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Papa Francisco e Ramos Horta no encontro com as autoridades em Dili, Timor-Leste, a 9 de setembro de 2024. Foto Vatican Media

Discurso às autoridades

“Todos somos chamados a atuar para prevenir os abusos”, apelou Papa à chegada a Timor-Leste

| 09/09/2024

Papa Francisco e Ramos Horta no encontro com as autoridades em Dili, Timor-Leste, a 9 de setembro de 2024. Foto Vatican Media

Francisco durante o discurso às autoridades de Timor-Leste, entre elas o Presidente do país, José Ramos-Horta, ao seu lado na imagem. Foto © Vatican Media

Era uma das questões que pairava no ar antes de o Papa aterrar em Timor-Leste para a sua curta visita de dois dias: faria ele referência à crise de abusos no seio da Igreja Católica, que se tem sentido também naquele país? A dúvida desfez-se logo no seu primeiro discurso à chegada à capital, Díli, nesta quinta-feira, 9 de setembro: embora sem desenvolver o tema, Francisco deixou um apelo a todos para que contribuam ativamente na prevenção dos abusos de menores.

“Não esqueçamos tantas crianças e adolescentes feridos na sua dignidade”, pediu o Papa no discurso que fez durante o encontro com as autoridades, o corpo diplomático e os representantes da sociedade civil. “Todos somos chamados a agir com responsabilidade para prevenir todo o tipo de abusos e garantir um crescimento sereno aos nossos jovens”, afirmou. E acrescentou ao texto que havia sido previamente distribuído aos jornalistas: “Este fenómeno está a aflorar em todo o mundo”.

Mas a referência ao tema ficou por aqui, não tendo havido lugar a qualquer tipo de particularização relativamente à Igreja Católica. Isto apesar de, a poucos dias da sua chegada, o Fórum das Organizações Não-Governamentais de Timor-Leste (FONGTIL), que congrega mais de 400 organizações no país, ter escrito uma carta aberta a Francisco, em que lhe pedia que encorajasse “os líderes e o povo de Timor-Leste a tomar medidas mais eficazes para prevenir o abuso sexual e a violência doméstica”. Também o grupo de defesa dos sobreviventes de abusos clericais Bishop Accountability publicou uma carta aberta ao cardeal americano Sean O’Malley, presidente da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores, pedindo que o Papa abordasse a questão verbalmente enquanto estivesse em Timor-Leste.

Recorde-se que o proeminente bispo e Nobel da Paz Carlos Ximenes Belo, que renunciou em 2002, com apenas 54 anos, por supostos motivos de saúde, foi publicamente acusado em 2022 de ter abusado sexualmente de menores, com o Vaticano a afirmar posteriormente que o havia sido impedido de exercer o ministério quando surgiram alegações de abusos em 2019.

Também o ex-padre americano Richard Daschbach foi destituído em 2018 após acusações de ter abusado sexualmente de meninas órfãs e desfavorecidas que estavam ao seu cuidado enquanto servia como missionário em Timor-Leste. Admitindo ter cometido os crimes, Daschbach foi condenado em 2021 a 12 anos de prisão por um tribunal timorense por abuso sexual de menores.

À semelhança do que acontece com Ximenes Belo, Daschbach é celebrado e defendido por inúmeros moradores e políticos locais pelos seus esforços para apoiar a luta do país pela independência. “Para interromper o apego do povo a Daschbach e Belo, o Papa deve denunciar os dois homens pelo nome… Uma declaração genérica que omita os nomes dos perpetradores será facilmente ignorada ou mal interpretada”, pode ler-se na carta da Bishop Accountability, citada pelo National Catholic Reporter.

Mas a maioria dos católicos timorenses recusa-se a acreditar nas acusações contra os clérigos que “reverencia” e não está disposta a confrontar-se com as realidades mais amplas dos abusos no seio da Igreja, refere o jornal católico norte-americano, citando uma entrevista dada no início deste mês à Associated Press pelo presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta — juntamente com o qual Ximenes Belo foi agraciado com o Nobel da Paz — em que este insistia que a visita do Papa não era o momento para escrutinar o histórico da Igreja em relação a abusos no país. Os timorenses, afirmou, “continuam a respeitar profundamente o bispo Belo pela sua coragem, pela sua contribuição para a sua luta. Ele abrigou pessoas, salvou pessoas e as pessoas não se esquecem disso… nem o punem ou condenam ao ostracismo”.

E o Papa, no seu discurso às autoridades, não referiu o seu nome, nem o de Daschbach. Reconheceu o sofrimento da população no passado recente de Timor-Leste, enquanto o país lutava para obter a independência da ocupação indonésia e aplaudiu o papel que a fé católica desempenhou em ajudar a atingir esse objetivo. Elogiou a busca de uma reconciliação total com a Indonésia, uma atitude que, segundo ele, “encontrou a sua primeira e mais pura fonte nos ensinamentos do Evangelho” e deve ser tomada como um exemplo. Lamentou os elevados níveis de pobreza, especialmente nas áreas rurais, pedindo às autoridades que aproveitem os recursos naturais do país, como petróleo e gás, para promover o desenvolvimento social. E pediu formação adequada para os líderes políticos, referindo que a doutrina social da Igreja deve servir como “a fundação”, pois promove o desenvolvimento integral e busca evitar “desigualdades inaceitáveis” e cuidar daqueles que estão nas margens da sociedade.

É possível que aborde o tema dos abusos com maior profundidade no seu encontro com bispos, clérigos e religiosos do país, previsto para esta terça-feira.

 

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