A torre de Jesus Cristo, a mais alta e a mais central das 18 torres que fazem os barceloneses e todos os visitantes olhar para o céu, quando se aproximam da Basílica da Sagrada Família, deverá estar terminada até à primeira semana de junho do ano prestes a começar. Esse será o maior tributo que se poderá fazer ao genial autor do projeto arquitetónico, Antoni Gaudí, de cuja morte será celebrado o centenário, precisamente no dia 10 desse mês.
O ano de 2026 vai, assim, ficar na história do projeto centenário da construção daquela Basílica: consolidará, com os seus 172,5 metros, a posição de templo mais alto do mundo, que já havia atingido em final de outubro último, e ficará a cerca de uma dezena de metros abaixo da altura da colina barcelonesa de Montjuic, um requisito que Gaudí se impôs para simbolizar que a obra do Criador é superior à obra humana (a sua).
Ainda assim, se em meados desse ano ficarão concluídas as obras mais estruturantes do ponto de vista arquitetónico, isso não vai significar o fim dos trabalhos, uma vez que faltará ainda finalizar obras secundárias e de pormenor, que poderão prolongar-se por vários anos. Uma delas é a escadaria originariamente planeada, suscetível de se tornar em fonte de controvérsia, dado que, a concretizar-se como foi prevista, obrigaria a desalojar umas boas centenas de famílias e numerosas empresas que ocupam prédios das redondezas.
Tendo em conta que a finalização da torre de Jesus será um marco, dado o seu simbolismo, foi preparado um programa de eventos, que se conjuga com o centenário da morte de Gaudí e que teve início em 30 de novembro de 2025, dia em que se evocou o centenário da finalização da primeira torre da Basílica, a do apóstolo Barnabé, a única que Gaudí conseguiu ver, já que faleceria no ano seguinte.
Nesse âmbito, a Basílica vai promover, já a partir de 15 de janeiro de 2026, um ciclo de quatro conferências, propostas como “um espaço de diálogo entre fé, pensamento e sociedade”.
Na primeira sessão, duas conferências abordarão, respetivamente, “a arquitetura da Torre de Jesus Cristo” (Jordi Faulí e colaboradores) e “O eixo trinitário da torre” (Francesc Torralba). Na segunda sessão, em 12 de fevereiro seguinte, as duas conferências versarão sobre “o eixo cristológico da torre” (Joan Torra) e “o eixo eclesiológico da torre” (Armand Puig).
O livro da Natureza e o livro da Palavra de Deus

Em junho de 2015, chegaram à Sagrada Família as primeiras peças que farão parte da cruz na torre de Jesus Cristo. Foto © Basílica da Sagrada Família.
Com o pretexto deste programa de iniciativas, a Basílica tomou a iniciativa de homenagear a genialidade de Antoni Gaudí, através de um Manifesto de Agradecimento no qual realça a sua “luta titânica” travada ao longo de toda a sua vida, afirmando a “vontade de tornar visível o invisível”.
“O fruto desta batalha silenciosa é este templo que maravilha o mundo inteiro pela sua elegância”, vinca o texto.
O Manifesto chama também a atenção para os “dois livros abertos de par em par” que inspiraram e guiaram o arquiteto: o livro da natureza, tão presente numa arquitetura em que não existem linhas retas e em múltiplos pormenores decorativos; e o livro da Palavra de Deus, presente na Bíblia.
A dívida de gratidão que têm para com Gaudí “o povo da Catalunha, a Igreja universal e o mundo inteiro” abarcam aspetos tão diversos como “a sua tenacidade, a sua entrega absoluta a esta Basílica”; “a fortaleza da sua esperança”, apesar de tantos contratempos que enfrentou; a sua humildade para “deixar-se preencher pela força do Espírito”; e “o seu testemunho de pobreza evangélica”, que o levou a despojar-se dos bens materiais e a viver em sobriedade.
A morte deste génio da arquitetura é eloquente. Como lhe era habitual, no dia 7 de junho de 2026, interrompeu o seu trabalho nas obras da Basílica para ir rezar, costumando regressar, de seguida, até porque durante vários anos, dormia num quarto que tinha improvisado no próprio estaleiro. Na Rua das Cortes Catalãs foi atropelado por um elétrico, quando se desviou de outro que vinha em sentido contrário. Ficou desfigurado e, com a singeleza das roupas que usava foi confundido com um mendigo. Não tinha consigo identificação, levando apenas o Evangelho num bolso. Só no hospital acabaria por ser identificado por alguém. Corre o testemunho de que ao seu funeral acorreu “Barcelona inteira”. Atendendo ao que fora a sua vida, a Igreja aceitou que ele, apesar de leigo, fosse sepultado dentro da Basílica a que dedicou a sua vida desde os 31 anos.
A beleza e magnificência da obra, a entrega e criatividade do seu criador e o testemunho que foi de Jesus Cristo levaram a que o processo da sua beatificação tivesse sido desencadeado na década de 90 do último século. A abertura de um processo formal, no plano diocesano, foi autorizada por Roma em março de 2000. Em 2023, o processo transitou de Barcelona para o Vaticano e, em abril de 2025, o Papa Francisco reconheceu as “virtudes heroicas” de Gaudí, considerando “venerável” aquele que é também por vezes designado por “arquiteto de Deus”.
Há um alegado milagre que já se encontra a ser examinado. Mas talvez o maior milagre de Gaudí seja a Basílica da Sagrada Família e o testemunho que foi e continua a ser o seu arquiteto.










