A Comporta é o playground de milionários portugueses e celebridades internacionais. Nos 60 km de praias entre Sines e Tróia o jet-set finge humildade boho-chic. Ricos fazem “make poverty great again” entre dunas eco-friendly.
Trump caberia aqui? Imaginemo-lo de helicóptero dourado, tweetando sobre “a melhor areia, folks!”, com “influencers” de linho e cães de gravata vermelha. Mas será que lhe pertence, conhecendo a piroseira de Mar-a-Lago, os douradinhos da Casa Branca, sinónimos de ostentação e arrogância como o mundo já não via desde o imperador Nero?
Resposta: sim e não.
Trump e a Comporta ligam-se no que Christopher Lasch descreveu em A Rebelião das Elites e a Traição da Democracia (1995): as elites desligadas da vida comum, interessadas no globalismo, meritocracia e bolhas exclusivas, são indiferentes às comunidades locais e às virtudes cívicas. São cosmopolitas que não precisam das classes médias nacionais, nem económica, nem culturalmente. Como já perderam o cristianismo não precisam delas moralmente para se justificarem com obras exteriores de misericórdia. A tecnocracia dá-lhes a mesma justificação “científica” que o darwinismo social deu às elites do séc. XIX.
Essas elites precisam de mercados transnacionais, auto-congratulação, meritocracia que baste e globalismo vigiado pelos poderes e polícias deste mundo. Não têm lugar para comunidades locais, virtudes cívicas nem democracia. Cultura só se for ao serviço da tecnologia. Não estão interessadas no Parlamento das Coisas. Vivem em bolhas e descartam como provincianas as preocupações das pessoas sem praias, condomínios, colégios e resorts privados. A rebelião das elites fomenta uma meritocracia que perpetua privilégios mas necessita captar talentos. Há sempre muitos talentos à venda. O resultado é a crise cultural e espiritual onde as elites abandonaram qualquer interesse em servir a sociedade.

“Lasch alertou em 1995 para este esvaziamento social.”
Lasch alertou em 1995 para este esvaziamento social. Desde então, assistimos ao ajuste de contas populista — França nos anos 2000, Tea Party em 2005, Trump e a casta dos donos e feitores das multinacionais separaram-se da vida comum. Alguns como o “Kid Mosca” – assim lhe chama o grande cientista Miguel Nicolelis – querem ir para Marte.
Trump é, por um lado, um elemento dessas elites revoltadas: tem um império de negócios globais, e chamou magnatas, lobistas e celebridades para a sua administração. Por outro lado, com o “Make America Great Again” fustiga instituições elitistas, enquanto ergue muros contra os estrangeiros, e militariza cidades.
A dúplice posição de Trump e Vance permite-lhes jogar em dois campos; fazem parte da rebelião das elites e controlam o assalto populista a essa mesma rebelião. Posicionam-se contra a “nova aristocracia” que prioriza fluxos globais e, simultaneamente, chicoteiam essas elites. Lasch acertou em como a rebelião das elites provoca estas respostas antidemocráticas.
Esta posição dúplice permite atacar a aristocracia financeira e do conhecimento, mas também perpetuar a sua lógica. As frases provocatórias de Trump — “poderia disparar contra a multidão do alto de um arranha céus de Nova Iorque e ninguém me iria incomodar” e chamar de “democratic hoax” ao escandaloso caso Epstein que contribuirá para o seu derrube — mostram a duplicidade brutal: a raposa a guardar o galinheiro.
Voltando à Comporta. Cada país tem as suas. A França tem Cap Ferret, perto de Bordéus e Saint-Tropez, mais glamorosa, mas comparável em vibe chique. A Espanha tem Empordà na Costa Brava, Os EUA têm Hamptons, em Nova Yorque. O Brasil tem Trancoso, na Bahia. Até a Inglaterra, com aquele clima indescritível, tem Sandbanks na Cornualha e o seu “mix” de villas elegantes, beleza natural, arte e luxo discreto.
Todas as Comportas identificam como uma boa parte das chamadas elites se isolam da vida comum e passam a viver em bolhas permitidas pela financeirização do mundo – playgrounds, condomínios, escolas privadas — e descartam como provincianas as preocupações das pessoas comuns.
A vida política de Trump nunca foi um antídoto para a revolta das élites, mas uma sua mutação: o populismo cooptado por um líder carismático, que aprofunda fraturas sociais sem reconstruir a democracia.
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.










