Tinha pensado voltar a Nova Iorque, subir a Boston, descer a Washington, passando por Providence e Filadélfia, e dar um salto a Seattle, no Pacífico. E – oh sim! – se tivesse tempo voltaria a Chicago para fazer a nunca percorrida “US Route 66” até Santa Mónica, na Califórnia. De todas as maneiras, de São Francisco a Los Angeles iria de certeza. De carro, que é como se sente a América. Mas não, não irei. Não por medo de me não deixarem entrar nesse país agora cercado de arame farpado por todos os lados. Mas por desgosto, profundo desgosto, e vergonha alheia.
Tinha pensado voltar a Nova Iorque e recordar a excitação com que há 40 anos o guia diplomático de uma excursão de jornalistas europeus encarregue de mostrar os prodígios da indústria “made in USA” repetia ao microfone do bus que nos tinha ido buscar às siderurgias de Pitsburgo: “Vamos atravessar o rio Hudson! Estamos perto do Hudson! Estamos na ponte George Washington sobre o rio Hudson!”. Nenhum de nós percebeu toda aquela exaltação, mas ficámos a saber que para os americanos Nova Iorque é assim mesmo: cidade perigosa e cidade maravilhosa – uma grande agitação!
Mas não. Tinha pensado voltar a Nova Iorque e sentar-me longamente no Ground Zero em silêncio, ouvindo o murmúrio da folhagem, recordação dos milhares de vítimas do terrorismo que definiu o início deste milénio. Passar talvez no MoMA para ver a América de Edward Hopper (sempre me fascinaram as bombas de gasolina americanas e o que à roda delas é vida, espaço, agitação e calmaria) e prestar homenagem, olhando o autorretrato de Frida Kahlo, aos mecenas americanos que acolheram e reconheceram, antes de todos, pintores e artistas de outras partes do mundo.
Tinha pensado voltar a Washington, tatear o granito negro do Vietnam Veterans Memorial de olhos fechados e rever as fotografias, as notícias, os títulos e as imagens dessa fatal guerra colonial e das manifestações contra ela. Regressar ao National Mall e ouvir, outra vez, Martin Luther King repetir, do alto do Lincoln Memorial às centenas de milhares de brancos e negros reunidos, em 1963, na Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade: “Eu tenho um sonho”. “Eu tenho um sonho” que é promessa de liberdade e igualdade de direitos para todos. “Eu tenho um sonho” que ergue de novo as vítimas da violência racista, da discriminação e da exclusão.

“Tinha pensado voltar a Nova Iorque e sentar-me longamente no Ground Zero em silêncio, ouvindo o murmúrio da folhagem”. Foto © IdN
O colono e as suas vítimas
Tinha pensado voltar a descer a costa do Pacífico, de São Francisco até Los Angeles. Entrar nas paisagens dos filmes que me fizeram sonhar quando o meu horizonte de vida se dividia entre a guerra ou a emigração clandestina. Respirar o ar dos locais em que se inventaram as músicas, os movimentos, as lutas, as roupas e os costumes que deram consistência a uma nova realidade até ali inexistente: a juventude.
Tinha pensado voltar a essa terra que desde o início da invasão branca foi marcada pela brutalidade do colono tomando para si tudo o que podia, impondo a sua lei, desrespeitando tudo e todos os que não lhe trouxessem lucro e riqueza, desde a natureza à morte e escravidão de outros homens. Princípios (?) que se prolongariam depois para a política imperialista confiscando o conceito dos “interesses americanos”.
Mas aquela é também a mesma terra em que, vezes sem conta, são retomadas pelas artes, pelas instituições, nas vidas concretas do dia-a-dia e nos movimentos sociais e políticos, as narrativas das vítimas da violência, da humilhação e da exploração desenfreada. Narrativas que transcendem o facto de serem memórias e garantem àquelas vítimas e às suas lutas, mesmo (e sobretudo) quando fracassadas, que não foram, não são e não serão esquecidas. Histórias, contos, filmes, músicas e danças que nos irmanam na certeza de que com o passar do tempo as vozes dos brutais “colonos” de toda a espécie que sobre elas se erguiam estão para sempre condenadas ao silêncio, remetidas ao passado em que nunca deviam ter existido.
Terra de opressão e violência, terra de liberdade e generosidade, agora submersa pela força dos colonos do dinheiro sentados em todas as cadeiras do poder. Dela sopra um vento pestilento que ameaça chegar a toda a terra e acelerar a destruição do planeta e a ruína da humanidade. Tempestade a que os próprios americanos tratarão de pôr cobro mais cedo do que tarde. Nós por cá não deixaremos de fazer a nossa parte e, se tal for necessário, trataremos de narrar as lutas pela liberdade, pela fraternidade, pela justiça e igualdade de todos que com tanta generosidade construíram aquele país, o primeiro a reconhecer o direito de cada um buscar a felicidade.
Tinha pensado voltar aos EUA, mas não, não voltarei à que já foi para tantos a terra de todas as promessas enquanto durar esta opaca noite de todas as inumanas afrontas. Prefiro plagiar os poetas lusófonos e repetir: “Atirar-me-ei ao chão / e prenderei nas mãos convulsas / ervas e pedras de sangue / Não vou para Pasárgada” (1), prefiro ir a caminho de Ítaca “Porque esta é a vigília de um segundo nascimento” promessa que nesse caminho “Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial” (2).
(1) In Gritarei, berrarei, matarei: não vou para Pasárgada de Ovídio Martins
(2) In Ítaca de Sophia de Mello Breyner de Andresen










