A 12 de novembro, em plena guerra contra o invasor, Volodymyr Zelensky exigiu e obteve a demissão dos ministros da Energia e da Justiça, envolvidos em corrupção. Enquanto caem mísseis, drones suicidas e bombas teleguiadas sobre as cidades ucranianas, e a luta continua nas frentes de batalha, o presidente da Ucrânia enfrenta também o inimigo corrupto interior. É isto que distingue um estadista de um possuidor do poder.
Não tenhamos ilusões: a Ucrânia não é um país de anjos. Herdou oligarcas, corrupção endémica, media capturados. Mas, ao contrário da Rússia de Putin, e com apoio da União Europeia, tenta erguer instituições que responsabilizam os ladrões do bem comum. No meio de uma guerra existencial, o presidente escolhe expor a podridão em vez de a varrer para debaixo do tapete. É um gesto de coragem que muitos governos “em paz” não ousam.
Zelensky não nasceu herói como vemos pela biografia escrita por Simon Schuster. Nasceu em Kryvyi Rih, cidade operária, marcada pelos massacres nazis. Licenciou-se em Direito sem brilho especial, viveu de fazer rir, através da KVN. No grupo Kvartal 95 e na série Servos do Povo começou por ridicularizar políticos corruptos. Depois atreveu-se à pergunta impensável: e se, em vez de os parodiar, eu os substituísse? Em 2019, sem máquina partidária e sem biografia, derrotou o sistema e conquistou 75% dos votos.
Logo deu a primeira prova de carácter. Donald Trump telefonou-lhe a exigir um “favor”: lançar lama sobre o filho de Joe Biden em troca de armamentos. O comediante disse “não” a este pedido mafioso. Pagou caro: a ajuda militar atrasou-se, e Putin tomou nota. Mas esse “não” foi peça central no primeiro impeachment de Trump e a primeira grande vitória moral de Zelensky.
Depois vieram os meses mais duros. Os oligarcas atacavam, não havia reformas, o apoio popular descia e o Kremlin começou as ameaças diretas. A 24 de fevereiro de 2022 acabou o tempo das dúvidas. Putin apareceu nos ecrãs, rosto de pedra, a vomitar ódio e mentiras sobre desnazificar o vizinho com desprezo pela “pequena Rússia”. Minutos depois, o antigo ator pegou num telemóvel e numa camisola verde escura militar e falou à Ucrânia e ao mundo: “Ao atacarem-nos, verão os nossos rostos, não as nossas costas. Eu estou aqui.” Não fugiu. Recusou a boleia americana com a frase que já entrou na história: “Preciso de munições, não de boleia.”
A partir daí, a ficção rendeu-se à realidade. O homem que tinha sido um palhaço tornou-se mesmo presidente e Putin é hoje um presidente que se tornou um palhaço. Enquanto as tropas russas avançavam, Zelensky transformou-se na lente que concentra o feixe de luz de um povo com o apoio crescente dos homens e mulheres da Ucrânia. Comeu enlatados com os soldados, percorreu trincheiras, apareceu nas cidades bombardeadas, falou por vídeo aos parlamentos do mundo. No Parlamento Europeu, um intérprete quase chorou ao traduzir o que ele nos disse: “Provem que são europeus. Então a vida vencerá a morte e a luz vencerá as trevas.”
A coragem é contagiosa. A Alemanha começou a cortar a dependência do gás russo. A Finlândia e a Suécia, abandonaram décadas e séculos de neutralidade e aderiram à NATO. Empresas, federações olímpicas – entidades que normalmente se ajoelham perante o dinheiro – fecharam as portas a Putin, sob o peso das sanções. Não foi só a diplomacia da velha escola a funcionar: foi também a exigência de cidadãos que registaram, no ecrã dos telemóveis, um presidente exausto a dizer que podia ser a última vez que o viam vivo.
Nada disto impede bombas nem ressuscita mortos. Os mortos de Mariupol, Bucha, e mais centenas de povoações não voltam, as cidades arrasadas do Donbass não voltam. Mas sem Zelensky a Ucrânia seria hoje uma Chechénia esmagada, um território ocupado, e prova de que a tirania nuclear pode tudo. Com Zelensky, a Ucrânia tornou-se frente de combate da democracia europeia.
É por isso que a exigência de demitir ministros corruptos em plena guerra não é um detalhe. É uma mensagem ao inimigo e ao mundo: não lutamos apenas contra o czar Putin e a sua vertical do poder; lutamos contra o velho sistema que vendia o país ao melhor comprador. Herói não é quem nunca falha; é quem, falhando, se corrige em público e arrisca perder para salvar a alma do seu povo.
Hoje, 13 de novembro de 2025, a invasão continua, as trincheiras no Donbass começam a gelar, uns sete milhões de refugiados ucranianos permanecem no estrangeiro e mais uns dez milhões são refugiados internos. A guerra só parece terminar quando Putin desparecer. A Ucrânia não precisa que a idolatremos; precisa que a ajudemos – com armas, com dinheiro, com acolhimento digno, com verdade contra a propaganda. E precisa que reconheçamos isto: num tempo de cínicos e autocratas, um antigo comediante lembrou à Europa que ainda há causas pelas quais vale a pena arriscar a vida.
Volodymyr Zelensky é, com todas as imperfeições humanas, um herói do nosso tempo. A nossa responsabilidade é estar à altura desse heroísmo, com as nossas ações, por pequenas que sejam.

Volodymyr Zelenskyy está profundamente marcado pela guerra na Ucrânia. Foto © Facebook/Occupy Democrats
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.










