Li de um fôlego, ao jeito da minha juventude, o livro de Alexandra Lucas Coelho (A.L.C.), apresentado há dias, Gaza Está em Toda a Parte. Escrevo este texto também de um fôlego, depois da excecional análise feita por António Marujo a 30 de Maio no 7MARGENS a propósito também da situação em Gaza.
Estive num debate com Alexandra Lucas Coelho no Terraço (centro do movimento Graal em Lisboa), na antevéspera do lançamento do livro. Uma paixão imensa na narrativa e nas fotografias partilhadas. Para além de ser uma jornalista profundamente conhecedora do Médio Oriente, A.L.C. sempre tem tido a preocupação, nos seus livros, de trazer à superfície as “vozes” daqueles que são objeto da sua pesquisa, não se limitando aos factos frios e objetivos do seu trabalho jornalístico. A meu ver, A.L.C. é uma das mais originais jornalistas do nosso país: interventiva, cidadã e plena de empatia pelas pessoas que entrevista. Planta raízes nos locais em que se detém e volta a esses locais retomando o contacto com as pessoas que lá deixou. Grande jornalista, grande etnógrafa, grande escritora. Ousaria dizê-la uma “poeta épica” do Médio Oriente.

“Algumas das fotografias de ALC são notáveis, demonstrando a beleza da cultura e paisagem.” Foto © Alexandra Lucas Coelho.
No contexto deste trabalho irei inserindo entre aspas algumas palavras/frases de A.L.C. ou das “vozes” que ela foi escutando ao longo do livro. Trarão profundidade e evidência àquilo que jornalista/escritora descreve. A.L.C. fala com com-paixão, revolta, determinação, numa dor imensa pelo que passa em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental ocupadas, que ela conhece bem. Alec (jovem de 24 anos da comunidade cristã arménia, que ela encontrou pela primeira vez bem mais novo) desabafa, depois dos ataques aos arménios em Jerusalém Oriental: “Temos de proteger a nossa história, o nosso bairro. Somos uma comunidade muito pequena, toda a gente se conhece, e este é o nosso lugar” (p. 215).
Sendo claramente contra qualquer tipo de terrorismo, A.L.C. sublinha várias vezes a análise que António Guterres faz sobre o que se tem passado desde 7 de Outubro: o ataque do Hamas não surgiu do nada e a resposta de Israel é absolutamente desproporcionada; por isso o Secretário-Geral das Nações Unidas foi impedido de entrar em Israel. Uma catástrofe, um genocídio, uma crueldade que não imaginaríamos possível nos dias de hoje. A.L.C. descreve a noite do blackout na Grand Central Station em Nova Iorque, em que “judeus descendentes dos comboios de Auschwitz tomaram uma estação de comboios no coração judeu da América (…) Vimos judeus que se libertavam e libertavam outros. Que libertavam o judaísmo do sionismo.” (p. 420). Insiste que Israel se tornou “um estado cada vez mais doente, mais cego, a auto-destruir-se na destruição do outro” (p. 421). Gaza, segundo A.L.C., “é um campo de extermínio nos nossos écrans” (p. 389): um campo de extermínio perpetrado pelo mesmo povo (não todos, graças a Deus!) que viveu na carne uma das maiores tragédias humanas dos anos quarenta do século passado, a Shoah.
Gaza está em toda a parte é um livro de cerca de 550 páginas integrando duas secções de fotografias tiradas pela autora em Gaza, Jerusalém Ocidental e Cisjordânia; textos publicados no Público e em imprensa dispersa. Um livro pungente, diria lancinante, por duas aparentemente contraditórias razões:
– primeiro, porque A.L.C. narra a maior tragédia do século XXI com com-paixão e afeto, mesmo ternura pelo povo palestiniano – tantos nomes perpassam o livro! – que conhece bem (desde há 20 anos!). Tragédia essa antecipada por longos anos de sofrimento desde 1947, no final da Segunda Guerra Mundial, quando a Palestina foi dividida a regra e esquadro para poder acolher um novo estado, Israel. Recordo-me da “distribuição” de África entre os seus colonizadores, no final do século XIX, início do século XX.
– depois porque, ao contrário do que têm feito grande parte dos meios de comunicação social há largos meses, A.L.C. apresenta Gaza, a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e em geral a Palestina, pelo olhar de alguém que ama essa cultura riquíssima e milenária, os hábitos e costumes, a alimentação, a generosidade e hospitalidade de um povo que a recebe como família. As pessoas. A.L.C. escreve em contraponto a um jornalismo que apenas apresenta imagens da desgraça… Sim, são reais, mas incompletas porque seria necessário explicar ao grande público que povo, cultura, humanidade e civilização estamos a destruir. As fotografias de A.L.C. são notáveis, demonstrando a beleza da paisagem, das pessoas, dos muros decorados (do Muro) a lindíssimos graffiti e da orla marítima, das crianças e dos idosos ou das mulheres (…as mulheres cozinhando e cuidando das crianças, gerando e mantendo a vida), os homens correndo com crianças feridas nos braços, de uma coragem infinita perante o sofisticado e criminoso armamento de Israel: armamento proporcionado por nós, sobretudo os europeus e os americanos. O livro acolhe ainda, nas suas imagens e no texto, fotografias e vozes de pessoas e grupos israelitas que também afrontam corajosamente o governo de Netanyahu.
Povo eleito, crianças bem vivas

Foto © Alexandra Lucas Coelho no livro Gaza Está Em Toda a Parte.
A.L.C. é uma jornalista e escritora que escreve muito bem. Comecei a lê-la quando publicou Caderno Afegão e continuei com Vai Brasil e Deus Dará, Tahir: Os Dias da Revolução, E a Noite Roda, Mumtazz, Oriente Próximo, Líbano Labirinto. Enumero estes títulos para se entender o conhecimento profundo que A.L.C. tem do Médio Oriente. Apesar da dor infinita, incansavelmente A.L.C. ousa a esperança: “Gaza é o nosso tempo. Tornámo-nos hospedeiros da Palestina (…). O futuro é filho de Gaza.”
Por Gaza andou o Jesus Cristo dos cristãos, por Belém e Galileia, agora parte de Israel. Serão os israelitas “o povo eleito”, como se autodenominam? Se Jesus Cristo voltasse hoje à terra, a Palestina seria o seu povo eleito, é um pressuposto de que não duvido. A.L.C. descreve como muitos habitantes de Israel destilam ódio: políticos, judeus mais conservadores, cidadãos de há pelo menos duas gerações em Israel… e também judeus na diáspora. No entanto, descreve pequenos focos de esperança em organizações israelitas locais ou estadunidenses, lutas estudantis em favor dos palestinianos em tantos países… sublinhando o papel dos movimentos estudantis nesta denúncia.
No caso dos estudantes de Sciences Po, em França, A.L.C. escreve: “O cântico destes jovens franceses é uma filiação. Eles, que podiam ser nossos filhos, nossos netos, são filhos de Gaza” (p. 412). Mas A.L.C. é implacável sobretudo com a nossa Europa que, marcada por culpabilidades e cobardia, não toma posições firmes contra Israel com as inerentes consequências (bloqueios, cortes de relações diplomáticas, etc). Serão os palestinianos menos merecedores do que os ucranianos da solidariedade europeia? Por que razões isto não acontece?… Inclemente, A.L.C. conclui referindo-se às consequências do 7 de Outubro: (…) “o Velho Mundo cortou uma ligação direta à humanidade” (p. 413).

Foto © Alexandra Lucas Coelho no livro Gaza Está Em Toda a Parte.
Intencionalmente deixo as crianças para o fim (lembrando-me que o Dia Mundial da Criança foi celebrado no início deste mês). Sobre elas insisto, com A.L.C.: “Gaza está em toda a parte.” Sim, Gaza estará onde há um genocídio, uma matança de inocentes, atropelos aos direitos humanos, tortura, racismo, hegemonia branca, etc. As crianças estão a passar “o que nenhum ser humano deve passar”. As crianças são tão inocentes que acreditam ainda que “há uma luz que vem do fim do mundo”. Sim, temos crianças de Gaza espalhadas pelo mundo… até entreportas:
“Certo jovem pergunta a uma criança: “Diz lá, valeu a pena a travessia?”
E o menino responde:
“Valeu, pois! O meu sonho é ver a luz que vem do fim do mundo.”
(José Mário Branco, citado por Joaquim Félix, 7MARGENS)
As crianças de Gaza aparecem bem vivas e presentes no livro, na tragédia a que estão sujeitas – fome, violência, abusos…solidão – mas também na sua alegria de viver, humor, capacidade de brincar apesar de tudo, cuidado com os mais pequeninos (elas que precisam de ser cuidadas!), sentido de sobrevivência, esperança no futuro. Sobre as crianças de Gaza “que brincam nas nuvens” já escrevi no 7MARGENS.
Na última página deste livro magnífico Alexandra Lucas Coelho novamente nos interpela: “O presságio é só este: olhem nos olhos das vossas crianças”, referindo-se a uma criança que na véspera viu decapitada (p. 551).
Estou com Alexandra Lucas Coelho quando refere, em Gaza Está em Toda a Parte (p. 495): “Isto não é só sobre Israel e a Palestina. É sobre nós.”
Um abraço, Alexandra.

Gaza Está Em Toda a Parte
Autora: Alexandra Lucas Coelho
Editorial Caminho, Maio 2025
552 páginas, incluindo 148 fotografias a cores.
24,90 euros
Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e participante do Movimento do Graal; contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com










