
Distribuição do livro “Lusofonias”, por Tony Neves, missionário Espiritano e colaborador do 7MARGENS. Foto Vatican News, cedida pelo P. Tony Neves.
Desenganem-se os que creem que, neste verão, o Papa Francisco se deixou entusiasmar pela silly season e resolveu escrever sobre – imagine-se! – literatura. Efetivamente, a Carta do Santo Padre Francisco sobre o papel da literatura na educação é muito mais do que uma reflexão sobre formas edificantes de entretenimento, como poderíamos julgar pela leitura apressada da frase que abre o segundo parágrafo desse texto: “Muitas vezes, no tédio das férias, no calor e na solidão dos bairros desertos, encontrar um bom livro para ler torna-se um oásis, afastando-nos de outras escolhas que são nocivas” (n. 2), como “media, […] redes sociais, […] telemóveis e […] outros dispositivos” (n.º 2).
Ao contrário, esta Carta, desde as suas primeiras palavras, vai-se construindo e reformulando como uma reflexão sobre o valor da leitura de literatura “no caminho do amadurecimento pessoal” (n.º 1). Nela, o Papa Francisco deixa claro o seu objetivo: “desejo propor uma mudança radical de atitude em relação à grande atenção que deve ser dada à literatura no contexto da formação dos candidatos ao sacerdócio” (n.º 5, negrito meu). E faz uma advertência: “o que se segue pode ser dito, de modo semelhante, em relação à formação de todos os agentes pastorais e de qualquer cristão” (n.º 1). São várias as razões para essa “mudança radical”. Começo por destacar a seguinte: “Neste caminho, que nos torna sensíveis ao mistério dos outros, a literatura faz-nos aprender a tocar os corações” (n.º 21); “o problema da fé nos dias de hoje não é, em primeiro lugar, o de acreditar mais ou acreditar menos em proposições doutrinais. Liga-se antes à incapacidade de tantos se comoverem perante Deus, a sua criação e os outros seres humanos” (n.º 22).
E, então, não são os cristãos mais do que candidatos ao sacerdócio em potência? Pelo batismo, não renascemos todos sem exceção “sacerdotes, profetas e reis” (Catecismo da Igreja Católica, n.º 1241, 1268, 1291)? O Concílio do Vaticano II diz-nos que sim, nomeadamente mediante o decreto Apostolicam Actuositatem, na sequência da constituição dogmática Lumen Gentium. Com efeito, se esta distingue “sacerdócio comum” de “sacerdócio ministerial”, aquele lembra que cada um dos fiéis tem “o direito e o dever” (n.º 3) de atuar no mundo com as virtudes do Espírito Santo, quer no “apostolado individual” quer no “apostolado associado” (n.º 16), sendo que, mesmo quando o apostolado associado não é uma opção, o individual é uma obrigação: “A forma peculiar de apostolado individual, e sinal muito acomodado também aos nossos tempos, porque manifesta Cristo vivo nos seus fiéis, é o testemunho de toda a vida laical que flui da fé, esperança e caridade”, “ao cooperarem na construção e governo da ordem temporal”; “A este apostolado […] são chamados e, por isso, obrigados, todos os leigos, de qualquer condição” (n.º 16).
Com efeito, o valor da leitura de textos literários no “caminho de amadurecimento pessoal” (n.º 1) exige a disponibilidade para processos de discernimento. Para um cristão, ser “sacerdote, profeta e rei” é uma honra que se alcança com o esvaziamento da vaidade, da soberba, das certezas, para que o Espírito Santo seja o interlocutor da capacidade de entender o outro, de tomar decisões e de agir, não necessariamente por esta ordem… Um cristão é um ser humano melhor que os outros? Não creio. Aliás, a muita literatura que chegou até nós na biblioteca a que damos o nome de Bíblia põe em cena perguntas, respostas e modos de exercício de poder e de inquietação de quem se encontrou com um homem concreto, de carne e osso, que os cristãos creem ser também o filho de Deus. Por sua vez, essa biblioteca resulta da criação literária da tradição oral e de hagiógrafos. E, simplificando ao extremo, está na origem de um termo caro à literatura: cânone.
Na sua Carta, o Papa Francisco considera que “para um crente que deseja sinceramente entrar em diálogo com a cultura do seu tempo ou, simplesmente, com a vida de pessoas concretas, a literatura torna-se indispensável” (n.º 8). E acrescenta a liberdade e a criatividade como atributos inalienáveis do leitor, pois “O contacto com diferentes estilos literários e gramaticais permitirá sempre aprofundar a polifonia da Revelação, sem empobrecer ou reduzir quer às próprias exigências históricas quer às próprias estruturas mentais” (n.º 10). Os leitores, de modos variados, leem, compreendem, têm voz. Por isso, Francisco lembra-nos que até os Atos dos Apóstolos revelam Paulo leitor de poetas clássicos gregos (cf. n.º 12). Não podemos ser papagaios.
Maria do Sameiro Pedro é professora adjunta de Língua e Literatura Portuguesas no Politécnico de Beja. Integrou a Comissão de Acompanhamento do Programa do Ensino do Português no 1º Ciclo e faz parte da Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura 2027. Foi catequista de adultos (2019-2024) e é colaboradora do 7MARGENS.
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