
No ano passado, indígenas de 14 aldeias Avá-Guarani chegaram a participar de uma atividade de formação sobre como realizar denúncia sobre contaminação por agrotóxicos. Foto © Lizely Borges
Uma missão pelos Direitos Humanos esteve, de 11 a 13 de setembro, em terras dos povos Avá-Guarani e Guarani e Kaiowá, que têm sido alvos de ataques nos últimos tempos, de acordo com o Cimi (Conselho Indigenista Missionário, da Conferência dos Bispos do Brasil). Durante o mês de julho estes povos foram objeto de violência por fazendeiros e arrendatários e grupos da extrema-direita, imbuídos de ódio e com intenção de influenciar as próximas eleições locais a realizar em outubro. Segundo um comunicado do Cimi: “Indígenas feridos a tiros, incêndios criminosos, sequestros, agressões físicas, racismo nas cidades da área e uso de agrotóxicos em ataques dissimulados. Da guerra química às táticas incendiárias, são cerca de duas dezenas de Guarani feridos em ao menos dez ataques de grande porte nos dois estados. Entre os feridos a tiros, três estão com balas alojadas pelo corpo. Mulheres são ameaçadas de estupro, crianças e adolescentes não podem ir à escola sob pena de represálias, doentes sofrem racismo e desassistências variadas em hospitais. Nas retomadas sob a vigilância de jagunços, o acesso à alimentação e água potável depende de doações”.
O objetivo principal da missão era “prestar solidariedade” aos povos atacados e denunciar os ataques de que são vítimas aqueles povos. Fazem parte da missão, além do Cimi, movimentos de trabalhadores, organizações de apoio aos povos indígenas, organizações religiosas, públicas e vários ministérios e a Organização dos Estados Americanos.
O povo Avá-Guarani está situado na Bolívia, Paraguai, Argentina e centro-oeste do Brasil; a denominação Avá significa “homem”. Este povo lutou contra o Império Espanhol, resistindo à colonização, no século XVI, tendo a partir daí tentado contrariar todas as incursões, incluindo as da Igreja, nomeadamente dos jesuítas e franciscanos. O povo vive sob o risco do agrotóxico Rondup, da Bayer, e são cerca de 4000 pessoas que vivem em região demarcada. Além das doenças próprias da inalação daquele tóxico “o uso intensivo de agrotóxicos contamina rios, alimentos, animais e povos indígenas. Os pesticidas são usados como arma química para confinar os povos indígenas a uma faixa de terra cada vez menor. Dependentes de rios e nascentes para acesso à água, as aldeias relatam doenças frequentes, como vómitos, dores de cabeça, abortos espontâneos, dificuldade para respirar, entre outras, principalmente entre idosos e crianças”. O povo Avé-Guarani tem a sua cultura e crenças próprias.
O povo Guarani possui uma história de luta contra as invasões dos espanhóis e, principalmente, de muitos missionários. Vivem em pequenas reservas, espaços isolados, sendo a sua principal atividade a confeção de artesanato. Estão distribuídos pela Argentina, Paraguai e Brasil, com crenças e culturas próprias e a sua população é de 51 000 indígenas. Um povo muito espiritual, vê as suas terras ancestrais serem invadidas por fazendeiros sem escrúpulos.
O povo Kaiowá vive nas matas do Mato Grosso do Sul e está dividido em 31 territórios indígenas. Com uma grande expressão, os seus conflitos com os grandes latifundiários voltados para a agropecuária são constantes. Possuem os seus rituais e para eles deus é a sua terra, e a natureza o “Nosso grande avô eterno”.
Artigos consultados
- Navarra, Júlia C. Carvalho (2019). Caso Avá-Guarani e a UHE Itaipu Binacional sob os olhares da Justiça de Transição. V.20 N.2.
- Daianny de Azevedo LEHN and FERRARI, Maristela (2024). Implications of the Avá-Guarani struggle for the demarcation of land in Guaira (Parana State) in the border area of Brazil with Paraguay.
- Brandão, Carlos Rodrigues (1990). Os Guarani: índios do Sul – religião, resistência e adaptação.
- Pereira, Levi Marques, (2007). Mobilidade e processos de territorialização entre os Kaiowá atuais. Universidade Federal da Grande Dourados. Revista História em Reflexão: Vol. 1 n. 1 – UFGD – Dourados.
Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.










