego bíblico nos dá a definição da palavra «homilio» como «uma multidão de pessoas reunidas, um grupo, um coletivo».[1] E acrescenta a enciclopédia que aqui citamos: «Geralmente traduzido como “aqueles que navegam”». Essa tradução que capta a profundidade do sentido, remete ao texto bíblico de Ap 18,17 que fala dos navios que participam da queda da Babilônia, cidade maldita. Aqui poderemos entender «aqueles que navegam» em outro sentido. Navegam no mar bendito da Palavra de Deus, guiados pelo timoneiro atento e criativo que prega como se tocando estivesse um instrumento musical.

[Fotografia na página 173: Os pés mais do que os olhos. / Escultura da autoria de Rui Chafes, nomeada «Não quando os outros olham II», 1996, ferro, 18 x 21 x 21 cm. Col. Carmo Sousa Lima. Fotografias colhidas durante a exposição «Chegar sem partir» (2022), realizada no Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Porto. © Joaquim Félix]
Turbante, tábua de perfumes, o certo é que os textos das homilias aqui recolhidos nos trazem um grato odor, que provém da Palavra escutada e ruminada na interioridade, feita pregação para o povo que navega sedento de beleza, de graça e de luz.
O Padre Joaquim procura estar totalmente aberto à inspiração e à ação do músico que toca as teorbas. E ele as classifica como brancas. Em um dos capítulos explica a eleição desta cor. Radica-se na importância que lhe parece ter o que chama de «pergunta branca». Ele a considera decisiva e explica porquê. «Porque, mais do que nunca, hoje é imprescindível escutar os outros, inclusive a multidão anónima, nos dizeres dissonantes em que, por vezes, há passos de aproximação a Jesus».

[Fotografia na página 213: Atravessar a rejeição. / Crucifixo de Germaine Richier na igreja Nossa Senhora de Todas as Graças. Plateau d’Assy, França. © Joaquim Félix]
As homilias então se propõem igualmente a isso: escutar, algo tão fundamental sobretudo em uma Igreja que se deseja sinodal, como propôs o Papa Francisco. A escuta inclusive da multidão anónima, dos dizeres dissonantes pode ajudar a descobrir os rastros de Deus. A grande poeta brasileira Adélia Prado escreve em um de seus poemas: «A poesia é o rastro de Deus na brutalidade das coisas». Nessa brutalidade anônima e dissonante vai ressoar a pergunta branca, que as teorbas brancas vão escutar e responder.
Por fim, o livro não deixa esquecer nem por um minuto que homilética e liturgia estão inseparavelmente entrelaçadas na teologia que o compõe. O autor é apaixonado e estudioso da liturgia. Com ela trabalha desde sempre, e transparece em seu texto o amor que por ela tem. De fato, se para a ética é filosofia primeira, a liturgia é selada por essa primogenitura quando da teologia se trata. Primeira instância da tradição cristã, tudo que no Cristianismo foi crido e formulado nas verdades da fé, foi antes celebrado. A liturgia é o lugar da intuição, do afeto, da beleza, da revelação primeira do mistério.
As Teorbas Brancas que intitulam esse belo livro foram tocadas sob a inspiração do Artista maior, do Mistério Santo que é origem sem origem de todas as coisas cuja melodia somos chamados a escutar. Mas igualmente o Sopro do Espírito que a tudo move nos enche as narinas do perfume divino que diz que a autocomunicação de Deus perpassa a todos e a todas as coisas. Mesmo a brutalidade das coisas, os odores não identificáveis, os ruídos dissonantes.

[Fotografia na página 131: Assombros na fonte do jardim oural. / Tulipeiro da Virgínia (liriodendron tulipifera). Jardim da Casa do Passadiço. Braga. © Joaquim Félix]
O cardeal José Tolentino Mendonça, poeta e amigo do autor destas Teorbas Brancas nos ajuda a concluir este Prefácio.
O mapa
aprendido em um salmo sufi
Para teus discípulos não há heresia
Nem ortodoxia
Todos podem contemplar sem véus
A verdade que vem de ti.
Insista o herege em sua heresia
E o ortodoxo em sua ortodoxia
O teu fiel é mercador de perfumes
Em busca da essência de rosas
Do amor divino
Eu deambulo [2]

[Fotografia na página 93: Ritmo de passos a quebrar os espelhos. / Do rasto de alfaiates sobre as águas do rio
Neiva, Fragoso. © Joaquim Félix]
[1] Une multitude de gens rassemblés, une foule, un attroupement https://emcitv.com/bible/strong-biblique-grec-homilos-3658.html acessado em 8 de agosto de 2025.
[2] José Tolentino Mendonça, Estação Central, Lisboa, Assírio e Alvim, 2012, 45.
Editora: Officium Lectionis
Título: Teorbas Brancas
Subtítulo: Da palavra turbante que rumino
Capa: fotografia de Joaquim Félix de Carvalho [2020]: esculturas de Manuel Rosa, apresentadas na Galeria de Arte Contemporânea Ala da Frente [em Vila Nova de Famalicão, durante a exposição «Primeiro os pés, depois a cabeça»]
Prefácio: Maria Clara Bingemer
1.ª ed.: setembro 2025
160 x 210 mm | 346 pp.
Preço: 24,38 €
Maria Clara Bingemer, nascida no Rio de Janeiro, é professora, em dedicação exclusiva, na PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), no departamento de Teologia. Entre as relevantes atividades académicas desempenhadas, coordenou, por exemplo, o Centro Loyola de Fé e Cultura, na mesma universidade, de 1994 a 2004. E, de 2004 a 2016, foi decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas. É docente de Teologia Fundamental e do tratado Deus da Revelação – a Trindade. Antes da formação em Teologia, especializou-se em Comunicação Social.










