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Um papamóvel parado às portas de Gaza e os bispos calados

| 06/06/2025

Sim, este é mais um texto sobre o que se passa em Gaza. Tem havido muitos, bem sei, mas claramente ainda não são suficientes. Até porque muitas das vozes que deveriam levantar-se continuam em silêncio. E é preciso dizer aos donos dessas vozes: vão muitíssimo tarde, mas mais vale tarde do que nunca. Agora sim, “há pressa no ar”. Levantem-nas, por fim!

Quero apelar a isso em particular nesta quinta-feira, 5 de junho, em que se assinala o aniversário da Naksa (literalmente, o “desastre”), assinalando a deslocação forçada de aproximadamente 300 mil palestinianos durante a guerra de junho de 1967, quando Israel ocupou a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, e a Faixa de Gaza (esta foi a segunda grande deslocação, depois da Naqba, ou “catástrofe”, de 1948, quando cerca de 750 mil palestinianos foram forçados a deixar as suas terras.) E lembrar que, 58 anos depois dessa catástrofe, a operação militar israelita em curso já levou ao maior deslocamento de palestinianos na Cisjordânia desde então, como bem documentou a Amnistia Internacional.

É importante recordar isso no momento em que os palestinianos que já quase não sobrevivem na Faixa de Gaza têm de fazer uma “escolha sombria” entre sucumbir à fome ou correr o risco de serem mortos enquanto tentam receber a escassa comida dos pouquíssimos centros de ajuda humanitária a funcionar na região.

É importante repetir isso agora, mesmo se tantos já o disseram antes e foram ignorados.

A 23 de dezembro de 2023, “apenas” dois meses e meio depois do massacre perpetrado pelo Hamas e do início da ofensiva militar israelita, o pastor Munther Isaac, árabe e palestiniano, da Igreja Evangélica Luterana de Belém, já afirmava: “A hipocrisia e o racismo do mundo ocidental são óbvios e assustadores! (…) Estamos indignados com a cumplicidade da Igreja. Sejamos claros: silêncio é cumplicidade, (assim como) apelos vazios por paz sem cessar o fogo e o fim da ocupação, e frases vazias sobre empatia sem ação direta. Então, aqui está a minha mensagem: Gaza tornou-se hoje a bússola moral do mundo. Gaza era o inferno na Terra antes de 7 de outubro (…) Se não estás horrorizado com o que está a acontecer; se não estás abalado até ao âmago – então há algo de errado na tua humanidade. Se nós, como cristãos, não estamos indignados com este genocídio, com a instrumentalização da Bíblia para justificá-lo, há algo errado com o nosso testemunho cristão, comprometendo a credibilidade do Evangelho! Se não consegues chamar a isto genocídio, a culpa é tua. É um pecado e uma escuridão que abraças por livre e espontânea vontade.”

Por essa altura, eram cerca de 20 mil os mortos na Faixa de Gaza, entre os quais quase nove mil crianças. Havia outros quantos milhares sob os escombros. E 1,9 milhões de deslocados. Mas a teoria de que os ataques israelitas visavam apenas – e até em nome de Deus – a auto-defesa e eliminar o Hamas ainda convencia muita gente. Um ano depois disso, em dezembro de 2024, o número oficial de mortos já ultrapassava os 45 mil e Munther Isaac insistia: “Porque é que alguém ainda está a debater se isto é um genocídio ou não? Não consigo acreditar. No entanto, mesmo quando líderes da Igreja simplesmente pedem uma investigação para saber se se trata de um genocídio, essa pessoa é criticada, e isso torna-se notícia de última hora. Amigos, as evidências são claras. A verdade está à vista de todos. A questão não é saber se isto é um genocídio. Este não é o debate. A verdadeira questão é: porque é que o mundo e a Igreja não estão a chamar-lhe genocídio?”

UnicefEyad El Baba Ayman Abu Hujair, 5, recebe tratamento após um ataque aéreo contra a Escola Al-Hasayneh em Gaza (arquivo, maio de 2025)

Abu Hujair, 5 anos, recebe tratamento após um ataque aéreo contra a Escola Al-Hasayneh, em Gaza, maio de 2025. “Porque é que alguém ainda está a debater se isto é um genocídio ou não?” Foto ©  Unicef/Eyad El Baba Ayman

O pastor e teólogo palestiniano, que vive na Cisjordânia, referia-se ao apelo que o Papa Francisco fizera em novembro. A simples admissão pelo líder católico de que se deveria investigar se o que estava a ocorrer na Faixa de Gaza era um genocídio levantou uma onda de críticas, algumas delas violentas.

Mas logo na semana seguinte Francisco criticava no Vaticano “a arrogância do invasor” na Palestina, numa frase improvisada que não aparecia no seu discurso inicial, e domingo após domingo continuaria a pedir que as armas se calassem. Mesmo já internado no Hospital Gemelli, com recomendação médica de repouso total, o Papa procurava não faltar ao seu “encontro diário” com a Paróquia da Sagrada Família, em Gaza, onde têm estado abrigadas cerca de 500 pessoas, muitas delas não cristãs. Pontualmente às 20 horas, Francisco telefonava para o pároco, Gabriel Romanelli, a perguntar como estavam todos, o que tinham feito, se tinham conseguido comer, tratando-os pelo nome e dando-lhes a sua bênção.

Um dos últimos pedidos de Francisco antes de morrer foi que o papamóvel que habitualmente usava para se deslocar entre a multidão fosse transformado num pequeno posto médico para servir as crianças em Gaza. A Cáritas Suécia apoiou a Cáritas Jerusalém na tarefa de preparar o veículo, que já se encontra às portas de Gaza mas foi impedido de entrar, denunciou esta semana a Catholic News Agency. “Ainda estamos a trabalhar em coordenação com agências governamentais para garantir que o papamóvel entre em Gaza. Mas as fronteiras permanecem fechadas e, na minha opinião, isso não será possível num futuro próximo”, afirmou Harout Bedrossian, assessor de imprensa da Caritas Jerusalém, em declarações àquela agência.

Enquanto isso, todas as noites a paróquia assinala agora aquela a que chamam de “hora do Papa”. Às oito da noite, os sinos da igreja tocam, ousando ecoar como sinal de esperança numa cidade devastada pela guerra. Um ritual que nasceu dessa profunda ligação pessoal com o Papa Francisco, que, desde 7 de outubro de 2023 e até à sua morte, a 21 de abril, nesse mesmo horário, se fez sempre presente, contou o padre Gabriel Romanelli ao National Catholic Reporter. “É um gesto que fazemos para continuar a sentir sua presença e a presença da Igreja”, justificou.

Uma das chamadas diárias de Francisco para a paróquia de Gaza que ficou registada em vídeo. 

Leão XIV ainda não telefonou ao pároco de Gaza, mas logo na sua primeira audiência manifestou uma grande preocupação com o que se passa na região. “Renovo o meu apelo sincero para consentir a entrada de ajuda humanitária digna e para pôr fim às hostilidades, cujo preço desolador está a ser pago por crianças, idosos e doentes”, afirmou o novo Papa, depois de no domingo anterior, no Regina Caeli, após a missa de início de pontificado, ter denunciado o facto de na Faixa de Gaza “as crianças, as famílias, os idosos sobreviventes” estarem “reduzidos à fome”.

Na sequência deste apelo, e diante da cada vez mais grave situação vivida pelos cerca de dois milhões que ali sobrevivem, foram várias as conferências episcopais que fizeram finalmente ouvir as suas vozes ao longo das últimas duas semanas, desde a Irlanda à Austrália, passando pela Noruega ou por Espanha, como noticiou o 7MARGENS.

Também os bispos maronitas do Líbano, os da Igreja de Inglaterra, ou os da Igreja Evangélica Reformada da Suíça pediram o fim da guerra na Faixa de Gaza, manifestando-se veementemente contra “a restrição direcionada da ajuda humanitária, a punição coletiva de populações inteiras, o uso estratégico da fome, da fuga e do medo”.

Em França, os líderes das igrejas ortodoxa, protestante e católica assinaram no passado dia 25 uma declaração conjunta a pedir “uma paz real e duradoura ” e a insistir na necessidade de respeito pelo direito humanitário, “um componente necessário da justiça hoje”.

Já nos EUA, o silêncio dos bispos é ensurdecedor e levou o movimento ecuménico não-violento cristão Kairos Palestine a endereçar-lhes duas cartas abertas. Na última missiva, os representantes do movimento fizeram vários apelos concretos à Conferência Episcopal católica norte-americana: um deles foi “reconhecer o sofrimento do povo palestiniano, incluindo os cristãos palestinianos, e denunciar publicamente a ocupação ilegal israelita, o apartheid e o genocídio contra o nosso povo”, e outro “pedir o fim do financiamento militar dos EUA a Israel até que este cumpra as leis internacionais”.

E em Portugal?

Na última semana, tivemos a boa notícia de que o bispo de Setúbal, Américo Aguiar, enviou para a Terra Santa a totalidade do valor da renúncia quaresmal dos fiéis da sua diocese (mais de 53 mil euros). O que estava inicialmente previsto era enviar apenas 50% do valor recolhido (o restante seria para o Fundo Diocesano de Emergência), mas dada “a urgência e o drama que se vive na região” Américo Aguiar decidiu doar a totalidade.

Em contraste, continuamos sem saber nada quanto à campanha de angariação de fundos em favor das comunidades cristãs da Terra Santa que a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) promoveu em todas as dioceses do país durante o tempo do Advento e Natal em dezembro do ano passado. Isso mesmo, há já seis meses. Questionado pelo 7MARGENS, o gabinete de comunicação da Conferência Episcopal Portuguesa respondeu que “os resultados nacionais serão, à partida, divulgados depois do Conselho Permanente de 17 de junho”. Não deram a certeza.

Também não há ainda nenhuma declaração da CEP ou da sua Comissão Nacional Justiça e Paz sobre o que se passa em Gaza. Traduziram e partilharam o apelo feito pela congénere espanhola e parece que não se irá além disso. Segundo foi dito ao 7MARGENS pelo gabinete de comunicação da CEP, um pronunciamento equivalente da parte dos bispos portugueses não está previsto para um futuro próximo.

Mas porque se calam? Porque não levantam também a sua voz, unindo-a à do Papa e à de cada vez mais líderes políticos, religiosos e representantes da sociedade civil? Em si, uma declaração dos bispos portugueses não adiantará muito, mas perante o genocídio a que estamos a assistir em direto, todas as vozes que se levantem serão poucas. E todos os que permaneçam calados serão cúmplices.

Na audiência desta quarta-feira, o Papa Leão XIV não fez referência à guerra durante a sua intervenção. Mas, ao refletir sobre a parábola dos operários na vinha, alertou que à luz da mesma “o cristão de hoje poderia ser tentado a pensar: ‘Por que começar a trabalhar imediatamente? Se a remuneração é a mesma, por que trabalhar mais?'”. E depois deu a resposta que seria a de Santo Agostinho. “Por que razão, pois, demoras em seguir quem te chama, enquanto estás certo da remuneração, mas incerto quanto ao dia? Presta atenção a não tirares de ti, devido à tua hesitação, o que ele te oferecer em conformidade com a sua promessa”.

A todos aqueles que ainda não levantaram as suas vozes, em particular aos cristãos (e concretamente à CEP), é importante dizer: não se demorem.

 

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