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[neste carro prensado / oiço gritos vermelhos ― / ai! deus é amor aí? © haiku e fotografia (Mário Rocha: Descubram, 2021. Cerâmica e carro prensado. Arga de Baixo, Caminha): Joaquim Félix]

[Metáforas vivas]

Pela paz: panos brancos nas janelas!

| 26/05/2025

[domingo vi da páscoa ― c ― 2025]

1. O contentamento que, nestes dias, recriou a cidade,
trazendo raízes romanas à memória, nas avenidas e praças,
não ficou à porta, impedido de entrar.
De facto, Jesus disse-nos que, se o amássemos,
teríamos motivos para ficar contentes (cf. Jo 14,28).
Por agora, e de passagem, sublinhemos que,
assim como esta igreja assenta sobre uma domus romana
― cujo peristilo foi escavado no claustro ―,
assim nós iremos dançar sobre o mosaico da Palavra viva
segundo a ordem e o ritmo, veja-se lá!, da liturgia romana.

[Peristilo da domus romana de Santiago, Braga © fotografia: Joaquim Félix]

2. Recordemos que, no Concílio de Burgos, em 1080,
foi decidido substituir a liturgia hispânica pelo rito romano,
por vontade do Papa Gregório VII,
depois concretizada por Afonso VI de Leão e Castela.
Por sinal, passam hoje 940 anos que este papa morreu,
na cidade italiana de Salerno, a 25 de maio de 1085.
Notas históricas e coincidências à parte,
dancemos, agora, sobre alguns motivos do mosaico bíblico,
para que a Palavra que guardamos nos avive o contentamento,
não menos do que aquele que se vive junto à porta da igreja,
saboreando o tempo presente, feito de tantas camadas.

3. «Onde caridade e amor há, aí Deus é.
Congrega-nos na unidade o amor de Cristo.
Exultemos, e nele nos encantemos.
Temamos, e amemos o Deus vivente.
E nos enterneçamos de coração sincero».
Iniciemo-nos à dança, ao som deste antigo cântico,
o qual, neste modo alternativo, procurei traduzir,
para nos religar melhor ao Evangelho do domingo passado,
quando Jesus, como a filhos seus, nos dizia na última ceia:
«Dou-vos um mandamento novo:
que vos ameis uns aos outros» (Jo 13,34).
Ele não nos dá este mandamento
como preceito de uma ordenação jurídica qualquer,
mas como funda raiz, a fim de que, por ela,
possamos viver em comunidade de irmãos que se amam.
Oh, como é agradável cantar, uma e outra vez, este cântico!
Sim, até mesmo em latim, a língua oficial dos romanos.

4. Além deste dom, Jesus oferece a paz aos seus discípulos:
«Deixo-vos a minha paz, dou-vos a minha paz.
Não vo-la dou como a dá o mundo» (Jo 14,27).
Eis o segundo motivo da dança sobre o mosaico da Palavra!
Sim, a paz com que, em todas as eucaristias, nos saudamos.
Nós, cristãos, acreditamos que só a paz de Cristo ressuscitado
poderá devolver os povos à sua pacífica convivência.
Se me permitis, em vez de citar a Encíclica Pacem in terris,
para desenhar uma definição de paz,
prefiro recorrer a um judeu: nem mais, Espinosa,
para quem «paz não é ausência de guerra.
É uma virtude, um estado mental, uma disposição
para a benevolência, confiança e justiça».

[Charitas: motivo azulejar na varanda do Museu de Arte Sacra do Funchal, Madeira © fotografia: Joaquim Félix]

5. Cito Espinosa, um judeu sefardita de origem portuguesa,
porque temos de ajudar Israel a abandonar as desumanidades
da estratégia político-militar que tem praticado em Gaza
e noutros territórios palestinianos.
Trata-se de genocídio do povo palestino; um genocídio, repito.
Esta semana, ouvimos notícias com números avassaladores:
28 mil mulheres e raparigas mortas desde o início da guerra;
e, estes dias,14 mil crianças estiveram expostas à morte por fome,
caso os mantimentos não chegassem ao enclave em 48 horas.
Em Israel, há políticos (e, inclusive, religiosos) de cabeça perdida
a quem é preciso lembrar que não é justo fazer aos outros o que,
no passado, nomeadamente durante o regime nazi, lhes fizeram.

[Memorial da deportação dos hebreus de Roma, com especial menção às crianças («E não começaram sequer a viver»), no Largo 16 Ottobre 1943; Antico Ghetto Ebraico, Roma © fotografia: Joaquim Félix]

6. A Conferência Episcopal Espanhola solicita este repúdio público
com gestos e iniciativas mais decididas e audíveis.
Como dar sequência a este e outros apelos, de forma pacífica?
Creio que, entre outras iniciativas,
poderíamos começar por colocar panos brancos
nas janelas das casas e igrejas, nos carros, sobre os muros, etc.
Além disso, seria sempre possível convocar marchas e vigílias,
para rezar pela paz e denunciar as atrocidades do genocídio.

[Não somos cristãos-caranguejos © fotografia: Joaquim Félix]

[Não queremos soprar à boca do vespeiro © fotografia: Joaquim Félix]

7. As fotografias e as reportagens perturbam-nos?
Se sim, é bom sinal; porém, precisamos de mais intervenção
para denunciar e fazer cessar este e muitos outros conflitos.
Jamais vacilemos à indiferença. Jamais!
Nós não somos cristãos-caranguejos, que recuam nos perigos.
Mas também não queremos soprar à boca do vespeiro.
Nas artes, há imagens que podem sugerir violências e agonias,
como carros prensados, com humanos em protesto e a gritar,
ou, ainda, campos de esqueletos multiplicados aos milhares.
Mas, verdade seja dita, estão ainda muito distantes da crueza
que só o testemunho das vítimas pode fazer crer
e despertar para a compaixão.

[Pintura com milhares de esqueletos; Convento San Payo, Vila Nova de Cerveira © fotografia: Joaquim Félix]

Se alguém deseja trabalhar-se para envolver-se na denúncia,
sugiro que se demore nas fotografias feitas por Adriano Miranda,
na Ucrânia e numa viagem até lá a partir de Lisboa.
E medite, também, no que dizem as mães e os feridos de guerra,
através da visualização da curta metragem documental,
que ele intitulou: «Os cães voltaram a ladrar».

8. Outro belo motivo do mosaico da Palavra,
que Jesus nos garante durante a última ceia,
é o dom do Espírito Santo:
«Mas o Paráclito, o Espírito Santo,
que o Pai enviará em meu nome,
vos ensinará todas as coisas
e vos recordará tudo o que Eu vos disse» (Jo 14,26).
É deveras imperioso aprender dele, o Paráclito,
a abrir novas portas da fé como fizeram Paulo e Barnabé (cf. At 13-15),
não impondo obrigações inúteis a ninguém.
E, reconhecendo-lhe prioridade no discernimento,
pudéssemos corresponder aos prementes desafios do Evangelho,
como os que têm sido objeto de estudo nas assembleias sinodais.
Que ninguém se escandalize como que ouso dizer:
sem «muita agitação» e «discussão intensa» (At 15,2),
e as devidas consultas e reflexões
com os atuais sucessores dos apóstolos e, note-se, dos anciãos,
não se chegará às mudanças desejadas, sob a ação do Espírito.
Claro, nunca recorrendo à violência ou a golpes baixos.

[Motivo rupestre em Vitlycke, Suécia © fotografia: Joaquim Félix]

9. De coincidência para coincidência, recorro a outra:
o cantautor José Mário Branco nasceu a 25 de maio de 1942.
Celebraria hoje o seu aniversário, caso estivesse vivo.
Entre tantos álbuns, gravou Resistir é Vencer.
Num concerto, realizado no CCB, em 2004,
com transmissão da RTP 2, colhi um momento ao minuto 42:10’,
que nos pode catapultar para a luz do Cordeiro de Deus.
Certo jovem pergunta a uma criança:
«Diz, lá, valeu a pena a travessia?»
E o menino responde:
«Valeu, pois! O meu sonho é ver a luz que vem do fim do mundo».

10. Possa esta luz última e plena ser,
para nós que temos outras chaves de leitura
― desde logo, o mosaico da Palavra de Deus ―,
a glória divina que supera a necessidade dos templos;
e a de Jerusalém, que descia do Céu, da presença de Deus.
«Na cidade não vi nenhum templo,
porque o seu templo é o Senhor Deus omnipotente e o Cordeiro.
A cidade não precisa da luz do sol nem da lua,
porque a glória de Deus a ilumina
e a sua lâmpada é o Cordeiro» (Ap 21,22-23).

[De uma outra luz é a cidade iluminada © fotografia: Joaquim Félix]

11. Neste templo, edificado segundo a incarnação,
― que é o corpo aceso com a palavra guardada na vida,
onde Deus se vem fazendo presente, morando
com o seu Filho e o Espírito Paráclito ―,
conhecemos a largura e a profundidade do amor.
Deus desce do alto, com a sua luzência,
até ao íntimo da nossa fé e do humilde quotidiano.
Quanto a nós, avancemos para o altar,
cheios de contentamento pela luz dos seus olhos,
não menos do que Maria, mãe de Jesus,
a quem habitualmente cantamos no tempo pascal
a antífona Regina caeli, laetare, alleluia.
Como gostaria que, com ela, a cantássemos
― ou a ouvíssemos em vozes octogonais ―,
adotando a composição de Tomás Luís de Victoria.

12. Cordeiro de Deus
que tirais o pecado do mundo:
dai-nos a paz!

[Cordeiro de Deus na basílica di Santa Maria Assunta, Aquileia © fotografia: Joaquim Félix]

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia do domingo, 25 de maio, domingo vi da páscoa, proferida na igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

 

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