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Guilherme d'Oliveira Martins

Um sinal prometedor

É fundamental regressarmos às conclusões do Sínodo no tocante ao papel das mulheres na Igreja Católica. Torna-se necessário fazer uma leitura atenta do que aí se disse. É verdade que se poderia ter ido mais longe, mas numa instituição bimilenária é indispensável dar passos seguros, sem esquecer a audácia e a coragem. Se virmos bem, tudo aqui está dito, e não podemos esquecer que a sociedade humana compreende que a dignidade da pessoa humana, no sentido universalista, tem de abranger todos de um modo aberto e paritário. Releia-se, por isso, o texto fundamental do Sínodo, que deve estar bem presente: «Em virtude do Batismo, homens e mulheres gozam de igual dignidade no Povo de Deus. No entanto, as mulheres continuam a encontrar obstáculos para obter um reconhecimento mais pleno dos seus carismas, da sua vocação e do seu lugar nos vários sectores da vida da Igreja, em detrimento do serviço à missão comum».

Sem tergiversações, sigamos diretamente o texto aprovado. Não pode haver qualquer ilusão sobre qual o sentido das Escrituras nesta matéria. De facto, «as Escrituras atestam o papel de primeiro plano de muitas mulheres na história da salvação. A uma mulher, Maria de Magdala, foi confiado o primeiro anúncio da Ressurreição; no dia de Pentecostes, Maria, a Mãe de Jesus, estava presente no Cenáculo, juntamente com muitas outras mulheres que tinham seguido o Senhor. É importante que as passagens relevantes da Escritura encontrem lugar apropriado nos lecionários litúrgicos. Alguns momentos cruciais da história da Igreja confirmam o contributo essencial das mulheres movidas pelo Espírito. As mulheres constituem a maioria daqueles que frequentam as igrejas e são frequentemente as primeiras testemunhas da fé nas famílias. São ativas na vida das pequenas comunidades cristãs e nas paróquias; dirigem escolas, hospitais e centros de acolhimento; lideram iniciativas de reconciliação e de promoção da dignidade humana e da justiça social. As mulheres contribuem para a investigação teológica e estão presentes em posições de responsabilidade nas instituições ligadas à Igreja, na Cúria diocesana e na Cúria Romana. Há mulheres que exercem cargos de autoridade ou são responsáveis pela comunidade».

Simona Brambilla. Foto Dicastério para a Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica

‘Quando Emmanuel Mounier afirmou que “a mulher também é pessoa”, houve quem considerasse a afirmação como óbvia ou supérflua, mas a verdade é que ainda hoje estamos confrontados com incompreensões e dúvidas incompreensíveis a esse respeito, o que obriga a tirarmos as devidas consequências.’ Foto: Irmã Simona Brambilla. © Dicastério para a Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica

Há, deste modo, um sinal muito importante que acaba de ser dado: pela primeira vez na história da Igreja Católica, uma mulher foi nomeada Prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. Trata-se da irmã Simona Brambilla, religiosa das Missionárias da Consolata, doutorada em Psicologia pela Universidade Gregoriana. Quando Emmanuel Mounier afirmou que “a mulher também é pessoa”, houve quem considerasse a afirmação como óbvia ou supérflua, mas a verdade é que ainda hoje estamos confrontados com incompreensões e dúvidas incompreensíveis a esse respeito, o que obriga a tirarmos as devidas consequências.

Até hoje, a Igreja Católica reconheceu 36 doutores, entre os quais quatro mulheres: Teresa de Ávila (1515-1582), Catarina de Sena (1347-1380), Teresa de Lisieux (1873-1897) e, por último, a monja beneditina Hildegarda de Bingen (1098-1179). Poderemos falar, certamente no futuro próximo, ainda da Santa Teresa Benedita da Cruz, a filósofa reconhecida mundialmente com uma importante obra publicada, Edith Stein (1891-1942). E quando lemos os contributos teológicos destas mulheres compreendemos bem a força da sua fé e da sua reflexão em termos de extraordinária relevância. Demonstram, afinal, como o tempo confirmará por certo, a exigência do reconhecimento da dignidade humana com todas as suas consequências. Daí o Sínodo convidar a uma plena concretização «de todas as oportunidades já previstas no direito vigente relativamente ao papel das mulheres, particularmente nos lugares onde estas continuam por cumprir. Não há razões que impeçam as mulheres de assumir funções de liderança na Igreja: não se pode impedir o que vem do Espírito Santo. A questão do acesso das mulheres ao ministério diaconal também permanece em aberto. É necessário prosseguir o discernimento a este respeito. A Assembleia convida também a prestar maior atenção à linguagem e às imagens utilizadas na pregação, no ensino, na catequese e na redação dos documentos oficiais da Igreja, dando mais espaço ao contributo de mulheres santas, teólogas e místicas».

Se temos agora um sinal prometedor, somos chamados à coragem e ao uso coerente da sabedoria. Daí a importância de uma leitura atenta de um texto notável onde está tudo dito, importando tirar consequências. Eis o desafio fundamental: partir de cada uma destas considerações, para podermos com determinação avançar no reconhecimento da dignidade humana para todos nas suas justas consequências. Como afirmou o Papa Francisco, “penso em todas as mulheres: agradeço-lhes pelo seu compromisso em construir uma sociedade mais humana, por meio da sua capacidade de compreender a realidade com um olhar criativo e um coração terno” .

 

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

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