
Foto © Tyler Nix / Unsplash
Setembro, corria o ano de 1986. Éramos então um jovem casal e o nosso primeiro filho iria fazer um ano em outubro.
Eu estava no início da vida profissional a trabalhar numa empresa familiar de metalomecânica e a Margarida era professora de matemática já com alguns anos de docência. Vivíamos no 3º andar de um apartamento arrendado, sem elevador. O nosso ginásio era, por isso, o sobe e desce de escadas de uma casa solarenga pois tinha três frentes que miravam o sol sequencialmente ao longo do dia. Suportável no Inverno e tórrida no Verão. Nos dias de canícula era só abrir as janelas e voilá, tínhamos o nosso ar condicionado em serviço. Um padrão muito razoável para quem vinha de uma classe média baixa. Nada de máquinas de lavar loiça ou telefone, o que nem se nos afigurava estranho. O padrão de vida com equipamentos e serviços que hoje são vulgaríssimos viria apenas alguns anos mais tarde. Era assim aquela época, mas era também uma opção. Construir um lar com o afeto, os amigos e a montagem de um cenário de memórias que uma casa com os seus objetos também é. E construí-la também com as nossas próprias mãos, porque tem outro sabor e outra densidade. A adesão consciente e refletida a um padrão de vida sóbrio.
Em setembro desse mesmo ano chegou-nos a notícia de que a Taninha iria iniciar a escola primária num colégio em regime de internato por dois anos, a contragosto da mãe, que via naquela a única solução para conjugar a sua situação profissional com a possibilidade de criar a sua filha.
Demorou, mas conseguimos convencer a mãe da Taninha de que havia uma saída melhor: a Taninha ficar em nossa casa. Para além de outras circunstâncias, tínhamos a feliz coincidência de morar muito perto do colégio que ela iria frequentar. Recorde-se que o carro não fazia parte do nosso património e a alternativa eram os transportes públicos mais as solas.
Em abono da verdade, temos de dizer que a Taninha não era só a filha da colega da Margarida. Antes de a acolhermos na nossa casa ela já tinha sido acolhida pelos meus sogros em casa de quem entrara por mero acaso, quando precisou de uma ama. Entrou como “utente” e acabou por se tornar a primeira neta. E este registo de acolhimento por parte dos meus sogros não era uma exceção, mas uma prática de vida encarada com naturalidade e imensa alegria. A atitude deles para comigo foi da mesma natureza quando me integrei no círculo familiar. Regressados de Moçambique em 1975, tiveram que recomeçar a partir quase do zero, mas essa experiência, traumática (suponho), não fez deles pessoas rancorosas, ressabiadas ou sequer egoístas. A doce memória que deles preservo é a de uma verticalidade ética sem mancha e a de uma capacidade de acolhimento sem fronteiras. Para os meus sogros, uma grande alegria era uma casa cheia e com muita algazarra, num registo que também é muito latino.
E assim foi: a Taninha viveu connosco durante cerca de dois anos e foi a irmã mais velha do Pedro, nosso filho biológico. Talvez por isso a ligação entre os dois perdurou em intensidade e cumplicidade durante as décadas seguintes e durante vários anos. E de vez em quando a Taninha retornava a nossa casa para passar alguns dias das suas férias escolares, numa altura em que a nossa casa já fervilhava de vida e confusão com mais três filhos.
A esta distância, a tentação de reinventar as memórias é muito grande, pois como bem expressou Gabriel García Márquez, “a vida não é o que aconteceu; o que nos aconteceu; mas a maneira como nos lembramos daquilo que aconteceu”.
Aqueles quase dois anos decorreram com a vulgaridade e a normalidade com que acontece a vida numa família com dois filhos pequenos. Momentos de alegria e de espanto, mas também momentos de cansaço e de impaciência. Pois toda a criança nos comove, mas toda a criança faz birras e não traz uma pilha que se desliga quando mais convém…
O tecido do Amor não é um itinerário isento de falhas nem tão pouco uma experiência idílica blindada contra tempestades e marés. É mais um deambular, sabendo que uma estrela nos guia e que somos convidados a reerguermo-nos e a renascermos constantemente fazendo-nos acompanhar com todos os nossos talentos, mas também com as nossas debilidades.
A Taninha é hoje uma mulher, casada e com um filho, nosso neto, naturalmente. O convívio com ela nunca se perdeu, mas a nossa ternura por ela, essa, fermentou e levedou. E por isso quando nos reencontramos o entusiasmo é imenso e a conversa interminável. Ela cativou-nos e nós deixamo-nos cativar. Não se abre a porta de casa sem abrir a do coração.
Aguardamos, pois, serena, mas ansiosamente, que as atuais circunstâncias da pandemia permitam retomar a doce normalidade das relações humanas que nos curam e reconstroem, quando ouvimos e somos ouvidos, quando vemos e somos vistos.
(A Sofia, nascida em 1988, é a nossa segunda filha.)
Armando Romano é engenheiro.









