
Migrantes salvos num barco da organização Médicos Sem Fronteiras: “Se nessas circunstâncias cometi um crime, salvando estas pessoas, então prendam-me. Estou feliz por ter feito o que fiz”, diz Luca Casarini. Foto © Médicos Sem Fronteiras.
A criação de uma Conferência Eclesial do Mediterrâneo, para “poder escutar directamente a voz das pessoas migrantes” é uma das propostas feitas nesta quinta-feira na assembleia sinodal católica que decorre em Roma até final do mês. A informação foi dada ao início da tarde de hoje por Sheila Pires, do secretariado de informação do Sínodo, na conferência de imprensa diária.
“No futuro, propõe-se criar uma assembleia eclesial mediterrânea, e não Euromediterrânea, para poder escutar directamente a voz das pessoas migrantes”, resumiu Sheila Pires. A responsável não referiu mais pormenores sobre a proposta, nem sequer que países poderiam estar integrados nessa futura assembleia, mas pelo nome proposto ela poderia incluir pelo menos todos os países da bacia mediterrânica: Europa, Médio Oriente e Norte de África. E tendo em conta que se fala de “assembleia episcopal”, tal estrutura poderia abranger não só conferências episcopais, como também redes e organizações que trabalham com a realidade dos migrantes – no fundo, dando continuidade ao que têm sido os Encontros do Mediterrâneo. A última edição desta iniciativa, há um mês, decorreu na Albânia, mas a penúltima, em Setembro de 2023, em Marselha (França) contou com a participação do Papa Francisco. [ver 7MARGENS]
O Mediterrâneo e as migrações em geral tem sido um tema muito presente no Sínodo sobre a sinodalidade, desde o ano passado. Na assembleia de 2023, o italiano Luca Casarini, responsável da ONG Mediterranea, e que esteve já envolvido nos movimentos em defesa do clima e de uma economia mais justa, deu um testemunho sobre o trabalho da organização que lidera e sobre a realidade dos migrantes que procuram abrigo na Europa. Aliás, foi essa experiência que a dada altura o fez converter à fé cristã.
No ano passado, numa das conferências de imprensa do sínodo, Luca Casarini referiu: “O Evangelho acolhe publicanos e prostitutas, Jesus vai em busca deles e não daqueles que estão em ordem. Quanto à minha participação passada em movimentos populares, nos acontecimentos de Génova [protestos contra a cimeira do G-8] fui absolvido nas três instâncias de julgamento. Quanto ao crime de auxílio e cumplicidade à imigração ilegal, bom, confesso que não compreendi muito bem a acusação que foi movida contra mim, porque para mim nenhum ser humano é ilegal. Por isso, entendi que estava a ser investigado porque tinha resgatado 38 pessoas que estavam em mar aberto há 38 dias. Entre eles estava uma menina que foi violada por cinco guardas líbios e ficou todo esse tempo sem médico. Se nessas circunstâncias cometi um crime, salvando estas pessoas, então prendam-me. Estou feliz por ter feito o que fiz.”
1400 mortos este ano, 280 das quais crianças

A Mediterranea salvou no passado domingo 58 pessoas que estavam há 22 horas à deriva no mar. Foto © Naeblys
Já nesta semana, Luca Casarini contou no Sínodo a última missão de resgate da Mediterranea que, no último domingo, retirou mais 58 migrantes do mar, salvando-lhes as vidas.
A operação de resgate foi dramática: graças a um alerta da Alarm Phone Hotline, projecto de apoio de emergência para pessoas no mar, os 58 migrantes, que tinham partido da Líbia e estavam à deriva há mais de 22 horas. Só após dez horas, os voluntários da Mediterranea conseguiram resgatar as pessoas.
“Interceptar migrantes tornou-se um negócio”, afirmou Casarini, em declarações ao Vatican News. “E isso leva a outra questão urgente: a abertura do centro de detenção e expulsão da Itália na Albânia [que a primeira-ministra italiana propôs e que será abordado na cimeira europeia desta quinta e sexta-feira]. Este é um precedente perigoso porque efectivamente corrói o direito de asilo, um pilar fundamental de nossas democracias desde a Segunda Guerra Mundial”.
Desde janeiro, já morreram pelo menos 1.400 pessoas no Mediterrâneo central, 20% das quais eram crianças. “De certa forma, elas morreram porque não foram resgatadas”, dizia Casarini, que critica o facto de haver navios militares naquelas águas, mas que “não são encarregues de busca e resgate, o que é incompreensível”.
Por isso, Casarini valorizava a sua participação no Sínodo: “É uma oportunidade incrível de ver que os problemas que enfrentamos no Mediterrâneo são os mesmos que as pessoas enfrentam em todo o mundo. É também uma oportunidade de pensar sobre um novo futuro, que começa com aqueles que estão sofrendo, os que estão nas margens. Podemos entender como é um novo mundo começando com os mais vulneráveis. Essa reflexão é certamente central para o Sínodo”.










