
O sínodo que ontem, dia 2, viveu a abertura da sua segunda sessão plenária ocupa o lugar do concílio que a herança dos dois anteriores pontificados não permitiu a Francisco convocar. Se bem que a missão da Igreja seja um dos três pilares deste sínodo, aquilo que em linguagem laica poderíamos chamar de “organização da Igreja” constitui a sua centralidade, a sua temática principal. E será sobre as conclusões desta assembleia que o Papa escreverá a exortação apostólica em que condensará o ‘testamento’ espiritual e pastoral do seu pontificado.
Os desafios destes longos dias de outubro são, portanto, de monta. Tal como no abrir de portas do Concílio Vaticano II, o que ocupa este sínodo é a reforma da Igreja Católica. Em linguagem mais profana, a interrogação a que os membros da assembleia reunida desde ontem procuram responder é esta: como organizar a comunidade católica de modo que ela seja capaz de anunciar Cristo aos homens e mulheres de hoje e de amanhã e seja olhada não só como um desafio fascinante para cada um deles e cada uma delas, mas também como experiência pertinente perante as realidades que conformam a atualidade em cada recanto do mundo?
Ao longo do seu pontificado, Francisco tem sido cristalino sobre o que considera ser a primeira e principal dificuldade que a Igreja Católica hoje enfrenta para ser o que sonha e tem por missão ser: o clericalismo. Por isso fundou este sínodo num processo de escuta universal de todos e lhe deu um lema – a sinodalidade – que traduziu em três eixos: participação, comunhão e missão.
Entre muitos outros aspetos, a audição do Povo de Deus trouxe para a luz do dia dois factos incontornáveis: a existência de fraturas profundas sobre questões relevantes e – o que pode parecer a mesma coisa, mas não o é – o imparável aprofundamento da diversidade de modos de ser Igreja consoante os lugares, as culturas, as situações. Ou seja, muito daquilo que durante os últimos dois pontificados tinha sido reprimido em nome da ortodoxia e da uniformização regular, explodiu e ficou exposto. Um susto!…
Da primeira para a segunda assembleia deste sínodo todas as questões mais “fraturantes” foram remetidas para grupos de peritos cujo trabalho terminará apenas no verão do próximo ano. Muito provavelmente, a pluralidade de práticas pastorais, a diversidade de modos de celebrar a fé, as diferenças de papéis de uns e outras no interior das comunidades, as prioridades e temáticas locais farão o seu caminho sem precisarem de proclamações sinodais e sem grandes alaridos, tal como está acontecendo com o rito amazónico.
Fica então esvaziado de sentido e propósito o Sínodo sobre a Sinodalidade?
Avanços tímidos, impasses e surpresas

O Papa numa mesa de trabalho da primeira sessão do Sínodo, em 28 de outubro de 2023: o sentido deste Sínodo católico dependerá muito também das conclusões entregues ao Papa e da exortação que ele escreverá. Foto © Ricardo Perna
A resposta à pergunta será dada, em última análise, naquilo que Francisco escrever no outono do próximo ano, na sequência do relato dos debates e recomendações havidos durante as duas assembleias gerais.
Mas na verdade e até agora os consensos no caminho da desclericalização parecem muito tímidos. Mudanças na formação dos seminaristas e maior participação dos leigos nas estruturas de governação da Igreja farão, seguramente, parte do texto final desta assembleia. Contudo, a chamada à participação tem estado limitada à responsabilização dos leigos por tarefas que a redução do número de padres já não permite serem eles a realizar. Dito na terminologia da Igreja Católica: trata-se da clericalização de alguns leigos e não de uma participação que considere as competências, conhecimentos e experiência dos leigos como realidades fundamentais nas decisões sobre as prioridades na vida das comunidades.
A questão decisiva neste tema do sínodo – a participação – não se prende tanto com o número de novos ministérios (serviços) que os leigos e leigas vão poder desempenhar sem serem ordenados. Radica, isso sim, na separação entre autoridade e poder, no reconhecimento de que a participação e responsabilização de todos na condução e definição das prioridades de cada comunidade raramente envolve questões doutrinais, devendo por outro lado ser profundamente enformado pelo que os leigos sabem, veem e vivem no mundo e na polis. Leigos que mais do que serem remetidos ao papel de simples “consultados” possam participar por inteiro nas decisões. Não é por acaso que várias vozes têm sublinhado que colocar a sinodalidade como a forma de ser Igreja obriga a uma profunda revisão do Direito Canónico.
O Concílio Vaticano II trouxe a Igreja para conviver com a modernidade quando os tempos anunciavam a pós-modernidade. Os dois pontificados anteriores a Francisco ficaram marcados pela rejeição do ambiente cultural pós-moderno. Este sínodo acontece num tempo em que a proliferação de guerras mortíferas e de terríveis genocídios, o crescimento exponencial das desigualdades e da conflitualidade social, o esgotamento dos recursos do planeta e a diversificação dos meios de condicionar e controlar e as populações se expande a ritmo imparável, tudo isto e muito mais anunciando a mudança de época para a qual Francisco não tem parado de chamar a atenção.
Não descortinamos inteiramente que características terá essa época em que estamos a entrar, mas é a ela e não à pós-modernidade que o aggiornamento da Igreja Católica é desafiado a acontecer. Movimento de mudança e reforma que já não pode ter como referência a cristandade, mas que terá de pensar a Igreja enquanto realidade minoritária, reduzida, excluindo alguns poucos países, à vivência de uma minoria. Não é pequena a alteração de referenciais!

“As crianças perdem sempre a guerra”. Imagem criada para a Unicef por Victor Torres, Fabián Ovando, Kenneth Foweraker, Ricardo Börgel/Agência de publicidade HavasCreative, de Santiago do Chile; produção: Semilla Studio (Santiago do Chile).
É certo que num mundo em que a racionalidade parece perecer perante o sentimento, em que a verificação científica vale menos do que a convicção pessoal ou de grupo, a Igreja Católica se tem posicionado do lado dos que valorizam o pensamento científico como ferramenta para interpretar a realidade. Quer no campo do ambiente como no da economia, das relações internacionais, do armamento e da paz, das migrações às crescentes desigualdades, das realidades sociais emergentes às novas formas de dominação, o ensinamento da Igreja Católica – que muitos católicos não perfilam ou seguem – tem procurado fundamento nos dados oferecidos pela investigação científica, criticando o fechamento de outros em trincheiras ideológicas que sobrepõem preconceitos à realidade.
Esse enorme serviço da Igreja às culturas atuais não se estende, porém, a todas as áreas do seu ensinamento oficial. No que toca à sexualidade, à construção da identidade de género, ou à orientação sexual de cada pessoa o magistério da Igreja permanece impermeável aos avanços científicos recentes e, por isso, este sínodo descartará a possibilidade de ser casa igual para todos, ainda que não fechando as portas na cara de ninguém.
De igual modo, a dificuldade em aceitar as revelações que a investigação sobre a história da Igreja tem produzido, limitará a inspiração que a Tradição traz para a invenção de novas formas de ser Igreja à reprodução mais ou menos modernizada das formulações que a história consagrou.
Duas dificuldades que continuarão a impedir muitos dos nossos contemporâneos de verem as comunidades eclesiais como sinal do Deus da misericórdia. Dificuldades que este sínodo não vai conseguir superar, mas que, pelo menos, não deixará de ter abordado.
Nestas reuniões magnas da Igreja Católica entre o que se espera e o que acontece há sempre lugar para grandes surpresas. Seja então a espera marcada não pelas expectativas, mas pela Esperança.









