No passado dia 21 de abril, morreu o Papa que em 2013 era desconhecido da maioria dos católicos, apagando-se uma luz de esperança num mundo conturbadíssimo. Jorge Mario Bergoglio aceitou a eleição canónica para ser o sucessor de Bento XVI e compreendeu “(…) que estava em paz, tranquilo. «E como queres ser chamado?», perguntou ainda o cardeal [Re]. Vocabor Franciscus. “Chamar-me-ei Francisco.” (Francisco, Esperança: A Autobiografia, p. 230). Um cardeal vindo “quase do fim do mundo”, como o próprio disse perante a multidão que o aplaudia na Praça de São Pedro e que desde o dia 13 de março de 2013 encetou uma transformação do Ministério Petrino. “O papado é isto: serviço. O título papal de que mais gosto é Servus servorum Dei. Que serve todos, que serve para todos.” (p. 340).
Essa metamorfose começou no sorriso com que se mostrou à multidão e continuou com o inesquecível buona sera com que a saudou. Depois, apresentou-se como bispo de Roma, despojado de algumas vestes que considerou dispensáveis, do anel do Pescador, bem como de uma cruz peitoral mais vistosa, tendo começado por pedir aos fiéis uma oração por Bento XVI e depois por ele mesmo, para que o caminho, desde o seu começo, ficasse marcado por uma relação de proximidade do bispo com a sua diocese e desta com o seu bispo.
Também na sua autobiografia, sobre este despojamento no dia da eleição, Francisco diz-nos o seguinte: “Tinha no dedo o anel de cardeal e tirei-o, mas tinha no bolso o anel da ordenação episcopal e pus esse. Quiseram dar-me outro: «Não, não, tenho este, obrigado.» Propuseram-me uma bela cruz, em ouro, e disse: «Tenho aquela de alpaca da ordenação episcopal, trago-a há vinte anos». (…) Mas não foi nada preparado. Era simplesmente o que sentia, com espontaneidade.” (p. 230).
Estava dado o primeiro sinal: Francisco iria trabalhar por uma Igreja simples, espontânea, que suja as mãos sem calculismos e que tem as portas escancaradas a todos, como a casa de qualquer pai e mãe, sempre disponível para acolher os seus filhos. “A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai, não uma alfândega, mas a casa paterna onde há lugar para cada um com a sua vida difícil (…). A Igreja é de Cristo. E Cristo é de todos, é para todos (…).” (p. 215 e 237). Desejaria e pregaria infinitas vezes que o centro da ação pastoral da Igreja tinha de estar nos pobres, nos marginalizados, nos esquecidos e débeis que são atirados para as periferias existenciais porque horrorizam os poderosos. Francisco foi pai para todos, mas amou especialmente os pobres, os fracos, os injustiçados, tal como fez Jesus. “Se a Igreja assume este dinamismo missionário, deve chegar a todos, sem exceções. Mas quem deveria privilegiar? (…) Sobretudo os pobres e os doentes, aqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos.” (p. 216). Ele colocou os pobres no centro para poder mostrar aos ricos e poderosos o grito daqueles que não têm ninguém que interceda pela sua defesa, pelos seus direitos, pela sua dignidade. Falando dos excluídos, quis falar aos privilegiados, aos que têm tudo e que, eventualmente, têm a mais. E, se assim é, urge que se pratique uma justiça comutativa (cada um deve dar ao outro o que lhe é devido) e distributiva (a sociedade, o Estado, deve dar a cada um o que lhe é devido). E, a partir daqui, trouxe à discussão a importância de olhar para a economia de maneira criativa, de modo que ela possa servir o ser humano e não o contrário, a fim de que este não seja escravo, mas livre.
Francisco foi uma voz profética e firme num mundo de líderes fracos, déspotas e, muitas vezes, egoístas, por não terem em conta o bem da comunidade que foram chamados a servir. Foi o maior, mais escutado e respeitado líder mundial. Discursou no Congresso dos Estados Unidos da América, na Assembleia Geral das Nações Unidas, defendeu firmemente a urgência de cuidarmos da casa comum e, no plano diplomático, por exemplo, conseguiu negociar com a China um acordo para que fossem nomeados novos bispos, tendo sido sempre a voz – pouco escutada – que denunciou e pediu encarecidamente o fim de todos os conflitos bélicos, tendo feito tudo o que estava ao seu alcance para tal, sobretudo no que diz respeito à invasão da Ucrânia pela Rússia e à guerra na Faixa de Gaza. Se dúvidas existirem de que Francisco tudo fez para que estes horrores tivessem fim, basta atentar nas denúncias públicas que fez nas suas intervenções públicas e no que nos deixou escrito: “(…) na manhã seguinte à invasão [da Ucrânia] cancelei todas as audiências e dirigi-me pessoalmente à embaixada russa junto da Santa Sé. Era a primeira vez que um papa o fazia. (…) Propus uma mediação do Vaticano entre as partes, dizendo estar disposto a ir a Moscovo o mais depressa possível, assim que Putin (…) tivesse deixado aberta uma janelinha para negociar. (…) Simultaneamente, telefonei ao presidente ucraniano Zelensky (…) para exprimir a minha dor, a minha solidariedade, a minha proximidade com o seu povo. Estava e continuo à disposição, como um operário, disposto a fazer tudo o que servir o objetivo da paz. Também por isso, única entre todas, a representação diplomática do Vaticano nunca deixou a sua sede na capital ucraniana, nem durante os brutais bombardeamentos.” (p. 282). Adiante, revela que a Santa Sé foi sempre atuando para tentar minimizar os sofrimentos do povo ucraniano, tendo tido ele próprio influência nas trocas de prisioneiros. “Eu próprio intervim para facilitar as trocas de prisioneiros entre Moscovo e Kiev.” (p. 283).
Francisco nunca se coibiu de dizer o que pensava, alertando para a necessidade de construirmos um mundo mais fraterno e amigo, onde os interesses imperiais não sejam colocados à frente da pessoa humana e das suas necessidades. Para tal, insistiu na Fraternidade e na Amizade Social como caminho que humaniza as relações das nações e dos seres humanos, pois só assim se “poderá superar a «cultura da rejeição», que não diz respeito apenas à alimentação e aos bens, mas acima de tudo às pessoas que são marginalizadas por sistemas tecnoeconómicos em que o centro (…) já não é o homem, mas os seus produtos”. (p. 345).

Papa Francisco: “É estranho que ninguém se preocupe com a bênção de um empresário que explora as pessoas (…) ou com quem polui a casa comum, enquanto se escandaliza quando o papa abençoa uma mulher divorciada ou um homossexual”. Foto © Sharon Mccutcheon | Unsplash
A defesa, integração e bênção das pessoas divorciadas, das mães solteiras, dos homossexuais ou transexuais foi outra janela que Francisco abriu, aproximando a Igreja destas pessoas e recordando-lhes que são acolhidas e amadas por Deus como são, evidenciando uma vez mais que a Igreja tem que ser de todos e para todos e que, perante a polémica Declaração Fiducia supplicans sobre o sentido pastoral das bênçãos, disse na altura e deixou escrito que “abençoam-se as pessoas, não as relações”; por isso, “Deus Pai ama-os com o mesmo amor incondicional, ama-os tal como são, e acompanha-os com o estilo que reserva a cada um de nós: proximidade, misericórdia e ternura. Se o Senhor diz todos, quem sou eu para excluir alguém?” (p. 240). A este respeito, o Papa vai mais longe e afirma que “é estranho que ninguém se preocupe com a bênção de um empresário que explora as pessoas (…) ou com quem polui a casa comum, enquanto se escandaliza quando o papa abençoa uma mulher divorciada ou um homossexual” (p. 243), mostrando a hipocrisia que grassa muitas vezes no coração inquisidor da humanidade, afinal, são as nossas diferenças que nos enriquecem, nos aproximam e fazem caminhar como irmãos para a unidade, mesmo que se discuta e confronte o outro; porém, “devemos sempre encontrar-nos à volta da mesma mesa” (p. 245).
O Papa Francisco escolheu servir e acolher toda a gente, ao jeito de Jesus. Foi Ele o seu exemplo e guia, tendo sido um defensor radical do acolhimento e da escuta, sabendo vestir a pele daqueles que sofrem esquecidos e desamparados. E é necessário ter isto em conta, porque aquilo que fez foi anunciar e viver o Evangelho que pregou. A sua autoridade vem daí, do exemplo, do gesto, da credibilidade que granjeou junto de todas as pessoas. Ele não alterou a doutrina no essencial, mas foi radical nos seus gestos para ir ao encontro da humanidade. “(…) No final da existência não nos será perguntado se fomos crentes, mas apenas se fomos credíveis” (p. 342) e Francisco foi muitíssimo credível. Isso dignificou o seu papado e a Igreja que serviu, tendo tido esta capacidade de falar não só “para dentro”, mas também para lá dos “muros” da Igreja, testemunhando com a vida a “doce e reconfortante alegria de evangelizar.” (p. 227).
Conduzido por esta alegria de evangelizar, Francisco foi corajoso, destemido e fiel. Rasgou caminhos, mexeu com poderes instalados, simplificou (ou tentou simplificar) vários processos e quis ser anfitrião de uma Casa ferida e enlameada, mas onde todos se pudessem sentir amados, acolhidos e compreendidos. Foi um homem irreverente e inquieto que amou profundamente e que foi o rosto misericordioso do amor de Deus. Foi um farol de serviço, de comunhão, de humor, de ternura e de esperança.
“A ternura não é fraqueza: é a verdadeira força. É a estrada que os homens e as mulheres mais fortes e corajosos percorreram. Percorramo-la, lutemos com ternura e com coragem. (…) Eu sou apenas um passo.” (p. 347). E que grande passo foi este homem para a vida da Igreja e do Mundo que foi popular sem ser populista.
Saibamos ser merecedores e cuidadores do seu legado.
Adriano Batista é professor.










